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quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Yves de La Taille:Estamos numa sociedade em que o espetáculo e as celebridades são mais importantes que o sentido, a profundidade e a autoridade


Olhem que leitura deliciosa. Imprima e leia no ônibus


A cultura do tédio gera a falta de ética
O grande pensador construtivista professor Yves de La Taille foi entrevistado por Manuela Mesquita que tratou de saber mais sobre a temática da fala dele no seu novo livro. Vale Conferir no site : www.focoemgeracoes.com.br/.../



Por Manuela Mesquita

Falta ética no mundo atual, especialmente entre os jovens, que não foram educados ou sequer discutiram o assunto em casa ou na escola. A opinião é de Yves de La Taille, psicólogo especializado em desenvolvimento moral e Professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Com exclusividade ao Foco Em Gerações ele fala sobre o assunto e atribui essa situação a uma cultura do tédio, na qual não existe qualidade de vida e respeito pelo próximo.

Como o senhor define ética? É um conceito único ou algo variável? Ainda existe uma confusão com o conceito de moral?

É perfeitamente correto usar a palavra moral como sinônimo da palavra ética, tendo-se a dimensão das regras, dos deveres e do que deve ser feito. Quando se fala em ética na política, pensa-se nas regras que os políticos deveriam seguir, o que também poderia ser chamado de moral. Mas há uma diferenciação importante, que é a seguinte: reservar à palavra moral seu sentido habitual, ou seja, regras, deveres, fazer o que é certo, portanto como agir; algo normativo. E reservar á palavra ética seu antigo sentido de vida boa. Ética significa ter uma vida de qualidade e que leve em conta o outro, o respeito e a justiça para com os demais e seja conivente com a moral. Uma vida que tenha significado e faça sentido.


Como o senhor enxerga a prática da ética nos dias atuais, entre os jovens?

Preservando o sentido da palavra ética, se me perguntarem se o jovem tem hoje uma vida boa, eu acho que infelizmente a resposta quanto a muitos deles é negativa. Acho que eles não vivem uma vida significativa, possuem valores superficiais e confundem vida boa com divertimento, com exercer atividades que não necessariamente são de grande importância. Como, por exemplo, o uso do celular, da internet. Tenho a impressão de que muitas pessoas usam deles mais para matar o tédio do que como algo realmente importante. Chama-me a atenção nos aviões, logo que o avião pousa, mesmo que após uma viagem de meia hora, todos abrem os celulares para ver se aconteceu alguma coisa. Estamos numa fase de pico de suicídios e depressão, vivemos uma cultura do tédio e isso vale para o jovem, que vive irrequieto, com muita superficialidade.

A que o senhor atribui essa superficialidade? É o intenso uso da tecnologia que causa tudo isso?

Eu não atribuiria as causas de uma possível cultura do tédio à tecnologia. Acho que a tecnologia pode até alimentar isso através da internet, por exemplo, que faz com que as pessoas entrem em contato com tudo e com nada na prática. Mas parar com o celular e internet amanhã não resolveria, a questão é multifacetada. Eu atribuiria a necessidade de consumir o tempo todo, e o consumo ligado à identidade, a outras dimensões, como políticas. Agora, é claro, os jovens herdam o mundo que é construído e dirigido pelos adultos e eu acho que os adultos de hoje, notadamente pela necessidade do consumo e divertimento, abriram mão da questão do valor do sentido mais profundo. Estamos numa sociedade em que o espetáculo e as celebridades são mais importantes que o sentido, a profundidade e a autoridade. Sem dúvidas, a educação nesse mundo no qual os adultos criam seus filhos é a grande responsável, e não a tecnologia.


O senhor fala muito sobre a cultura do tédio. Explique um pouco do seu conceito e porque é um dos males éticos do nosso século.
Tédio tem dois sentidos: o normal, que você tem quando enfrenta uma fila, e o tédio no sentido mais profundo, associado à depressão, melancolia, uma referência ao tempo mal vivido, porque ele não tem sentido. Para fugir desse tédio você precisa se divertir, você vive mal e precisa ocupar seu tempo. Como é o caso do celular no vôo; a abertura de e-mail a cada minuto para ver se chegou algo, isso tudo é sinal de tédio. A cultura do tédio é uma metáfora do mundo contemporâneo, um mundo que carece de sentido, e por isso, os valores, as normas, os princípios, tudo fica prejudicado.

Por que o senhor acha que os adultos não estão transmitindo esses valores de moral aos jovens?
Eu não saberia identificar uma causa. Isso é um processo social e é difícil saber suas reais razões. Agora, uma coisa é certa: que os adultos estão falhando na percepção dessa situação e a escola também. A escola rende-se ao mundo do divertimento e acho que falta crítica, estimular um poder crítico, no sentido de maior reflexão.

Em redes sociais como Orkut, Facebook e outras, existe uma “ilusória” liberdade de expressão. Os jovens dizem o que querem e às vezes não pensam que estão sendo vistos. Criticam pessoas, empresas e até companheiros de trabalho. Como o senhor enxerga isso num contexto ético? É ético criticar pessoas ou instituições sem embasamentos concretos no âmbito virtual?

