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sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Reportagens Compartilhe| Redação e gerúndio O gerundismo em redações de vestibulandos


O abuso ou o emprego pouco vernáculo do gerúndio é mal antigo em nossa língua. Os puristas o chamavam de endorreia, conforme registra Rodrigues Lapa em sua Estilística da Língua Portuguesa. Lapa dá como exemplo de endorreia o uso da forma gerundial com o valor de atributo, em frases do tipo: "Recebeu uma caixa contendo roupa". Ele não se mostra, contudo, satisfeito com a correção proposta pelos puristas; vê em "que continha" uma construção "artificial", "estilisticamente inferior", e pondera que "o uso do gerúndio é em certos casos preferível à oração relativa".
Atualmente a rejeição ao gerúndio deixou de ter por foco o seu emprego como atributo para se concentrar em outro tipo de construção - aquela em que a forma gerundial vem antecedida pela dupla "vou estar". O modismo parece ter sido disseminado no português pelos operadores de telemarketing e daí migrado para outras faixas da linguagem oral (curiosamente, há muito poucos registros dele nos textos escritos).
Esse tipo de construção é de fato ruim e deve ser combatido, sobretudo por duas razões: a primeira é a presença de "vou estar" em lugar de "estarei" - um auxiliar determinativo que remete a ação expressa pelo verbo principal ao futuro. A segunda é o emprego do gerúndio num contexto em que não ocorre simultaneidade.
Quando ela ocorre, o uso da forma gerundial é pertinente. Numa frase como "Não me importune amanhã à tarde, pois estarei estudando para uma prova difícil", o emissor dá a entender que o estudo se prolongará por toda a tarde e seria perturbado pelo eventual telefonema. Dizer "pois estudarei para uma prova difícil" não traduziria isso, além de sugerir o propósito um tanto vago de realizar a ação. Caso não haja a noção de simultaneidade, construções como "estarei viajando" podem ser substituídas com vantagem por "irei viajar" ou mesmo "viajarei".
Gerundismo e Coerência
ModismoO abuso no uso do gerúndio levou o então governador do Distrito Federal José Roberto Arruda a emitir um decreto em que "demitia" o gerúndio. José Augusto Carvalho abordou o caso e outras tentativas de legislar sobre a língua no artigo O Gerúndio Expulso na edição 18 da ConhecCimento PráticCo LlínNgua Portuguesa: "Abolir" o gerúndio é cercear a liberdade de expressão do falante. Não é o gerúndio que provoca o adiamento de um processo, a procrastinação de um serviço público ou a falta de atendimento médico. Ao "abolir" o gerúndio (em lugar de aconselhar que se evite o gerundismo), o governador mostrou não apenas desconhecimento da língua que fala, mas também confusão entre o mapa e seu território, entre o substantivo "boi" e o animal que leva esse nome, entre a palavra e o seu usuário.
Nas redações de vestibulandos, o problema com o gerundismo é mais profundo. Vai além de clichês ou modismos, como os comentados acima - que prejudicam, sobretudo, o estilo -, e afeta os mecanismos estruturais da língua. A maior parte das falhas ocorre quando o gerúndio aparece depois de uma ou mais orações, "pendurado" no fim da frase. Isso torna ambígua a identificação do sujeito e compromete a coerência do enunciado.
O comum, quando o gerúndio aparece no fim do período, é que o seu sujeito seja o mesmo da oração anterior. Numa frase como "Lourenço deixou tarde a O comum, quando o gerúndio aparece no fim do período, é que o seu sujeito seja o mesmo da oração anterior. Numa frase como "Lourenço deixou tarde a
Um exemplo desse procedimento aparece no período seguinte, retirado (como os demais deste artigo) de redações dos nossos alunos: "A saúde dos fumantes e dos que estão ao seu redor fica debilitada, podendo causar, entre outras doenças, câncer de pulmão." Pela forma como se estruturou o período, parece que o sujeito de "podendo causar" tem como núcleo "saúde". Essa interpretação obviamente não tem sentido, pois a causa do câncer de pulmão e de outras doenças não pode ser a saúde dos fumantes e dos que os cercam. O sujeito da locução com o gerúndio é, na verdade, toda a oração que o antecede, a qual deveria ter sido resumida num anafórico do tipo "isso" ou "o que".
No exemplo que segue, verifica-se o mesmo problema: "Os professores não possuem mais a fama de carrascos, facilitando a relação entre eles e os alunos". Parece que o sujeito de facilitando é "os professores", e não todo o conteúdo da primeira oração. É o fato de os professores não mais terem a fama de carrascos que torna fácil a relação entre eles e os alunos.
Mais um exemplo: "Os jovens podem sofrer crise de abstinência se não estiverem sob o efeito da droga, expondo assim a seriedade do problema." O que expõe a seriedade do problema não é "os jovens", sujeito da locução verbal, mas sim o fato de eles poderem sofrer crise de abstinência caso não estejam sob o efeito da droga.
Padrão de mau uso
O curioso é que nem sempre falta ao estudante a noção de que o gerúndio tem sujeito próprio, ou seja, distinto do sujeito da oração anterior. O que ele não consegue é expressar o novo sujeito por meio dos elementos coesivos adequados.
A frase que segue é um exemplo disso: "As pessoas tornam-se reféns da opinião dos outros, deixando-as inseguras e insensíveis." A presença do pronome oblíquo "as" demonstra que "as pessoas" é objeto direto e não sujeito, mas a arquitetura da frase não torna clara essa diferença. Daí o choque provocado pelo uso do gerúndio, que deveria ter dado lugar a uma forma desenvolvida ("o que as deixa").
Os problemas não se resumem a esse tipo de estrutura. Há casos em que o estudante identifica corretamente os dois sujeitos, mas compromete a clareza do período por falhas na pontuação. Por exemplo: "O ideal é não adotar essa postura de subordinação conciliando o bem-estar com a independência diante dos professores." Nessa passagem, o sujeito de "conciliando" é o mesmo do infinitivo "adotar". A oração reduzida equivale a uma oração coordenada adversativa (mas conciliar), no entanto a ausência da vírgula faz com que ela pareça uma oração modal ("O ideal não é adotar essa postura de subordinação conciliando, e sim sem conciliar...").
Os exemplos acima constituem, de acordo com a nossa experiência, uma espécie de padrão do mau uso do gerúndio em redações de vestibulandos. A frequência com que esse tipo de construção aparece sugere que o aluno usa a oração gerundial como uma espécie de muleta para fechar o período, sem se preocupar com o sentido do que está escrevendo.
*Chico Viana é doutor em Teoria da Literatura pela UFRJ e professor de redação em João Pessoa (PB), no curso que leva o seu nome. Contato pelo site www.chicoviana.com ou pelo e-mail viacor@uol.com.br.
 

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