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quinta-feira, 11 de agosto de 2011

A volta ao ensino tradicional?



Pessoal, não é preciso ler toda a matéria da Época. Só um pouco. Leia a outra da Folha Equilíbrio, a da 'mãe tigre'.
Escreva uma dissertação que discuta a volta ao ensino tradicional. 
Não se esqueça de que uma boa dissertação pede  bons argumentos. Caso queira fazer uma tese mais ponderada, nem tanto pela volta do ensino tradicional, nem tanto, pela exaltação da educação mais liberal, pode. Mas é preciso expor bem os dois padrões educativos, antes, de mostrar o seu, o que vê outra saída, além da que foi apresentada.
Carta Argumentativa: você deverá escrever à mãe  tigre, dizendo a ela que o ensino tão rigoroso pode prejudicar os filhos dela.Não se esqueça de dizer quem é você ( pode ser outra mãe; um jovem que leu o livro dela...Escolha).






Foram os piores anoda minha vida." A frase ainda é dita com sofrimento pela estudante carioca Chanel de Andrade Rodrigues, de 18 anos. Ela está no 1o ano da faculdade de artes, mas nãoesquece o período em que estudou no Santo Agostinho, do Rio de Janeiro, um dos colégios mais tradicionais e bem-conceituados do país. Do 7o ano do ensino fundamental ao 1o ano do ensinomédio, passou seus dias perdida entre aulas que não acompanhava, um enorme volume de conteúdos para memorizar, provas difíceis, notas baixas e um séquito de professores particulares a cada final de ano letivo. Na escola, não gostava de sair para o recreio e não comia nada. Em casa, compensava a ansiedade comendo demais. Na escola anterior, menos rígidaonde tirava boas notas, costumava nadar e fazer aulas de dança. No Santo Agostinho, evitava as aulas de educação física. Chanel entrou em depressão e engordou 20 quilos.

A mãe tentou convencê-la a fazer terapia, mas ela se recusava. "Eu só queria ser invisível", afirma. "Odiava a competitividade que estava sempre no ar." Só depois que Chanel foi reprovada, no 1o ano, sua mãe decidiu trocá-la de escola. (Procurado por ÉPOCA, o SantoAgostinho não respondeu aos pedidos de entrevista.) O caso de Chanel é apenas um entre centenas que revelam uma realidade incômodao custo emocional alto – muitas vezes altíssimo – do modelo de eficiência adotado naquelas escolas que exigem alto desempenho dos alunos e garantem todo ano boas colocações nos melhores vestibulares.



Consideradas as melhores do país, quase sempre campeãs nas provas nacionais de avaliação, as escolas de ensino tradicional representam, na mente de muitos pais, uma esperança de sucesso para a vida dos filhos num mercado de trabalho competitivo. Apesar de seus resultados inquestionáveis e da procura crescente por escolas desse tipo, esse modelo agora começa a ser mais e mais questionado por seus efeitos colaterais.
O ensino tradicional surgiu na Europa do século XVIII como um modelo em que os alunos sãoensinados e avaliados de forma padronizada. Ele se inspira na ideia de que a mente das crianças é uma tabula rasa, um espaço em branco sobre o qual os diversos conteúdos – gramática, matemática, ciências, história etc. – devem ser inscritos seguindo um método rigoroso de exposição e avaliação. Mais do que qualquer outra aptidão, valoriza o acúmulo de conhecimento: quanto mais fatos e fórmulas o aluno aprende, mais bem avaliado ele é.
Há, ainda, uma forte pressão por desempenho nas provas e um grande volume de conteúdo a estudar. As escolas tradicionais também costumam ser mais rígidas em regras de comportamento, como respeito ao horário, frequência às aulas, uso de uniforme e atitude norecreio. Apesar de ter incorporado conceitos pedagógicos mais modernos, a essência do modelotradicional de ensino permanece a mesma – e a educação tradicional está em alta no mundo, com filas de espera para matrículas e salas abarrotadas de alunos.
