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quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Uma crônica de Clarice Lispetor


Cosmonauta na terra
Extremamente atrasada, reflito sobre os cosmonautas. Ou melhor, sobre o primeiro cosmonauta. Quase um dia depois de Gagárin, nossos sentimentos já estavam atrasados em contraposição à velocidade com que o acontecimento nos ultrapassava. Agora então, atrasadíssima que repenso no assunto. É um assunto difícil de sentir.
Um dia desses um menino, advertido de que a bola com que brincava cairia no chão e amolaria os vizinhos de baixo, respondeu: ora, o mundo já é automático, quando uma mão joga a bola no ar, a outra já é automática e pega-a, não cai não.
A questão é que nossa mão ainda não é bastante automática. Foi com susto que Gagárin subiu, pois se o automático do mundo não funcionasse a bola viria mais do que transtornar os vizinhos de baixo. E foi com susto que a minha mão pouco automática tremeu à possibilidade de não ser rápida o bastante e deixar o “acontecimento cosmonauta” me escapar. A responsabilidade de sentir foi grande, a responsabilidade de não deixar cair a bola que nos jogaram.
A necessidade de tornar tudo um pouco mais lógico – o que de algum modo equivale ao automático – me faz tentar criteriosamente o bom susto que me pegou:
- De agora em diante, me referindo à Terra não direi mais “o mundo”. “Mapa mundial”, considerarei expressão não apropriada; quando eu disser “o meu mundo”, me lembrarei com um susto de alegria que também meu mapa precisa ser refundido, e que ninguém me garante que, visto de fora, o meu mundo não seja azul. Considerações: antes do primeiro cosmonauta, estaria certo alguém dizer, referindo-se ao próprio nascimento, “vim ao mundo”. Mas só há pouco tempo nascemos para o mundo. Quase encabulados.
- Para vermos o azul, olhamos o céu. A terra é azul para quem olha do céu. Azul será uma cor em si ou uma questão de distância? Ou uma questão de grande nostalgia? O inalcançável é sempre azul.
- Se eu fosse o primeiro cosmonauta, minha alegria só se renovaria quando um segundo homem voltasse lá do mundo: pois também ele vira. Porque “ter visto” não é substituível por nenhuma descrição: ter visto só se compara a ter visto. Até um outro ser humano ter visto também, eu teria dentro de mim um grande silêncio, mesmo que falasse. Consideração: suponho a hipótese de alguém no mundo já ter visto Deus. E nunca ter dito uma palavra. Pois, se nenhum outro viu, é inútil dizer.
- O grande favor do acaso: estarmos ainda vivos quando o grande mundo começou. Quanto ao que vem: precisamos fumar menos, cuidar mais de nós, para termos mais tempo e viver e ver um pouco mais; além de pedirmos pressa aos cientistas – pois se nosso tempo pessoal urge.
Clarice publica esta crônica em 19 de agosto de 1967, apesar da viagem de Yuri Gagárin ter ocorrido mais de seis anos antes, em 12 de abril de 1961. Apesar do considerável atraso no comentário deste fato, o assunto ainda estava em pauta já que as conquistas espaciais seguiam acontecendo e sendo maciçamente noticiadas. A chegada do homem a lua, por exemplo, ocorreu em 1969 e, a não ser que esta crônica não tenha sido incluída no livro, não foi comentada por Clarice. A defasagem temporal não é apenas o único ponto que determina as peculiaridades deste texto em relação às crônicas tradicionais destinadas a comentar fatos prosaicos e cotidianos. Há aqui e nas outras crônicas que podem ser incluídas neste grupo algo que poderia ser definido como ressonâncias do cotidiano na consciência hiperinflacionada da autora. A interiorização permanece o ponto temático principal, mesmo quando o tema é algum assunto da pauta de discussões do momento.


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