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sábado, 27 de agosto de 2011

“Chegamos ao fim de uma civilização” José Saramago -




***(Parte da entrevista publicada em Zero Hora – 25.11.2000)

Pergunta - Só vemos as sombras da realidade?
Resposta - Não sei se as sombras ou as imagens nos ocultam a realidade. Isso se pode debater infinitamente,mas estamos perdendo a capacidade crítica do que acontece no mundo. Parece que estamos encerrados na caverna de Platão. Não confundimos uma coisa com a outra, mas estamos abandonando nossa responsabilidade de pensar, de atuar. Convertemo-nos em seres inertes sem capacidade de indignação, de inconformismo e do protesto que noscaracterizou durante muitos anos.
 Pergunta Estamos seduzidos pelas imagens, pela publicidade?
Resposta - Um bombardeio! Chegamos ao ponto de inventar um conceito que não tem nenhum sentido: a realidade virtual. É um absurdo. O real não é virtual e o virtual não é real. Essa realidade virtual está se impondo detal forma que as crianças botam esses óculos na cabeça e se mantêm presas a essa realidade sem se dar conta do que está acontecendo realmente. E tem mais! Há muita gente que sem esses óculos está vivendo em outro mundo, como se o mundo real não existisse.
 Pergunta - Seria um fracasso da civilização, mais de 2 mil anos depois de Platão?
Resposta - Não sei. A humanidade sempre foi um caleidoscópio de culturas, de diversidade, que, desgraçadamente, vai se estreitando a cada dia. Já não se acha nada novo. Creio que essa civilização acabou, evamos entrar em uma mentalidade muito diferente. Não sei se melhor ou pior. A que tínhamos tampouco era boa. Chegamos ao fim de uma civilização, e a que está vindo não me agrada. Mas os que deveriam se pronunciar,principalmente, são os jovens.
 Pergunta - Estamos dominados pelo poder econômico?
Resposta Completamente. O poder econômico suplantou o poder político, a cultura. Norman Mailer declarou queClinton será o último presidente dos Estados Unidos porque, a partir de agora, as corporações, isto é, asmultinacionais, não precisarão de intermediários políticos e dominarão o mundo. Elas inventarão os políticos e os sistemas que lhes convierem. A política será uma ferramenta do sistema, do mercado. O neoliberalismo, a meujuízo, é um novo totalitarismo, disfarçado de democracia e mantendo as aparências.
 Pergunta Como? No sentido de converter o indivíduo em uma peça a mais da engrenagem?
Resposta - E o controla até pontos inimagináveis. As profecias de Orwell se cumpriram. Acabou a privacidade. A espionagem se instalou na vida social com tanta doçura que ninguém se dá conta. As comunicações estão controladas... E tem mais. Você telefona para pedir uma informação e sai uma música, de uma máquina. Você ainda não recebeu nada, mas estão te cobrando a chamada desde o primeiro segundo. E ninguém protesta. Vivemos em um mundo onde a exploração encontrou fórmulas de um requinte mefistofélico, diabólico.
 Pergunta -  A cultura está ficando estreita, e as desigualdades mais amplas?
Resposta - Não só as desigualdades entre ricos e pobres, mas entre os que sabem muito e os que sabem pouco, e cada vez sabem menos. A ignorância está se expandindo no mundo de uma forma aterradora. Há uma minoria que sabe tudo e controla tudo e uma maioria que sabe pouco e cada vez sabe pior o que acha que sabe. A educação, da escola fundamental até a universidade, é um desastre, é uma fábrica de produzir ignorantes. No fundo, é um problema de redistribuição da riqueza.
 Pergunta - A Caverna (mais recente obra do entrevistado) é um grito de rebeldia?
Resposta - É a constatação de uma evidência. O shopping center é um símbolo desse novo mundo de que falo. Mas há outro pequeno mundo que desaparece. O das pequenas indústrias e do artesanato. Todos os dias desaparecem espécies animais, vegetais, idiomas, profissões, ofícios. Está claro que tudo morre, mas há pessoas que têm direito a viver, a construir sua própria felicidade, e são eliminadas. Perdem a batalha pela sobrevivência, mas elas mesmas já não suportam viver sob as regras do sistema. Andam como vencidos, mas com dignidade, dizendo que não querem esse mundo.
 Pergunta - É uma visão fatalista. Não há uma porta da esperança?
Resposta - Não acredito. A porta que se abre e nunca esteve fechada é a da relação de afeto e ternura entre os personagens. Nesse sentido, sim. Mesmo assim, não gosto muito dessa esperança Parece-me que é algo que sempre estamos postergando. Devemos ser conscientes do que está acontecendo e intervir. Querem que não façamos perguntas e que não discutamos, sob a ameaça do desemprego, de perder a família. Esse é o novo totalitarismo. E me impressiona a indiferença das pessoas.
 Pergunta - Uma insurreição ética, civil?
Resposta - É fácil dizer, mas não sei como se faz.Acabo acreditando que as pessoas não se mexem. Não é o medo antigo da polícia, da tortura ou da prisão, que ainda existe em muitos lugares, mas o medo da insegurança e do desemprego. E esse medo paralisa.


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