A grande procura por uma vaga numa dessas escolas se explica pelo desempenho acima damédia de seus alunos. No Brasil, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que classifica as escolas públicas e particulares a partir das notas tiradas numa prova feita pelos alunos, é decisivo para a família na hora de escolher onde matricular seus filhos. Há anos, os colégios mais tradicionais e rígidoocupam o topo da lista. "É comum hoje em dia pais e mães compararem as posições das instituições em que seus filhos estudam. Se os resultadodas escolas não sãobons, bate o sentimento de que se está fazendo algo errado", afirma Quézia Bombonato, presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia.
Em Vinhedo, no interior de São Paulo, uma escola aberta em 2001 mostra essa tendência. OColégio de Vinhedo, que busca alunos de classe média alta, reproduz uma escola tradicional europeia. Os alunos usam uniformes formais, os professores vestem ternos e tailleurs. A própria decoração da escola parece de outro tempo – embora, dentro da sala de aula, haja lousas interativas, câmeras e laptops para cada aluno. Há ênfase no conteúdo e na disciplina. "Nossa ideia é resgatar valores que são esquecidos", diz o diretor, Eduardo Cumone. "Também temos uma carga horária maior, para que haja melhores resultados." A proposta da escola encontra econos pais. A procura triplicou nos últimos cinco anos. Em 2001, havia uma única turma por série; em 2012, haverá duas ou três.
Os rankings de avaliação também puxam a educação para o lado mais rígido em outros países. "Nos Estados Unidos, está havendo um retorno à tradição, amparado na crença de que pontos na competição internacional são importantes", diz o psicólogo americano Howard Gardner, criadorda Teoria das Inteligências Múltiplas, que propõe vários tipos de inteligência além daquela medida por testes de Q.I. Na Europa, acontece o mesmoO Reino Unido é um bom exemplo. Nofim de 2010, a Secretaria de Educação anunciou uma reforma no ensino que inclui o "retorno aos valores tradicionais": mais conteúdo, mais disciplina – e até a obrigatoriedade de roupas s mais formais na rede pública, com aventais para as meninas e terno e gravata para os meninos. Noanúncioo secretário Michael Gove mostrou sua preocupação com a queda do país nos rankings mundiais de educação. "Vamos voltar ao topo", disse.
O ensino tradicional ganhou ainda mais adeptos recentemente coo lançamento do livro Gritode guerra da mãe tigre. Nele, a advogada sino-americana Amy Chua relata sua experiência na criação de duas filhas com rigidez e exigências que beiravam o absurdo. Ambas eram proibidas de ficar abaixo do 1o lugar na classe e tinham de realizar atividades extracurriculares dificílimas escolhidas pela mãe – uma se tornou exímia violinista e a outra pianista. Pela defesa desses padrões quase marciais de ensino, Amy chegou a ser ameaçada de morte na internet. Mas seu livro entrou rapidamente na lista dos mais vendidos nos Estados Unidos. Isso expõe o medo de toda a nação de se ver rebaixada nas listas internacionais de melhores alunos.
Para quem consegue seguir em frente e encarar tantas exigências, o ensino tradicional pode dar certo. Giulianna Freitas, de 12 anos, cursa o 7o ano do colégio Dante Alighieri, um dos mais antigos e tradicionais de São Paulo. Está lá desde os 3 anos. Ela diz que adora. Afirma tirar de letra as regras rígidada escola, entre elas uniforme impecável e as restrições ao contato afetivoentre meninas e meninos. "Não me vejo em outro colégio", diz. Sua mãe, a dentista Ana Claudia Garcia de Freitas, afirma ter escolhido o Dante pelos ótimos laboratórios e pelas bibliotecas. E também por ter sido sua escola – e a de sua mãe. "É uma tradição na família."
