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quinta-feira, 4 de agosto de 2011

O mercado do livro digital vai crescer e os impressos continuarão existindo’


Carlo Carrenho

Compartilhamos entrevista do site Nós da Comunicação com o economista Carlos Carrenho sobre o mercado editorial e as novas tecnologias.

As novas tecnologias trouxeram uma série de possibilidades para o mercado editorial. Atualmente, um autor pode, ele próprio, publicar e comercializar seus livros. Com os tablets e leitores eletrônicos é possível criar livros multimídia com uma série de aplicativos. Em entrevista ao Nós da Comunicação, o economista Carlo Carrenho, especializado em editoração e com mais de 15 anos de experiência na área editorial, tendo passado por editoras como Ediouro e Atlas, ressaltou que o Brasil ainda está atrasado em relação aos novos modelos de negócio realizados em outros países. “Há ainda um conservadorismo muito grande por aqui. Precisamos começar a implementar novas tecnologias e ferramentas para fazer parte dessa mudança e não fugir dela.”

Carrenho, que é coordenador do curso ‘Publishing management: O Negócio do Livro’, oferecido pela Fundação Getulio Vargas (FGV), a partir de maio, acredita que as práticas de leitura mudarão, mas não tanto. “Acho que o digital vai crescer muito, mas existe a paixão pelo livro como objeto. Eu consigo até imaginar um cenário em que a pessoa tenha o livro impresso na estante, mas use o tablet para ler seu conteúdo.”

Nós da Comunicação – Em comparação com o mercado cinematográfico e da música, você acredita que o meio editorial sofreu maior ou menor impacto com as novas práticas de distribuição de conteúdo na rede?
Carlo Carrenho – Sem dúvida, por enquanto, o impacto ainda é menor. Ainda não temos tanto conteúdo digital. Nos Estados Unidos, particularmente, onde já existem muitos livros digitalizados, a pirataria já começa a ser percebida. Entretanto, o impacto que o cinema e a música vêm sofrendo é muito maior.

No Brasil, o acervo digital ainda é pequeno. Temos praticamente quatro mil livros digitais à disposição para venda, por isso é mais difícil o acesso ao arquivo para pirateá-lo. Transformar um livro impresso em PDF é bem mais complexo do que lidar com a música, em que basta copiar o CD e passar os arquivos de áudio para o computador. A pirataria de livros, por meio de fotocópias não autorizadas em papel, afetam muito mais o mercado editorial brasileiro.

Nós da Comunicação – Quais as consequências positivas e negativas da publicação sob demanda?
Carlo Carrenho – As editoras têm um custo enorme de catálogo e estoque de livros, sem nem saber se os exemplares vão vender ou não. Nesse sentido, a impressão por demanda é ótima. Com a tecnologia atual já é possível vender um exemplar, imprimi-lo e entregá-lo ao consumidor. Essa prática já é realizada lá fora, mas ainda está engatinhando aqui no Brasil. Esse modelo impede a editora de ficar com capital de giro empacado no estoque. Com a impressão por demanda já é possível o próprio autor editar e imprimir seu livro em pequenas quantidades. Há uma democratização da publicação e, consequentemente, corre-se o risco também de publicar mais porcaria. Entretanto, daremos também espaço para muitas coisas boas que não eram publicadas antes.

Precisaremos de um trabalho maior de curadoria, seja pelas livrarias ou mesmo pelos consumidores. Vivemos em uma economia de mercado. Até então, os editores eram os guardiões do que deveria ser publicado ou não, mas agora estão perdendo esse poder. É um movimento muito parecido com o que ocorreu com Gutenberg e a criação da imprensa, em uma época em que existiam poucos livros e um controle absoluto por parte da Igreja. Houve democratização, mesmo que só para a elite. A Igreja e a Nobreza ficaram preocupadas, pois a partir daí, qualquer um poderia publicar qualquer coisa. De certa forma é parecida com a atual situação dos editores.

Nós da Comunicação – Os e-readers e tablets são um enorme sucesso de mercado. Com a possibilidade de ter centenas de livros em um só aparelho, você acredita que a relação com o livro impresso sofrerá mudanças?
Carlo Carrenho – Acho que sim, mas temos que diferenciar paixão pela leitura e amor ao livro. Para mim, a primeira será resolvida com livro digital. É mais fácil carregar, ler etc. Entretanto, existe a paixão pelo livro, como objeto, que é um fetiche. Se você ingressar no mundo digital, você irá perdê-lo. Acho que o digital vai crescer muito, mas os formatos impressos continuarão existindo por muito tempo, justamente para atender essa demanda de mercado. Tem pessoas que gostam do livro como algo belo para ter na estante, às vezes não necessariamente para ler. Eu consigo até imaginar um cenário em que a pessoa tenha o livro impresso na estante, mas usa o tablet para ler seu conteúdo.

