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sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Já sabe o que é multiculturalismo? Agora, conheça as ideias de Demétrio Magnoli

Entenda bem o que seja multiculturalismo para então entender o pensamento de Magnoli.



O MULTICULTURALISMO ( DO iTAU CULTURAL)

Multiculturalismo 

Definição
Hibridismo, diversidade étnica e racial, novas identidades políticas e culturais: estes são termos diretamente relacionados ao rótulo multiculturalismo. Se a diversidade cultural acompanha a história da humanidade, o acento político nas diferenças culturais data da intensificação dos processos de globalização econômica que anunciam, segundo os analistas, uma nova fase do capitalismo, denominada por autores como Ernest Mandel de "capitalismo tardio" e por outros, como Daniel Bell, de "sociedade pós-industrial". A despeito das querelas acerca das origens dessa nova fase, o fato é que as discussões acerca do multiculturalismo acompanham os debates sobre o pós-modernismo e sobre os efeitos da pós-colonização na cena contemporânea, o que se verifica de forma mais evidente a partir dos anos 1970, sobretudo nos Estados Unidos. A globalização do capital e a circulação intensificada de informações, com a ajuda de novas tecnologias, longe de uniformizar o planeta (como propalado por certas interpretações fatalistas), trazem consigo a afirmação de identidades locais e regionais, assim como a formação de sujeitos políticos que reivindicam, a partir das garantias igualitárias, o direito à diferença. Mulheres, negros (ou afro-americanos), homossexuais, populações latino-americanas ("hispanos" ou chicanos) e migrantes em geral se fazem presentes como atores políticos a partir da marcação de diferenças de gênero, culturais e étnicas. A cultura torna-se instrumento de definição de políticas de inclusão social - as "políticas compensatórias" ou as "ações afirmativas" - que tomam os mais diversos setores da vida social. Cotas paras minorias, educação bilingüe, programas de apoio aos grupos marginalizados, ações anti-racistas e antidiscriminatórias são experimentadas em toda a parte.
No campo das artes, o multiculturalismo assume formas muito variadas, ainda que possua sempre caráter engajado e intervencionista, definido em função da experiência social do artista: sua origem, pertencimento de classe, opção sexual etc. Arte e vida, imbricadas desde pelo menos as vanguardas históricas - no dadaísmo, por exemplo - tornam-se agora termos inseparáveis: a vida é que dita os contornos da arte, que pode ser negra, gay, feminista, chicana etc. Os artistas falam de um lugar, que é o dos não-WASP (white anglo-saxon protestant/anglo-saxão branco protestante): as mulheres falam a partir da condição feminina, assim como os afro-descendentes, os hispânicos, os índios etc. Nos Estados Unidos - onde o multiculturalismo é definido e teorizado por intelectuais de origem terceiro-mundista, atuantes nas universidades norte-americanas -, as relações entre produção artística e política se estreitam na década de 1970, basta lembrar a criação, em 1969, do Art Workers Coalition - AWC [Coalizão dos Trabalhadores de Arte], em Nova York, e do simpósio organizado pela revista Artforum, "O artista e a política". Protestos contra a Guerra do Vietnã, defesa dos direitos civis e do direito do artista em relação ao modo de exibição dos seus trabalhos são tópicos de uma pauta mais extensa formulada pelo AWC. Uma das exigências dos membros da coalizão - entre eles, a crítica Lucy Pippard e os artistas Takis (1925), Hans Haacke (1935) e Carl Andre (1935) - é a presença de um porto-riquenho no conselho de qualquer museu e galeria que exiba arte porto-riquenha.
