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quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Não vá para o vestibular , sem entender um pouco que seja sobre a sociedade pós-moderna

A sociedade pós moderna: algumas características

O pós- modernismo é, segundo Santos (1986), “[..] o nome aplicado às mudanças ocorridas nas ciências, nas artes e nas sociedades avançadas desde 1950, quando, por convenção, se encerra o modernismo (1900- 1950).” (Santos, 1986, p.8).
Simbolicamente, datam como o início da era pós-moderna o dia 6 de agosto de 1945, com a explosão da bomba atômica sobre a cidade de Hiroshima; a sociedade moderna – criadora- transforma-se, assim, na sociedade pós-moderna, que é capaz de propagar a destruição pois conta com desenvolvimento tecnológico para tanto e não mais possui “barreiras morais”.
Vê-se, então, uma característica essencial da sociedade pós moderna: tecnológia. Por isso a sociedade pós moderna só poderia dar seus primeiros passos nos centros de produção da era moderna: Europa ocidental e EUA, sociedades já urbanizadas, detentoras dos meios de produção, e, consequetemente, sociedade com grande poder de consumo.
Com a evolução da globalização e da comunicação, o estilo de vida pós moderno se alastrou para o resto do mundo – países periféricos, ainda empregadores de mão de obra no primeiro e segundo setor (produção agrícola e industrial, respectivamente), entretanto, ficando o "estilo de vida pós-moderno" restrito à classe com maior poder de consumo.
Diria ser a tecnologia a característica fundamental da pós-modernidade, a partir da qual se origina as demais características presentes na sociedade pós-moderna.
Sobre a tecnologia, pode-se dizer que a sociedade existente no pós-modernismo é saturada pela tecnologia eletrônica de massa e individual: “O ambiente pós moderno é povoado pela cibernética, a robótica industrial, a biologia molecular, a medicina nuclear, a tecnologia de alimentos (...).” (SANTOS, 1986, p. 26).
A tecnologia produzida pela sociedade pós-moderna também é enfaticamente aplicada na área de comunicação: televisão, rádio, internet, telefones celulares, etc. Tal aplicação possui algumas conseqüências, as quais considero como as mais fortes caracterizadoras da sociedade pós -moderna:

1-a distorção do real (sociedade do espetáculo);
2- desrreferencialização do real e desubsstancialização do sujeito;
3- consumismo e fetichismo;
4- individualismo;
5- distorção de valores;
Sobre as consequencias:

1- A Distorção do real

Há a distorção do real pois com a tecnologia aplicada à comunicação o homem pode simular a realidade de acordo com seu imaginário: pode ser a aparência, “[...]o simulacro perfeito da realidade. Simular por imagens como na TV [...] significa apagar a diferença entre o real e o imaginário e apagar a aparência” (SANTOS, 1986, p.14).
Os meios de comunicação e reprodução da realidade não reproduzem o mundo de acordo com sua realidade de fato, “[...] eles o refazem à sua maneira, hiper-realizam o mundo, transformando-o num espetáculo”.
Ainda sobre a distorção do real, Baudrillard (1990) diz ser consequencia de um fenômeno o qual é chamado de “pós-orgia”. Segundo o autor, a sociedade atingiu seu extremo de modernidade, com a super produção e liberações exacerbadas e não pensadas (liberação sexual, política, moral, filosófica, ideológica, tecnológica etc.).
Agora, segundo o autor, a humanidade se encontra diante do impasse: “para onde seguir?” Baudrillard diz que, por ser passado as finalidades da liberação, a humanidade prossegue no vácuo. “Que fazer então? Isso é o resultado de simulação, aquele em que só podemos repetir todas as cenas porque elas já aconteceram – real ou virtualmente. È o estado da utopia realizada, de todas as utopias realizadas, em que é preciso paradoxalmente continuar a viver como se elas não o estivessem. Mas, já que o estão e já que não podemos ter a esperança de realizá-las, só nos resta hiper-realizá-las, numa simulação indefinida. Vivemos na reprodução indefinida de ideais, de fantasmas, de imagens, de sonhos que doravante ficam para trás e que, no entanto, devemos reproduzir numa espécie de indiferença fatal.” (BAUDRLLARD, 1990, p. 10).

2- Desrreferencialização do real e desubsstancialização do sujeito.