Mas os educadores têm visto com ceticismo cada vez maioo sucesso desse modelo. Eles alertam sobre vários problemas que decorrem da estratégia convencional, baseada na combinação de competitividade e pressão por notas. A primeira limitação é a seleção natural que põe em prática. Esses colégios selecionam os alunos na hora da matrícula – coos famosos "vestibulinhos" – e, depois disso, acabam selecionando, pelo grau de dificuldade em acompanhar o ritmo, aqueles que ficam. "Valorizamoo conteúdo e somos inflexíveis em nossa filosofia de foco no professor, cultura clássica e disciplina", diz Maria Elisa Penna Forte, supervisora do colégio carioca SãoBento, que só aceita meninos e foi quatro vezes campeão nacional do Enem. "Os pais querem que os filhos se saiam bem aqui, mas, em muitos casos, isso não acontece. Aí o melhor é mudar de escola."
A pressão por boas notas pode causar estresse e doenças emocionais. E não garante sucessono futuro
o escolas que, naturalmente, funcionam para os melhores. E os melhores, por motivos óbvios, não são todos. Nem sequer são a maioria. "No caso das escolas tradicionais e seus vestibulinhos, não são os pais que escolhem a escola. É a escola que acaba escolhendo os alunos que quer", diz Victor Paro, professoda Faculdade de Educação da Universidade de SãoPaulo. Para ele, essa situação põe em xeque a própria qualidade desse tipo de ensino. Essas instituições têm as melhores médias de desempenho por terem a melhor pedagogia ou porqueos alunos que passam pelo funil são os mais inteligentes, portanto serão os melhores, independentemente do método de ensino? "Certamente, elas têm valor. Mas é fato que, para entrar, os alunos já têm de ser bons", diz Paro.
SENSIBILIDADE
A estudante de artes Chanel Rodrigues, de 18 anos, faz desenhos em casa, no Rio. Ela entrou em depressão nos anos em que estudou em um colégio tradicional
Uma das grandes dificuldades dos pais é aceitar que a maioria dos filhos não se enquadra ou não tem condição de acompanhar o grau de exigência das escolas mais competitivas. Alguns pais acreditam que tirar o filho da escola mais conceituada é sinal de fracasso. Insistem nela – e issoacaba pesando ainda mais sobre oombros do estudante. "A criança sofre porque não tem operfil para aquele tipo de colégio", diz Fábio Barbirato, chefe do setor de Neuropsiquiatria daInfância e da Adolescência da Santa Casa, no Rio de Janeiro. "Os pais precisam conhecer o perfil de seus filhos."
A política de seleção dos melhores não pode servir para educar a média das crianças, uma exigência social. Não há nada a opor a uma política de seleção rigorosa. Mas um país que precisaoferecer educação de qualidade para todos precisa se preocupar com aqueles que não passam por esse funil – a ampla maioria.
O ambiente de alta pressão tem ainda um custo emocional para aqueles que não se adaptam. Em geral, aumenta o nervosismo da criança, que fica exposta a um grau elevado de exigência antes de ter amadurecidoOs sintomas são noites maldormidaou mesmo crises nervosas antes de algumas provas. Em alguns casos, o peso da cobrança pode gerar traumas. O médicoBarbirato tem promovido uma cruzada contra os transtornos de ansiedade causados pela vidaescolar. Diz que, diariamente, na clínica e em seu consultório particular, atende crianças em sofrimento decorrente da pressão dos estudos. Para Jorge Harada, chefe da área de Saúde Escolar da Sociedade Brasileira de Pediatria, o estresse dessas escolas desencadeia um processo orgânico que pode levar à perda da imunidade e causar até anemia. "Vivemos numa sociedade competitiva, mas a escola não pode ser uma fábrica de pessoas em série. É precisorespeitar as singularidades de cada um", diz.