Esse cenário sofrerá reconfigurações significativas sob o impacto do movimento feminista, que redesenha os contornos de parte da produção artística e da crítica de arte. A Women Artists in Revolution - WAR, formado a partir do AWC, o Conselho de Artistas Mulheres de Los Angeles (1971), a defesa de uma crítica feminista da história da arte, entre outros, introduzem novas questões nos debates sobre arte, que influenciam novas produções. A instalação O Jantar (1974-1979), de Judy Chicago (1939), por exemplo, tenta recuperar "uma história simbólica das realizações e lutas das mulheres". Tentativas de tematizar as necessidades e desejos das mulheres, por sua vez, aparecem em obras como Deus Dando à Luz (1968) de Monica Sjoo (1942). Críticas às ortodoxias de críticos, curadores, museus e galerias se fazem visíveis em trabalhos como A Morte do Patriarcado/A Lição de Anatomia de A.I.R. (1976), de Mary Beth Edelson, também autora da série Grandes Deusas(1975). O cruzamento das identidades feminina e negra é explorado em diversas obras. Nas performances de Adrian Piper (1948), por exemplo, a artista adota uma identidade andrógina e culturalmente ambígua (Eu sou a localização #2, 1975), inspirada nas discussões levadas a cabo pelo feminismo e pelo movimento negro, este também muito presente na arte contemporânea, sobretudo na literatura (Toni Morrison e Cornel West por exemplo) e na música (o hip hop e o rap). No campo das artes visuais, o graffiti surge como meio privilegiado de expressão dos jovens pobres, em geral negros, das periferias de Nova York. Se boa parte dessa produção não possui autoria definida, alguns nomes se notabilizam no gênero, por exemplo, o de Jean-Michel Basquiat (1960-1988). Original de uma família haitiana, Basquiat enraíza sua arte na experiência da exclusão social, no universo dos migrantes e no repertório cultural dos afro-americanos. Sua arte enfatiza as ligações do graffiti com o hip hop e com o mundo underground dos pichadores.
O Movimento Chicano (1965-1975), originário da luta contra a discriminação dos imigrantes mexicanos nos Estados Unidos, deve ser lembrado em função de seu ativismo artístico, revelando novos artistas e promovendo a criação de centros culturais "mexicanos-americanos" e hispânicos. Diversos artistas - norte-americanos de origem hispânica ou migrantes radicados nos Estados Unidos - trazem os debates sobre a diversidade cultural e produção de identidades para as obras que realizam. A chamada arte gay conhece maior notoriedade em função do impacto da AIDS no mundo artístico de Nova York e da atuação de grupos como o Act-up e o Gran Fury, nas décadas de 1980 e 1990.
Os efeitos dos debates sobre o multiculturalismo no Brasil mereceriam uma discussão à parte, dada a sua complexidade. País de raízes mestiças, e que não constitui historicamente minorias que se organizam como comunidades apartadas do conjunto - os migrantes acabaram assimilados à sociedade nacional -, o Brasil parece ficar à margem dessas discussões até a década de 1980, quando do fortalecimento e visibilidade das chamadas minorias étnicas, raciais e culturais. A pressão dos novos atores sociais reverbera diretamente no texto da Constituição de 1988, considerada um marco em termos da admissão do nosso pluralismo étnico. Os efeitos dessas formas renovadas de engajamento podem ser observados no campo da produção artística, sobretudo da literatura (fala-se uma "escrita feminina", em "vozes negras", em uma literatura de tom homoerótico etc.). Na música jovem, das periferias urbanas, define-se o espaço de uma cultura negra: o funk, o rap, o hip hop. O campo das artes visuais sofre o impacto dessas problemáticas - a experiência das minorias aparece tematizada em um ou outro artista -, ainda que pareça difícil localizar aí uma produção de cunho multicultural com contornos definidos.