É claro que se você critica, condena ou faz um juízo negativo de alguém sem base, sem provas, ou sem o devido respeito, por mais que a crítica seja válida, isso é um problema moral. Na internet ou fora dela. Isso é uma questão anterior; se eu critico você, devo fazer de maneira respeitosa e embasada. E aí entra a educação moral. O segundo ponto é que a internet pode, em alguns casos, favorecer a covardia, no sentido de que você fica anônimo e distante, joga críticas e não assume a responsabilidade. Por último, é o que eu chamaria de uma certa inconsciência derivada da privatização do espaço público. Um exemplo, eu soube lá na universidade, de jovens que colocam coisas desrespeitosas no Orkut, MSN, em seus blogs pessoais e isso acabou ficando público e criou uma polêmica. Conversei com esses alunos e eles me responderam que quando escrevem coisas na internet, o fazem de maneira descontraída. Mas como você pode escrever uma coisa descontraída justamente no ambiente mais público? O que se escreve lá, alguém recebe e não se apaga. Se existe um lugar que as pessoas têm que ter controle do que falam ou escrevem é na internet. Se eu mando algo por escrito, perco o controle. Isso é um grande paradoxo, já que ficam provas de todas as mensagens. Novamente me volto aos adultos, que não dão dicas e não educam os jovens a usar desse meio. Conversas descontraídas você deve ter numa festa, não na internet. É um problema moral. Há muito uso da tecnologia e pouquíssima consciência do que ela é e como deve ser usada, e isso é perigoso.


Aconteceu recentemente de uma empresa processar um jovem que postou críticas sobre ela em seu blog, sem provas concretas. Os jovens se manifestaram alegando falta de liberdade de expressão. Colocar a opinião num blog pode ser considerado um dano moral?

Se eu coloco uma crítica sustentada a uma determinada empresa num blog, não vejo como um dano moral. Dano moral acontece quando você fere a honra de uma pessoa ou empresa, ao contrário de eu dizer que eu não gosto de um carro de tal montadora, por exemplo. Agora, se eu digo que essa montadora mentiu, aí sim é dano moral, a não ser que você prove que está certo, então será uma denúncia. Mas você usou uma palavra que precisa ser bem pensada: “colocar a sua opinião”. Cuidado, opinião é opinião, mas eu não tenho direito de espalhar as minhas opiniões quando corro o risco de ferir a honra e a dignidade alheia. Eu posso dizer que não gosto da música X, tudo bem, mas falar de tal pessoa, ferir a sua ética, aí é uma acusação. Então um dos traços da cultura atual, da cultura do tédio, é que tudo é opinião. Novamente a gente encontra a superficialidade. Alguns temas não se tratam de opinião, se tratam de críticas e isso tem que ser aprofundado, senão a gente perde uma liberdade de expressão total e pode ferir a moral. A liberdade não é um valor absoluto, tenho a liberdade de ir e vir, sim, mas não tenho a liberdade de mentir sobre tal pessoa. Assim como não tenho liberdade de colocar panfletos fascistas e nazistas pela rua.

No seu livro “Nos Labirintos da Moral” o senhor discute a questão da urgência para os jovens de atualmente. Como enxerga essa questão no futuro dos jovens e na própria criação de seus valores?
Essa também é uma dimensão do tédio. A dificuldade de ter paciência, a dificuldade de esperar, é algo que não apenas acomete os jovens, mas também os adultos. Isso é ruim porque notadamente você fica refém da tecnologia, pois precisa de coisas rápidas. Então acho que um mundo mais contemplativo poderia compensar esse mundo do consumo em que vivemos. Eu não acho isso positivo, falta calma.

Como o senhor acha que isso pode ser trabalhado na escola e dentro de casa, de forma a contribuir na formação da moral da nova geração?

Tanto nas famílias quanto na escola existem vários pontos, mas eu enfatizaria dois: primeiro, é preciso apresentar ao jovem de maneira clara os valores, os princípios e as regras morais que são considerados importantes. Isso deve ser um tema, assim como outras coisas. Principalmente na escola que em geral não discute esse tema. E a segunda coisa é que, o jeito de conviver tanto na família quanto na escola, seja na medida do possível, uma tradução desses valores morais. Muitas vezes, na escola, dizem que é importante respeitar o outro, ser solidário, mas num outro momento colocam todas as fichas na competitividade, estimulam os vencedores. Assim, o recado que a escola passa é conflituoso e ela vive o cotidiano dessa maneira, o que torna todos os velhos discursos “letra morta”. Eu diria que deve haver clareza na colocação do tema moral e ética e o próprio convívio da moral, traduzida em respeito, justiça, solidariedade e dignidade, a da ética, como algo que faça sentido. A escola cujos conteúdos ensinados não fazem sentido, é puramente competitiva e não fala de moral, é um desserviço prestado aos jovens.

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