Nos Estados Unidos, a mãe de uma adolescente que recebeu diagnóstico de estresse agudo nãose conformou em reclamar com a escola sobre o ritmo puxado das aulas e lições de casa. A advogada Vicki Abeles, depois de perceber que o drama de sua filha era vivido também emoutras famílias, fez um documentário sobre o que chamou de massacre do ensino competitivo, imposto em quase todas as redes de escolas públicas americanas graças a incentivos dogovernoO documentário, que ouviu dezenas de alunos e famílias que desenvolveram doenças emocionais por causa da alta pressão, virou sensação. Já arrecadou mais de R$ 10 milhões (custou R$ 800 mil), sem exibições em cinemas, apenas em escolas ou auditórios. "Quero que minhas filhas cresçam saudáveis e criativas. Não acredito no ensino que educa para tirar boas notas em rankings", afirma Vicki (leia a entrevista na página 95).
Apesar da expectativa dos pais, o ensino tradicional, também não garante sucesso na carreira. "Mesmo no caso de crianças que suportam a pressão das escolas tradicionais, não existe certeza de que serão adultos bem-sucedidos", diz Quezia Bombonato. "Muitas vezes são alunos com capacidade de absorção de conteúdos e boa memória, mas cujos dons específicos não sãodevidamente explorados." Segundo Quezia, o processo completo de aprendizado de um jovem é formado de muitas variáveis. Se o que ele aprende não faz sentido para a vida, isso poderá ser percebido num futuro mais distante, quando ele estiver frente a frente com suas decisões profissionais. "As pressões que ele sofreu nos bancos escolares podem se transformar em problemas de percepção ou relacionamento na vida adulta, comprometendo o sucesso de suas realizações", diz ela.
Diante dos efeitos colaterais da pressão educacional, muitos pais se voltam para as escolas com propostas alternativas. Elas não têm uma fórmula única e vêm se desenvolvendo desde os anos 1960, com propostas pedagógicas modernas. Esses métodos de ensino começaram a ganhar relevância nos anos 1970, quando novas teorias sobre como as crianças aprendem começaram a ser usadas pelas escolas. No geral, elas priorizam o estímulo aos talentos pessoais, as artes, ocontato com a natureza e o lado emocional dos alunos. O método mais difundido no Brasil é oconstrutivista, inspirado nas ideias do psicólogo suíço Jean Piaget, segundo o qual as crianças aprendem em conjunto e sempre usando a realidade de cada um como referência. A linha montessoriana, proposta pela pedagoga italiana Maria Montessori, foi uma das primeiras a inserir questões afetivas na educação. Na pedagogia Waldorf, do filósofo alemão Rudolf Steiner, oaprendizado anda de mãodadas com atividades corporais e artesanais. Com resultados nãoo satisfat ios em avaliações nacionais, muitas dessas escolas se reorganizaram para melhorar sua competitividade. Hoje, tentam combinar o melhor dos dois mundos, incorporando parte dadisciplina e da exigência de bom desempenho das escolas tradicionais.
Essas alternativas também podem ser um caminho para o sucesso na vida real. Os americanos Larry Page e Sergei Brin, fundadores do Google, estudaram em escola montessoriana. Eles afirmam que a escola é um dos principais fatores de seu êxito empreendedor. Lá, segundo eles, aprenderam a trabalhar sozinhos, com ideias próprias. Dizem que a educação montessoriana lhes deu liberdade para perseguir seus sonhos e paixões. Outros inovadores da era digital, comoJeff Bezos, fundadoda loja virtual Amazon, e Jimmy Wales, criadoda Wikipédia, também vieram de escolas montessorianas. s
Um dos apelos dessas linhas alternativas é oferecer um ensino que pretende despertar mais iniciativa e a criatividade das crianças. Isso pode ser salutar mesmo para os alunos que, aparentemente, se dão bem no esquema das escolas competitivas. Foo que percebeu a empresária carioca Tatiana Queiroz, mãe de Artur, de 15 anos, e Olívia, de 12. "Eles tiravam boas notas, mas faziam tudo no automático. Sentia que não estavam motivados. O conteúdo era muita memorização e pouca análise", diz. Quando os filhos entraram no ensino fundamental, Tatianaoptou pelo tradicional Colégio Santo Inácio, pelos bons resultados nos rankings e pela disciplina que complementava os limites que ela estabelecia em casa. Coo tempo, sentiu falta de mais estímulo criativo para os filhos.