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Não deixe de ler, não.  Os textos darão suporte à reflexão sobre o apedrejamento da mulher iraniana. ( rose prado)


Do multiculturalismo à deportação

Demétrio Magnoli, O Globo, 19/08/10
Todos devem portar a estrela amarela — eis o programa do multiculturalismo
“O crápula da República”, estampou na capa a revista francesa “Marianne” de 7 de agosto, sobre uma foto do presidente Nicolas Sarkozy. Dias antes, em Grenoble, Sarkozy pronunciara um discurso odiento: “A nacionalidade francesa deve poder ser retirada de todas as pessoas de origem estrangeira que deliberadamente atentaram contra a vida de um policial, de um militar ou de qualquer outro agente da autoridade pública. (...) Eu sustento ainda que a aquisição da nacionalidade francesa por um menor delinquente no momento da maioridade não seja mais automática.”
A pretexto de combater a violência urbana, Sarkozy pressiona pela introdução de uma fronteira de sangue entre os cidadãos. Os “franceses de casta” acusados de delitos contra as autoridades conservariam seus direitos nacionais. Os franceses “de origem estrangeira” — isto é, para iluminar o que está implícito, os cidadãos de outra “etnia” — perderiam tais direitos, sujeitando-se à deportação. A mudança não pressupõe que ninguém seja acusado de um ato de delinquência. Antes disso, todas as pessoas de origem estrangeira teriam sido rebaixadas a cidadãos de segunda classe, pois possuiriam apenas uma nacionalidade precária, condicional.
Grenoble representou a conclusão coerente de uma trajetória, não um raio no céu limpo. O ponto de partida foi o multiculturalismo. O ponto de chegada é a deportação. Se há um paradoxo nisso, ele é apenas aparente.
Há três anos, Sarkozy criou um Ministério da Imigração e da Identidade Nacional. No nome, há uma tese: a imigração constituiria ameaça à identidade nacional, definida segundo critérios étnicos. A tese condensa uma reação contra a história republicana francesa. Desde a Constituição de 1793, que consagrou o princípio do direito da terra, a cidadania é definida como um contrato entre iguais: os habitantes da França. No lugar disso, o “crápula da República” recupera o mito monarquista da “França de mil anos”: o fruto do encontro entre os francos e a religião católica.
A Frente Nacional de Jean-Marie Le Pen tenta restaurar o mito anacrônico por meio da celebração romântica do passado, que assoma na imagem santificada de Joana D’Arc. Sarkozy almeja um fim idêntico, mas pelo recurso ao multiculturalismo contemporâneo. Em 2008, o “crápula da República” encomendou um plano de ação em favor da “diversidade” e da “igualdade” entre as etnias. Tudo começaria com a reformulação do censo, para a produção de estatísticas étnicas da população. Na França, em nome do contrato republicano da igualdade, os censos não indagam sobre origem ou religião. Mas o projeto multiculturalista não pode viver sem isso, pois precisa colar rótulos étnicos em cada pessoa. Evidentemente, tais rótulos também são indispensáveis para identificar cidadãos de segunda classe e promover a deportação dos “indesejáveis”.
Tanto quanto no Brasil, o governo francês ganhou aplausos entusiasmados da rede de ONGs sustentadas pela Fundação Ford para a política de classificação racial dos cidadãos. Contudo, uma onda de resistência partiu de defensores de direitos humanos e de movimentos antirracistas. A escritora Caroline Fourest observou que “as estatísticas étnicas reforçarão o racismo”. Samuel Thomas, da organização SOS Racismo, conectou o discurso multiculturalista aos “nostálgicos da época colonial”. A feminista Fadela Amara qualificou as “estatísticas étnicas, a discriminação positiva, as cotas” como “uma caricatura”. E foi ao ponto: “Nossa república não deve se tornar um mosaico de comunidades. Nenhuma pessoa deve, uma vez mais, portar a estrela amarela.”
O “mosaico de comunidades” é o ideal do multiculturalismo. Na França, o recurso à “estrela amarela” propiciaria o delineamento de uma “nação gaulesa” circundada por uma miríade de “etnias minoritárias”. No Brasil, propicia a fabricação de um Estado binacional composto por uma “nação branca” (ou “eurodescedente”) e uma “nação negra” (ou “afrodescendente”). Lá, as minorias ganham a pecha de “estrangeiros”; aqui, todos seriam “estrangeiros” numa terra de exílio. Há mais uma diferença. A esquerda francesa, que acredita na democracia e enxerga-se como herdeira da Constituição de 1793, rejeita a rotulagem étnica. A esquerda brasileira, com honrosas exceções, cultua tiranias e despreza o princípio da igualdade política. Por isso, alinha-se com os arautos da política de raças.
Todos devem portar a estrela amarela — eis o programa do multiculturalismo. Também é a plataforma de Charles Wilson, líder de um partido neonazista americano que almeja enviar os negros e latinos “de volta a seus países”. Ele emprega uma linguagem paralela à dos nossos racialistas e reivindica algo que define como seus direitos raciais: “Eu tenho orgulho de ser branco. Estou falando de minha herança, e consideram isso um crime de ódio. Podemos dizer poder negro, poder latino, mas se você disser poder branco cai todo mundo em cima.”
Nos idos de 2006, o chefe da Frente Nacional reclamou do “excesso de negros” na seleção francesa de futebol. O zagueiro Thuram, nascido em Guadalupe, replicou oferecendolhe uma aula de história: “Não sou negro, sou francês. Le Pen deveria saber que assim como existem negros franceses, existem loiros e morenos. Viva a França! Mas não a França que Le Pen quer, e sim a França verdadeira.” É a “França verdadeira” que está em perigo quando o “crápula da República” tenta dividi-la segundo linhas oficiais de cor. Um “Brasil verdadeiro”, que vive na consciência das pessoas comuns de todas as cores, também está ameaçado pela maré montante das políticas raciais implantadas sob a cínica alegação do combate ao racismo.
“Como os militantes antirracistas poderiam apoiar o estabelecimento de categorias etno-raciais?”, pergunta, indignado, Samuel Thomas. Eis uma boa questão para os racialistas brasileiros que se travestem como militantes antirracistas.
Categoria: ideias  Tags: françamulticulturalismoracialismo
     

