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segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Proposta de redação. Texto base " A liberdade da descrença", do blog de Daniel Piza

PROPOSTA ( FAÇO MAIS TARDE)


Um leitor, Kenny, me manda email sobre a questão da religião. Está atormentado pelo fato de se dizer um agnóstico e viver em meio a pessoas religiosas, que não entendem que ele não consiga “acreditar que após a morte iremos para outro lugar ou que existe Alguém olhando por nós o tempo todo”. E sente culpa, já que cresceu ouvindo que existe “um Deus misericordioso que tudo há de prover” e às vezes se pega agradecendo a Ele pelo bom dia que teve. Pergunta por minha experiência e qual a diferença entre ateu e agnóstico, pois reluta em se dizer ateu porque seria visto com ainda mais desconfiança e discriminação. Num momento em que a religião foi enfiada na pauta eleitoral por setores organizados da sociedade, a dúvida de Kenny vem a propósito.
Quem criou o termo “agnóstico” foi um autor pouquíssimo lido no Brasil, Thomas Huxley, biólogo e polemista que defendeu as ideias de Darwin do escândalo clerical. Num ensaio de 1889, Agnosticism, contou que o criou para se contrapor aos que diziam ter o conhecimento (gnose) do invisível, do sobrenatural, das entidades espirituais. Incluiu neste grupo os ateus ou, como se dizia então, os ateístas, porque muitos deles igualmente afirmavam ter “resolvido os problemas da existência”, ou seja, ter prova da inexistência de Deus. Huxley, no entanto, não conseguiu se livrar da voracidade cristã e foi chamado de infiel, descrente, um imoral a caminho do inferno. De nada adiantou esclarecer que era um livre-pensador; seu nome entrou no índex.
Desde então, o termo “agnóstico”, como antes “ateu”, sofreu modificações. Foi atenuado para algo como “não sei se Deus existe”, o que normalmente é seguido por algo como “acho que existe uma força superior” ou, no caso de Kenny, “sinto culpa por isso”. Mas Huxley, um estilista admirável, deixou bem claro: o agnosticismo tem como princípio o de que “é errado para um homem dizer que tem certeza da verdade objetiva de qualquer proposição a menos que possa produzir evidência que logicamente justifique essa certeza”. Ou seja, Huxley era contra a suposição de que ter fé é acreditar na veracidade do inacreditável. Seus adversários eram aqueles que estavam seguros, por exemplo, de que demônios existem e tomam posse das pessoas, como as mulheres que eram perseguidas como bruxas; ou de que Jesus fez tudo que os Evangelhos dizem que fez, apesar de todas as contradições. O problema não era crer nisso; era crer que existiam provas irrefutáveis disso.
O agnóstico, em suma, não é o sujeito que vota em branco, mas o que tem a opinião ainda controversa de que não existem fenômenos sobrenaturais, apenas fenômenos que não temos condições de explicar. Eu, como Huxley, fui criado numa cultura cristã; meus pais acreditam em Deus e me fizeram fazer a primeira comunhão aos 10 anos; mas, por meio de dúvidas próprias e de leituras científicas, optei por não ter nenhuma religião, por não acreditar em vida pós-morte e num ser que tudo fez e comanda – assim como optei por viver sem vícios e superstições, por não levar a sério o que não me pareça ter consistência lógica como astrologia, numerologia e tudo o mais. Huxley: “As pessoas que falam nos confortos da crença esquecem seus desconfortos.” Nenhum familiar ou amigo nunca me atormentou por isso e não sinto a menor culpa; mais que muitos religiosos, tento respeitar e ajudar o próximo, tolerando todas as diferenças e abominando todas as guerras, santas ou não.
Ao contrário de um Richard Dawkins, não quero converter ninguém à crença na descrença. Conheço muitas pessoas cuja religiosidade não tem nada a ver com fanatismo ou aversão à ciência. Por que eu ia querer convencê-las a mudar de opinião? Mas, como Huxley, não quero crer no que não me parece provável – e defendo esse direito até onde for necessário. E esse direito é mais combatido, veladamente na maioria dos casos, do que supõe nossa vã cultura. Vivemos num estado laico, mas toda repartição pública tem uma cruz e até o papa ordena aos bispos que interfiram nas eleições locais. Espiritistas afirmam ter evidências da reencarnação e da existência de miasmas onde as almas sobrevivem. Nos cultos evangélicos, não crer em Deus é, como disse Huxley, uma ofensa moral. O aborto, mesmo até três meses, é tratado como se fosse assassinato, embora seja legal em diversos países e lá praticado por muitos religiosos. No Brasil, onde até camisinha é pecado, nem sequer se ouve a pergunta humanista: deve-se pôr no mundo uma criança de quem não se pode cuidar dignamente?
E meu email, toda vez que toco no assunto, se entope de leitores jurando que à beira da morte vou me arrepender e buscar o consolo – ao contrário do que fez um Machado de Assis, embora os estudiosos não deem ênfase à sua anti-religiosidade. Mas espero que ao menos Kenny se sinta livre para crer ou descrer e assumir sua posição, com o nome que for, em vez de se sentir culpado por não pensar como os que o cercam. Não é a religião que deve ser cercada; é a liberdade que não deve ser.
(“Sinopse”)

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