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domingo, 7 de novembro de 2010

Uma reportagem. Olhe como alunos de jornalismo fazem...Assunto: a vida dos portadores de necessidades especiais

A vida, o trabalho e a filosofia dos portadores de necessidades especiais
Publicada em: 18/05/2009
Por Camilo Borges, Débora Suélice Oliveira, Gabriela Castellani, Gabriela Spilari, Talita Massita (6º período de jornalismo)
     Segunda-feira. São 7 horas da manhã. Isabel Cristina de Carvalho, 35 anos, chega à Escola Estadual Reverendo Erodice para trabalhar. Ela é professora da Educação Infantil. Seria uma rotina como a de qualquer outro professor, a única diferença é que Isabel não possui uma das mãos. “Não tenho a mão esquerda, por má formação congênita. Mas não me considero deficiente, pois não me dou o luxo de me privar de fazer nada”, proclama a professora ao abrir a porta da sala de aula para os alunos entrarem.
     Isabel faz parte dos mais de 1,5 milhões de deficientes residentes na capital paulista. Essa história e a de muitos outros percorre os quatro cantos da cidade, desde pessoas bem sucedidas socialmente, como aquelas que estão à procura de acessibilidade e algum tipo de ascensão.
 Isabel Cristina - aceitar a si mesmo e ao outro é o caminho para o entendimento entre os seres humanos Isabel Cristina - aceitar a si mesmo e ao outro é o caminho para o entendimento entre os seres humanos