Discurso multiculturalista se baseia no racismo do século 19, diz Magnoli27 de setembro de 2009  11h50

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No mês passado, a publicação do livro "Uma Gota de Sangue", do geógrafo Demétrio Magnoli reacendeu o debate sobre as políticas afirmativas que se baseiam em critérios de cor ou raça. Doutor pela Universidade de São Paulo (USP) e participante do Grupo de Análises de Conjuntura Internacional da mesma universidade, Demétrio costuma criar impacto e chamar a atenção da mídia.
Em seu oitavo livro, ele defende que as políticas afirmativas guardam relação com a ideologia racista que justificou o imperialismo europeu e branco na África e na Ásia, no século 19 e que a política é um passo atrás em relação à Declaração dos Direitos Humanos.
À época do lançamento do livro, Demétrio Magnoli concedeu a seguinte entrevista.
Agência Brasil: O que é política de raça e como esse assunto entra no livro?
Demétrio Magnoli: O livro é sobre o mito da raça, a história do pensamento racial. Ele aborda três grandes momentos históricos de evolução do mito da raça. O momento da sua invenção que se dá no século 19 com o racismo científico - que aparece como uma produção de intelectuais, de cientistas naturais e cientistas humanos, que serve à finalidade de estados, das nações europeias em suas expansões na África e na Ásia. A ideia que a humanidade está dividia em raças, e que há uma hierarquia de raças, serve como legitimação para essa expansão imperial dos homens brancos entre os homens amarelos e os homens negros. É aquilo que se chamou no século 19, ''o fardo do homem branco'', a ''missão civilizatória das nações europeias na África e na Ásia''. Essa é origem do mito da raça.
ABr: E o que acontece depois desse período?
Magnoli: Um segundo momento é a ''desinvenção'' da raça na política. Isso se dá depois da 2ª Guerra Mundial, como reação aos horrores do nazismo do holocausto, os campos de extermínio de Auschwitz na Polônia , produzem uma reação que está expressa na Declaração dos Direitos Humanos das Nações Unidas 1948 e na Declaração das Raças da Unesco 1950 , onde esses organismos internacionais diziam o seguinte: ''a raça deve ser abolida da política'', porque ela produz genocídio, ódio e tragédia.
O terceiro momento, dos últimos 30 anos, é o momento de emergência do discurso e das politicas multiculturalistas que, a pretexto de fazerem o bem, recuperam o mito da raça do século 19. O que eu mostro no livro é que o discurso multiculturalista atual repousa sobre os conceitos desenvolvidos no século 19 e propõe que nós enxergamos as sociedades como colchas de retalhos de grupos raciais e que se reorganizem as leis da sociedade de tal forma a se distribuir direitos segundo critérios de raça. Então esse é o momento da reinvenção multiculturalista da raça.
ABr:Quem defende o multiculturalismo aponta a necessidade de políticas que favoreçam a diminuição da desigualdade entre brancos e negros existente na sociedade brasileira. Essa percepção não é correta?
Magnoli: Não. Evidentemente, o filho do ministro Joaquim Barbosa único ministro negro no Supremo Tribunal Federal não tem muitos problemas para estudar nem para ter oportunidades na vida, e ele tem pele escura. Enquanto que o filho de um trabalhador que ganhe um salário mínimo, com a cor de pele mais clara, tem uma série de desvantagens e de dificuldades na vida. Quando se toma a raça como critério você passa a nomear as pessoas a partir da cor da pele e produz fantasias políticas que estão baseadas na cor da pele. É o que faz, por exemplo, a Universidade de Brasília. Na UnB, com suas cotas raciais, o filho do ministro Joaquim Barbosa precisa ter menos pontos no vestibular para ser aprovado do que o filho de um trabalhador, de cor da pele mais clara e que ganha salario mínimo, precisaria.
ABr: Mas a desigualdade recai mais sobre os negros?