A maioria dos colégios tradicionais tem classes numerosas, e, por issoo diálogo casa-escola fica difícil. Há dois anos, ela transferiu os dois filhos para um colégio alternativo. A coordenadora pedagógica do Santo Inácio, Ana Maria Loureiro, diz que a tradição dá segurança a quem procura a escola. Segundo ela, 70% dos alunos são filhos de ex-alunos. Um sinal de sucesso dainstituição. "Mas estamos buscando a modernidade, especialmente no que diz respeito às novas tecnologias e à necessidade de formar professores antenados com a realidade", afirma.
Diante das críticas, as escolas tradicionais tentam se renovar. Para conciliar educação de qualidade sem sofrer as consequências indesejadas, começam a buscar o caminho do meioOcolégio marista São José, no Rio, mantém suas aulas de religião, mas introduziu aulas especiais para ensinar os alunos a associar o mundo atual ao que é estudado. A ideia reforça a tendência de que mais importante do que decorar informação é saber analisá-la. No Dante, segundo seu diretor, Lauro Spaggiari, há a filosofia de que é preciso trabalhar apenas coo essencial doconteúdo e muita discussão, mas sem abrir mão do rigor na disciplina. "Não vivemos mais notempo em que o professor era o único provedoda informação", diz Spaggiari. "Sabemos que, em tempos de internet, a informação está ao alcance de todos. Nosso papel principal é ensinar aoaluno o que fazer com ela."
Mesmo que essas escolas consigam se atualizar, ainda assim não serão o modelo ideal para todas as crianças. A família da auxiliar administrativa Fernanda Sato descobriu de forma inusitadaque não há um único caminho para a educação dos filhos. Há cinco anos, mudou-se para um bairro em São Paulo onde os filhos, Gustavo e Leonardo, na época com 10 e 7 anos, iriam a pé para o novo colégio, de estilo tradicional e dirigido por freiras. Por quatro anos, o planofuncionou. No fim de 2010, os meninos procuraram os pais com um pedido: queriam mudar de escola. Para complicar, cada um pediu um colégio. Leonardoo mais novo, não gostava dométodo tradicional. "Ele não reagia bem às cobranças dos professores e começou a perder ointeresse pelos estudos", diz Fernanda. Gustavo, fã da área de exatas, pediu para estudar num colégio ainda mais rigoroso, com carga horária pesada, muita competição e voltado para ovestibular. "Penso em ser engenheiro e queria uma escola que me preparasse melhor", afirma. Hoje, a logística da família ficou mais complicada, mas Fernanda não se arrepende. "Descobri que cada filho é de um jeito."

Chame seu filho de lixo quando ele fizer algo que você desaprova. Exija que nunca tire menos do que nota dez no boletim. Proíba que participe de atividades recreativas, a não ser que ganhe uma medalha por isso. E que seja a de ouro, claro.
É uma lista desse tipo (mais itens daqui a pouco) que explica por que os chineses conseguem criar filhos excepcionalmente bem-sucedidos na escola e na carreira, segundo Amy Chua, norte-americana descendente de chineses e professora de direito na Universidade Yale.

A autoridade para falar da educação de crianças vem da experiência própria. "Eu posso dizer [o que fazem esses pais para produzir tais talentos] porque eu fiz com minhas filhas", afirma Chua na introdução de seu livro "Battle Hymn of the Tiger Mother" ("Grito de Guerra da Mãe Tigre", Penguin Press).
No decorrer do livro, ela não poupa exemplos dos triunfos das meninas, Sophia, 18, e Louisa, 15, o que justificaria suas teses.
Se a eficácia do método de educar filhos gera muita controvérsia, a estratégia de marketing foi definitivamente bem-sucedida. A editora do livro negociou com o "Wall Street Journal" a publicação de um extrato do livro, devidamente bombástico, três dias antes do lançamento, no início deste mês.