Em relação à leitura, as mudanças acontecerão quando essas cópias digitais oferecerem mais do que o conteúdo do livro impresso, algo que já está acontecendo com a proliferação dos aplicativos para Kindle, iPad ou iPhone. Quando esses livros oferecerem mais do que o texto – nem sei se poderemos continuar chamando-os de livros, talvez seja uma nova forma de arte – com certeza as práticas de leitura mudarão, e mudarão também a relação do escritor com suas obras. Serão novos produtos.

O mercado editorial brasileiro consegue fazer livros muito baratos, em grande quantidade. Anualmente, são produzidos 15 mil livros por ano. Já o cinema, por exemplo, faz menos produtos e muito mais caros. Quanto mais sofisticado ficarem esses ‘livros-aplicativos’, mais caro será seu custo. Isso vai depender do padrão de multimídia requisitado, o que pode acabar alterando o número de lançamentos anuais.

Nós da Comunicação – Visando um crescimento sustentável do mercado editorial, que ações você considera fundamentais a serem colocadas em prática, tanto por parte do governo quanto por parte da iniciativa privada?
Carlo Carrenho – Por parte da iniciativa privada, eles devem estar antenados com toda essa nova revolução digital. Acho que o Brasil está atrasado em relação ao que acontece em alguns países de ponta. Há ainda um conservadorismo muito grande por aqui. Precisamos começar a implementar novas tecnologias e ferramentas para fazer parte dessa mudança e não fugir dela.

No aspecto governamental, acho que eles devem participar ao máximo com políticas públicas de acesso à leitura, valorizando nossas bibliotecas atuais e promovendo programas de livros mais econômicos e populares. Em longo prazo, devem investir em educação, porque assim aumentará o mercado de leitores e a demanda por publicações. Quanto mais educada for a população, mais ela consumirá livros.

Nós da Comunicação – Pensando também nas editoras universitárias, qual a participação do setor educacional nesse processo?
Carlo Carrenho – Ele tem sua representação por ser um importante segmento do mercado. O crescimento das universidades no Brasil, principalmente as privadas, tem gerado um aumento da demanda por livros universitários, que têm um papel fundamental. Quanto mais as pessoas estudam, mais elas consomem livros. Atualmente há grandes grupos editoriais nesse setor que têm uma participação importantíssima para o mercado.

Nós da Comunicação – Tem sido amplamente divulgado que houve aumento de consumo por parte das classes C e D no Brasil. É fato que diversos setores se beneficiaram. Existe algum estudo que aponte aumento de vendas no mercado de livros? Carlo Carrenho – Não diretamente. Existe um estudo chamado ‘Retrato da Leitura no Brasil’, realizado há quatro anos, que aponta as classes B e C, proporcionalmente falando, como as maiores consumidoras de livros no país. Uma pessoa da classe A compra mais livros, mas ela é minoria.

Não há dúvida que com o crescimento da classe C, e muitas pessoas estão saindo da faixa de pobreza, vai aumentar o consumo de livros mais populares. Não à toa, a Avon, empresa de cosméticos, é uma das maiores vendedoras de exemplares no país. Em volume de cópias, eles estão entre as três maiores no Brasil. Eu fui editor da Thomas Nelson Brasil, do grupo Ediouro. Lançamos um livro chamado ‘Dias melhores virão’ (2007), do Max Lucado, que vendeu em livrarias 50 mil exemplares. A edição especial da Avon, mais barata, vendeu mais de 300 mil unidades.

Nós da Comunicação – A Câmara dos Deputados voltou a discutir um projeto de lei que libera a publicação de biografias não autorizadas no país. Qual a sua opinião sobre o assunto?
Carlo Carrenho – Acredito que as pessoas devem ter liberdade de expressão. Atualmente não é preciso pedir autorização. Um exemplo é o caso do livro do Roberto Carlos. Após sua biografia estar pronta, ele conseguiu proibir sua comercialização, alegando que estavam usando a imagem dele. Para mim, deveria ser igual ao mercado de jornais e revistas. Uma vez publicado um conteúdo, o veículo é responsável judicialmente por ele. Qualquer necessidade de autorização prévia seria considerada censura.

http://programajornaleeducacao.blogspot.com/search/label/Entrevista

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