     Hoje já é possível ver iniciativas governamentais se movimentando em favor dos deficientes, mas a lei é restrita. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro Geografia e Estatística) apenas na cidade de São Paulo, há cerca de 1,5 milhões de deficientes e dois milhões de pessoas com mobilidade reduzida, como obesos, idosos e gestantes. Ainda de acordo com o IBGE, soma-se 416 mil paraplégicos e 687 mil cegos. Desde 1999, os anões, cerca de dois mil, passaram a ser considerados deficientes no país. Traduzindo, dos cerca de 10 milhões de habitantes da capital paulista, mais de 30% necessitam de melhores condições de acessibilidade.
     Na câmara dos vereadores, a recém reeleita vereadora Mara Gabrilli que é tetraplégica, criou o SEPED (Secretaria Especial da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida). Com isso, conseguiu que uma série de Projetos de Leis fossem aprovados, a fim de proteger e integrar este enorme contingente de PNEs (Pessoas com Necessidades Especiais) à sociedade. Algumas destas leis, após anos de aplicabilidade, permitem que pessoas com distintas dificuldades possam integrar-se dignamente.
     Para a psicóloga Franciane de Souza Lopes, que trabalha na APAE (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais) de Varginha, em Minas Gerais, não existe uma regra. “A aprendizagem vai acontecer a partir das possibilidades de desenvolvimento de potencialidades e das aptidões da pessoa portadora de necessidade especial. É como em qualquer processo educacional, o ritmo de aprendizagem precisa ser respeitado. Tudo a seu tempo".
     Alguns projetos como o Ler para Crer tem sete bibliotecas municipais em dez CEUs (Centro Educacional Unificado), que oferecem serviço de impressão em braile e gravações em áudio-livros para qualquer obra existente no acervo das bibliotecas. A Criação da Central de Libras (Linguagem Brasileira de Sinais), onde há intérpretes de libras 24 horas por dia para surdos e cego-surdos. Esses profissionais também ficam disponíveis por meio da internet e de webcams e colaboram em delegacias, hospitais e outros serviços públicos.
     De acordo com a SEESP (Secretaria de Educação Especial do MEC), toda universidade deve atender às necessidades dos portadores de deficiência até a conclusão do curso. De acordo com o site Universia (www.universia.com.br), a assessora técnica do SEESP Maria Gloria Batista, diz que no caso dos deficientes visuais, para que haja, de fato, uma inclusão, a instituição deve manter uma sala de apoio equipada com uma máquina de datilografia braile ou computador adaptado. Mas, Maria entende que as dificuldades encontradas pelos portadores ainda são muito grandes, pois, nem mesmo as instituições públicas, oferecem um serviço de apoio com qualidade.
     A Universidade de Brasília, por exemplo, se destaca, porque oferece diversos programas de auxílio para que os portadores de necessidades especiais possam ter uma integração na vida acadêmica, possuindo um centro acadêmico de apoio ao deficiente, que tem o objetivo de adaptar os materiais didáticos aos seus alunos portadores de deficiência e atender a todas as suas necessidades. Dentre elas, sistemas como, programa de síntese de voz, gravadores de som e imagem, com ampliação de originais para os alunos com visão restrita, além de provas e exames com apoio de um ledor. “A lei de diretrizes básicas (LDB) propõe vinculação da educação com o mundo do trabalho, destacando a relação entre educação e preparação para a vida produtiva. Desta forma, os currículos devem oferecer oportunidade de desenvolvimento de competência e habilidade do educando, que são necessárias ao exercício profissional no mundo do trabalho. A educação profissional deve se desenvolver de forma articulada com o sistema regular ou outras modalidades de ensino, visando à possibilidade de educação continuada”, informa a psicóloga Franciane de Souza Lopes, que trabalha na APAE (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais) de Varginha, em Minas Gerais.
     Ainda existem outros Projetos como o Projeto Definet, que atua na inclusão digital por meio da obrigatoriedade de tecnologias adaptadas nos tele-centros municipais. A lei que permitirá que veículos estacionados em vagas reservadas para deficientes ou idosos em estacionamentos de estabelecimentos comerciais sejam multados pelas subprefeituras; e um projeto para a promoção do Censo Inclusão, que obrigará o executivo a realizar um censo periódico para mensurar quantas são as pessoas com deficiência no município.
     De acordo com dados da SEPED, no entanto, existem ainda algumas áreas que são de grande importância, a fim de permitir acesso e locomoção aos deficientes físicos:
• Transporte – os ônibus adaptados passaram de 300 para 1 287, mais de um por linha. Desses, 43 têm um sistema que permite baixar a suspensão para receber cadeirantes, idosos e cegos com cão-guia.
• Cultura – o Projeto Arte Inclui levou até agora 7 500 deficientes ao cinema, ao teatro e a exposições.
• Educação – desde setembro do ano passado, qualquer pessoa pode solicitar impressões de livros em braile ou áudio-livros (com texto narrado) em uma das sete bibliotecas municipais com acervo em braile ou nos dez CEUs que fazem parte do programa.
• Trabalho – dos 4 375 deficientes que entregaram o currículo nos Centros de Apoio ao Trabalho, 673 conseguiram uma vaga. Metade deles era de deficientes físicos. A qualificação ainda é uma barreira: só 10% possuem ensino superior completo.
• Esporte – em setembro do ano passado, a cidade abrigou pela primeira vez os Jogos Municipais. Cerca de 150 pessoas com deficiência competiram em modalidades para-desportivas.
• Acessibilidade – em 2006, a prefeitura investiu 11,3 milhões de reais na reforma de 62 quilômetros de calçadas da cidade, que agora passam a ser acessíveis a deficientes. Elas têm piso com indicações táteis e sem irregularidades.
• habitação – foram lançados em junho de 2005, na Casa Cor, os Selos de Habitação Universal e Visitável. Eles rotulam imóveis que permitem acesso de pessoas com deficiência.
     “A lei de diretrizes básicas (LDB) oferece fundamentos para preparar a pessoa portadora de necessidades especiais pra o mundo do trabalho, de maneira processual, ou seja, iniciando esse processo na educação infantil, preparando o ensino fundamental e estendendo-se durante a trajetória de vida da pessoa”,diz Franciane de Souza Lopes.Porém, mais do que remediar uma estrutura social carente de espaço para esses portadores de necessidades com novas calçadas ou bibliotecas em braile, o fundamental é dar a eles a possibilidade de crescer pessoal e profissionalmente. É o que pensa o costume service, Daniel Nunes, cadeirante. “No ensino fundamental eu tive problemas com barreiras arquitetônicas que foram resolvidos sob pressão. A sala onde eu fazia aula tinha duas escadas, isso mesmo! Depois de discussão mudaram a sala para outro local, mas ainda assim, a escola não era 100% adaptada.”
 Daniel Nunes – desde cedo batalha por melhores condições de locomoção Daniel Nunes – desde cedo batalha por melhores condições de locomoção