A sociedade tecnológica requer, por natureza, grande quantidade de signos – entendendo por signos como sendo “toda palavra, número, iamgem ou gesto que representa indiretamente um referente através de uma referência” (SANTOS, 1986, p.14). Como diz Pieruccini, (2007) : “Portanto, o signo lingüístico não é a união entre um nome e uma coisa, mas é a união entre um conceito e uma imagem acústica.”
O homem pós-moderno, cercado de aparatos tecnológicos de comunicação, lida, por tanto, com mais signos – por informações, do que objetos, o que tem por conseqüência a degradação substancial da realidade, já que essa é simulada e o individuo “perde sua essência interior, sente-se vazio. A isso os filósofos estão chamando de desrreferencialização do real e desubsstancialização do sujeito, ou seja, o referente (realidade) se degrada em fantasmagoria e o sujeito (o individuo) perde sua substancia interior, sente-se vazio”. (SANTOS, 1986, p. 16).
Os signos podem ser tanto digitais quanto analógicos. Os signos digitais são descontínuos e arbitrário com relação ao que representam, como letras, números. Os signos “[...] analógicos são contínuos e se assemelham ao objeto representado: fotos, gráficos [...]. O digital permite escolher, o analógico, reconhecer ou compreender. Com a invasão da computação digital no cotidiano (calculadoras, painéis eletrônicos), estamos assistindo à digitalização social.” (SANTOS, 1986, p. 16).
Digitalização social quer dizer que o que chega até ao homem, para que esse consuma, é a imagem –analógica por natureza- surge digitalizada. “ [...] nas vitrines, cada liquidificador é um signo analógico dos modelos à venda, mas acha-se desenhado com traços que funcionam digitalmente para diferençá-los das outras marcas. [...] Isto acelera a escolha na base do SIM/NÃO [...]. Na pós modernidade, o individuo vive banhado num rio de testes permanente: Digitalizados, os signos pedem escolha. Não uma decisão profunda, existencial, mas uma resposta rápida, impulsiva, boa para o consumo.” (SANTOS, 1986, p. 17).
A hiper simulação do real, de acordo com Baudrillard, extremamente proliferada, com os meios de comunicação, causa saturação e exaustão e consequentemente, dispersão do conceito, que não se acaba, mas se esgota, se desprende de seu ideal de origem.
Foucault trata sobre essa idéia em um fragmento de “Microfísica do poder” no qual fala o autor sobre sexualidade: “ [...] se esboçando atualmente um movimento que me parece estar indo contra a corrente do ‘sempre mais sexo’, do ‘sempre mais verdade no sexo’ que existe há séculos: trata-se, não digo de ‘redescobrir’, mas de fabricar outras formas de prazer, de relações, de coexistências [...]. Todo o pesado coeficiente do sexo se volatizou.” (FOUCAULT, 1979, p.235).

3- Consumismo e fetichismo

A sociedade pós moderna surgiu já em uma sociedade de consumo, conseqüência da sociedade moderna, fruto de duas revoluções industriais, que possibilitaram o imenso desenvolvimento da sociedade capitalista com a produção de bens de consumo pela máquina. A sociedade pós –moderna também já surgiu urbanizada, outra consequência das revoluções industriais. No entanto, enquanto a economia da sociedade moderna era baseada no setor primário, industrial, com o emprego de trabalho de mulheres e crianças por um baixo custo, a sociedade pós moderna deu seus primeiros passos no ocidente do pós – guerra (inicio da guerra fria), já com sua economia voltada ao setor terciário, produção e consumo de bens e serviços pois sua produção industrial migra para os países em desenvolvimento.
Propaga-se o “american way of life”, sociedade extremamente consumidora de bens e serviços: moda, tecnologia, lazer.
Tal consumo não é pensado, analisado, mas sim exagerado e desenfreado, afinal, há um terreno fértil para tanto: a simulação da realidade, a hiper-realidade, a sociedade do espetáculo, que o ter necessidades que lhes foi induzidas. “Veja um close do iogurte Danone em revistas ou na TV. Sua superfície é enorme, lustrosa, sedutora, tátil- dá água na boca. O Danone verdadeiro é um alimento mixuruca, mas seu simulacro hiper-realizado amplifica, satura sua realidade. Com isso, somos levados a exagerar nossas expectativas e modelamos nossa sensibilidade por imagens sedutoras” (SANTOS, 1986, p. 13).
A grande quantidade de signos – digitais- com que o homem precisa lidar também é um fator determinante para o consumo exagerado: “Quanto ao referente; compra-se um monza não tanto por suas qualidades técnicas, mas por seu design, seu nome nobre, seus signos na publicidade [...]. Compra-se um discurso sobre o monza.” (SANTOS, 1986, p. 16).
Talvez, pode-se fazer uma analogia com o caráter fetichista da mercadoria, tratado por Marx, entendendo-se por fetichismo por processo pelo qual a mercadoria, ser inanimado, é considerada como se tivesse vida, fazendo com que os valores de troca se tomem superiores aos valores de uso e determinem as relações entre os homens e não vice-versa, na sociedade pós-moderna, com a desconsideração do referente, desconsidera-se, obviamente, que é a mercadoria objeto do trabalho humano, já que também há a desconsideração do sujeito.