Magnoli: Isso é justificado com médias estatísticas, mas é claro que as médias estatísticas não disputam vestibular. Quem concorre no vestibular são pessoas reais. O mito da raça serve para criar grandes conjuntos que serão definidos, no caso do Brasil, pela cor da pele. Essas médias estão se referindo às pessoas que nem terminaram o ensino médio e que nem estão disputando o vestibular. Quando se faz política de cotas nas universidades o que se faz é dizer que a disputa de pessoas da classe média baixa, que disputam as últimas vagas nos vestibulares, se definirá pelo critério de cor da pele. O que se faz é pegar essas pessoas - das mesmas escolas, dos mesmos bairros, da mesma origem familiar - e traçar uma fronteira racial, que é uma fronteira imaginária e inventada. Esse tipo de política repousa sobre os mesmos fundamentos criados no século 19 pelo racismo científico. Ou seja, o multiculturalismo, que é um fenômeno pós-moderno, tem raízes na expansão imperial europeia naquele século.
ABr: O senhor fala em mito das raças, mas nós não temos no Brasil outro mito, o da democracia racial?
Magnoli: Uma parte importante do meu livro está voltada para desvendar a narrativa racialista que você repete de maneira tão óbvia. Na verdade não se inventou com Gilberto Freyre Casa Grande e Senzala ou com Sérgio Buarque de Holanda Raízes do Brasil , nenhuma ideia de democracia racial. O que o Brasil tem de diferente é que no final do século 19, quando em outros países, notadamente nos Estados Unidos, o paradigma da divisão das pessoas em raça estava se tornando dominante, há no Brasil um choque intelectual muito grande entre um pensamento que se baseia na raça e outro pensamento anti-racista, que começa muito antes de Gilberto Freyre e vem com o movimento sanitarista no Brasil. Quando os sanitaristas diziam: ''não há nenhum problema com o brasileiro pelo fato de ele ser miscigenado''. Os racistas diziam: ''o problema do Brasil é a miscigenação'', ''a miscigenação significa degradação'', ''o problema dos brasileiros é que eles são miscigenados e por isso ficam doentes''. E aí aparecem os sanitaristas e dizem: ''não, não é por isso que eles ficam doentes. Eles ficam doentes por causa do mosquito da malária , então vamos combater o mosquito''.
Os sanitaristas eram revolucionários num mundo que acreditava que o problema era a miscigenação e não o mosquito. É a partir desse choque intelectual que o Brasil vai, no início do século 20, desenvolver a ideia de que a mestiçagem é positiva. Uma ideia que hoje os racialistas abominam. Eles são tão atraídos pelo mito racial que abominam a ideia de que a mestiçagem é positiva. Todo o brasileiro é mestiço porque o Brasil rejeitou o mito da raça e portanto adotou um processo de mestiçagem cultural onde todos os brasileiros, mesmo os de pele alva, citando aqui Gilberto Freyre, tem no seu sangue ou na sua alma uma parte da África. Isso faz do Brasil um país diferenciado, não porque ele seja uma democracia racial, mas porque ao longo do século 20 não fez lei de raça. Isso separa o Brasil dos Estados Unidos. Ao não fazer lei de raças, as pessoas jamais reconheceram no Brasil uma identidade baseada no critério de raça.
ABr: Quem defende as políticas afirmativas diz que as cotas nos Estados Unidos deram tão certo que o país tem uma elite negra e até um presidente da República negro. Nesse sentido, uma política afirmativa no Brasil poderia colorir também a nossa elite?
Magnoli: Em primeiro lugar, os Estados Unidos não têm uma elite negra por ter tido uma política afirmativa de base racial. Os Estados Unidos têm uma elite negra por causa do funcionamento da economia americana. Essa elite negra começou a surgir nos anos 1950 e 1960, bem antes da entrada em vigor das políticas afirmativas. Não há nenhum elemento que evidencie que as políticas afirmativas mudaram em alguma coisa esse processo econômico e a produção de uma elite negra. Atribuir a vitória eleitoral de Barack Obama, um homem que já se posicionou contra preferências às políticas raciais, é um tipo de falsificação histórica bem grande. Eu contesto a legitimidade do objetivo de se ter uma elite negra. Eu contesto a legitimidade de se ter uma elite que se define em termos raciais. O que aconteceu nos Estados Unidos, nas últimas décadas, foi o aumento da distância social e econômica entre a elite e os mais pobres. Isso é um fenômeno dramático. Ao mesmo tempo que faziam políticas de preferência racial, os mais pobres ficavam mais distantes dos mais ricos nos Estados Unidos.
Agência Brasil


´VIDEOS
Demétrio fala sobre a História do pensamento racial
http://www.youtube.com/watch?v=99loDE1x93I

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