Quando o livro foi posto à venda, já havia mais de 5.000 comentários sobre a matéria na internet. Ninguém precisa ser gênio para saber que se tornou um best-seller instantâneo --apesar das fragilidades do livro ao tratar uma questão crucial.
A dificuldade de disciplinar, impor limites e cobrar os filhos é uma das grandes preocupações atuais, e as declarações de Chua tocam em um nervo sensível dos pais. Afinal, se a abordagem flexível e mais complacente não está dando certo, será que a rigidez extrema é a solução?
EXEMPLOS VAZIOS
O problema é que nem os exemplos servem para algo --a não ser que ameaçar queimar bichos de pelúcia se a filha não praticar seis horas de violino ou ter dinheiro para contratar os melhores violinistas do mundo para aulas particulares sejam "métodos" reproduzíveis.
"Do ponto de vista científico, ninguém pode estabelecer opiniões utilizando os próprios filhos como exemplo. É um princípio básico", diz o psiquiatra e psicanalista Wagner Ranña, do Hospital das Clínicas de São Paulo.
Além disso, Ranña afirma que a educação é focada no sujeito, não em um parâmetro massificado (e provavelmente estereotipado) como o modelo chinês. Que por seu lado, também pode se tornar um pesadelo para os pais.
Um estudo do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA mostrou que o risco de suicídio entre universitários é duas a três maior nos descendentes de asiáticos. Estudiosos do fenômeno apontam a pressão por desempenho como uma das maiores causas.
Para a educadora Gisela Wajskop, presidente do Instituto Superior de Educação Singularidades, o modelo até pode dar certo, dependendo de quem você quer formar.
"Essa discussão casa muito bem com uma geração de pais que quer saber como cuidar dos filhos sem ter tempo e como fazer com que o filho tenha tanto sucesso quanto eles, ou mais."
A psicóloga e colunista da Folha Rosely Sayão lembra que escolhas como só estudar ou treinar um instrumento e tirar o tempo de brincar ignoram a criança no presente e jogam todas as fichas em um futuro que ninguém garante que vai acontecer.
"Qualquer tipo de educação tem limites, que podem ser mais estreitos ou alargados. Mas educar significa colocar na vida, investir pesadamente em valores, socialização, virtudes e aprender a sobreviver ao fracasso."
Wajskop, que se considera meio "linha-dura", diz que dá mesmo muito trabalho. "Sou a favor da disciplina, mas não dá para seguir esse discurso sem pensar. Criança não é cachorro, nem sempre dá certo."
SEM CHÃO
Contenção, responsabilidade, organização e treino são pontos essenciais na educação, diz Wajskop. "A sociedade e as escolas estão experimentando formas de lidar com isso, mas ainda estão sem chão."
Não há receita pronta. "As pessoas querem acreditar que alguns livros vão dar isso, mas eles só criam fumaça", diz a psiquiatra Maria Conceição do Rosário, professora associada do Centro de Estudos da Criança da Universidade Yale.
Em sua defesa, Amy Chua diz que não se propôs a escrever um manual de como educar as crianças. Esqueceu-se de combinar isso com a editora, que imprimiu em cores marcantes na contracapa da edição norte-americana "Como ser uma mãe tigre".
A autora afirma que sua intenção foi escrever um livro de memórias. Para quem gosta do gênero, um aviso: Chua não tem "mão pesada" só na educação das filhas, mas também no estilo.
O resultado é equivalente a passar duas horas ouvindo uma amiga falar sem parar de todos os prodígios dos filhos sensacionais (dela).
Tudo isso torna mais digna de nota a estratégia de marketing, milimetricamente controlada. Por exemplo, a autora não concedeu entrevista à Folha porque, como escreveu sua agente literária, só falará com os jornalistas quando o livro for lançado no Brasil, no segundo semestre.
Será que todo o barulho em torno da "mãe tigre" continua até lá?



AQUI,  SOBRE O COMPORTAMENTO DA ''MÃE TIGRE'' e o " Você não merece nada, ambos da època. Leia o que puder. É leitura rápida.

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