4- Individualismo

O sujeito pós-moderno, cercado de signos e existindo na sociedade do hiper –real, tende a ser alheio ao real que não foi transformado, modificado para satisfazer suas expectativas. A simulação do real faz com que a realidade, a hiper realidade, seduza e erotize o individuo, “[...] com fantasias e desejos de posse. Uma carga erótica deve envolver por igual pessoas e objetos para impactar o social, sugerindo ao individuo isolado um ideal de consumo personalizado, ao massagear o narcisismo.”(SANTOS, 1986, p.28).
Por receber informações de forma constante e fragmentada, o homem pós moderno se atém ás minorias, não possui mais a consciência de classe típica da modernidade, até mesmo porque a era pós-industrial tende a transformar em objeto de consumo qualquer movimento revolucionário ou alternativo, ou seja, a erotização-personalização é também uma forma de controle social, apoiada pelo Estado. Este ainda realiza o controle através do corpo, no entanto, não pela violência legal contra o corpo do sujeito (prisões, etc), mas sim de forma sutil: “ Como é que o poder responde? Através de uma exploração econômica (e talvez ideológica) da erotização, [...].Como resposta à revolta do corpo, encontramos um novo investimento que não tem mais a forma de controle repressão, mas de controle estimulação: ‘fique nu, mas seja magro, bonito, bronzeado’.” (FOUCAULT, 1979, p. 147)
De acordo com Baudrillard (1990), “O proletariado como tal não conseguiu negar-se [...] como classe e, por isso mesmo, não conseguiu abolir a sociedade de classes. Talvez porque ele não fosse uma classe, como foi dito, e que só a burguesia fosse uma verdadeira classe e, portanto, só ela como tal pudesse negar-se. O que de fato ela fez, e o capital junto com ela, gerando uma sociedade sem classes mas bem diferente da que teria resultado de uma revolução e da negação do proletariado como tal. O proletariado simplesmente desapareceu. Desfez-se junto com a luta de classes. Não há dúvida de que, se o capital tivesse desenvolvido segundo sua própria lógica contraditória, teria sido desfeito pelo proletariado.” (p.16)

Pode-se concluir que tais fatores, a cima citados, provocam, consequentemente, a distorção da moral, (que já vinha em um processo de distorção - oriundo das primeiras revoluções industriais) por conta de signos fragmentados, informações distorcidas, signos lingüísticos em excesso para se manusear.
Há a despolitização. Como foi dito, o homem se preocupa, agora, com as minorias e, por tanto, não se sensibiliza mais com necessidades alheias, a menos que tais sejam mostradas em forma de espetáculo, para se encaixar em seu novo coneceito de realidade, que adquire um caráter de hiper- realidade.
A religião, a moral, são agoras utilizadas de acordo com a convenção de cada um.Por isso, Fukuyama (2003) chama a sociedade contemporanea de "pós -humana", pois, o homem superou o humano criador e, agora se transforma em o humano destruidor - pois possui aparato tecnológico para tanto, seus valores são invertidos e, a sociedade, despolitizada, individualista e consumista, não se interessa em controlar os "avanços" tecnológicos e biotecnológicos (digo "avanços" pois, o avanço real não existe, mas sim uma continuidade dos avanços já realizados, atualmente, o desenvolvimento caminha para o nada.)
Percebe-se, então, porque foi dito, no inicio do texto, que a sociedade pós-moderna não possui mais "barreiras morais" para a destruição: pois não há mais a preocupação com o valor, pois já não há valor, " Em rigor, já não se deveria falar em valor, já que essa espécie de demultiplicação e de reação em cadeia torna impossível qualquer avaliação" (BAUDRILLARD, 1990, p. 11).
Vê-se também que somente foi possivel a humanidade chegar a tal estágio e adquirir tais características pelo desenvolvimento tecnológico da sociedade capitalista.

-> Para ver outros textos desta Rodada Temática clique aqui.
Bibliografia:
BAUDRILLARD, J. A Transparencia do mal: Ensaio sobre os fênomenos extremos. Campinas, Papirus, 1990.
FOUCAULT, M. Microfísica do Poder. Rio de janeiro: Edições Graal. 1979.
FUKUYAMA, F. Nosso mundo pós-humano. Rio de Janeiro: Rocco, 2003.
MARX, K. O Capital. São Paulo; Abril Cultural, 1982.
PIERUCCINI, S. O que Saussure diz sobre a linguagem. 2007.
SANTOS, J.F dos. O que é pós-moderno. Ed. Brasiliense, sp. 1986.

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