     Para a psicóloga Franciane, a inclusão requer esforço simultâneo, bilateral, havendo adaptação mútua e tendo como pré-requisito a modificação da sociedade para que as pessoas portadoras de necessidades especiais busquem seu desenvolvimento e exerçam sua cidadania. “Deve haver respeito e aceitação das diferenças entre as pessoas, ‘Ser bem-vindo! ’ Isso é inclusão”.
     Daniel Nunes é formado em Turismo e está cursando pós-graduação em Turismo Adaptado. Ele acredita que todos possuem uma deficiência, seja ela qual for: “Eu me considero deficiente, mas devido a um conjunto de fraquezas, sejam elas físicas, psicológicas ou afetivas. Enfim, todos têm uma deficiência”. E completa: “Vejo com bastante otimismo, pois, finalmente as empresas se deram conta de que muitas pessoas com variados tipos de deficiência são aptas a exercerem funções, pena isto não ter mudado culturalmente e sim, por meio de uma lei onde determina cotas para os PNEs (Portadores de Necessidades Especiais) no mercado de trabalho”. Conclui afirmando que ainda há muitas melhorias a serem feitas para que o portador de necessidade especial se sinta totalmente amparado pelo Estado e acolhido pela sociedade, embora, reconheça que houve avanços na infra-estrutura das cidades.
     Um outro exemplo de inserção a sociedade, é Alexandre Pereira de Souza, assistente administrativo de uma multinacional: “Fui acometido por um tumor no osso da minha perna. Devido a esse câncer, depois de sete anos ocorreu a amputação total da perna. Sou deficiente, devido à falta de um membro, mas sou igual a todo mundo”. Ele complementa dizendo que a sua deficiência lhe garante ao menos, acesso ao mercado de trabalho, com as novas leis de incentivo às empresas que empregarem PNEs.
 Alexandre de Souza – lei incentiva a contratação dos portadores de necessidades especiais Alexandre de Souza – lei incentiva a contratação dos portadores de necessidades especiais

     Para a musicoterapeuta Tatiana Barbosa, “a cidade não proporciona facilidade alguma para quem tem qualquer limitação física ou psicológica, existem projetos, mas quase nada é implantado. Não deveria existir tamanha burocracia enquanto milhares de cidadãos estão sofrendo todos os dias, primeiro pela patologia, e segundo por ninguém respeitar essa condição diferenciada”.Segundo Tatiana, as estruturas das escolas não estão disponíveis em nenhum sentido para os deficientes. E, principalmente, o professor, que em sua grande maioria, não está preparado profissionalmente para saber lidar com alunos especiais no meio de alunos regulares.
     No mercado de trabalho, ainda existem os profissionais portadores de necessidades especiais, que não exigem amparo algum do estado, e que se sentem realizados profissionalmente e socialmente, em que a deficiência não é um obstáculo. É o caso da professora Isabel Cristina, citada no início da reportagem. Ela aponta que o preconceito existe em todos os âmbitos da sociedade: “todo o acesso é superficial. As pessoas precisam evoluir interiormente, espiritualmente, para depois evoluírem como cidadãos. A aceitação é moral, pois primeiro, é preciso encarar o outro como um semelhante, que é digno de respeito, independente se ele é ‘igual’ ou ‘diferente’ de mim, haja visto o preconceito com homossexuais, que são vistos como deficientes também, isso quando não os taxam de doentes. Falta muito para os seres humanos se despirem desse preconceito. Tem mais preconceito uma empresa não empregar um sujeito que já ‘passou’ da idade? Este profissional mesmo que seja o mais preparado, será substituído por um profissional mais jovem. Falta evolução. Se minha necessidade fosse outra, talvez, eu estivesse fora do mercado de trabalho, como muitos estão, recebendo uma ajuda insuficiente e com a frustração de ser incapaz aos olhos ‘sadios’ da sociedade”.

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