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sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Se pedirem resenha, talvez, selecionem um conto; a letra de uma música; histórias em quadrinhos...não sei.

Esta é uma resenha de um livro. É claro que o vestibular da Unicamp não pedirá uma resenha enorme. Mas acho bom expor uma resenha inteira. É que assim fica mais claro entender como é que se trabalha nessa modalidade de escrita. 
Se pedirem resenha, talvez, selecionem um conto; a letra de uma música; histórias em quadrinhos...não sei. 
Mas leiam o que puderem....



As emoções no contexto escolar

The emotions in the school context


Fausto Eduardo Menon Pinto
Prefeitura Municipal de Hortolândia


Arantes, V. A. (org) (2006). Humor e alegria na educação. São Paulo: Editorial Summus
O coração tem razões que a própria razão desconhece. Essa frase, proferida por Pascal Blaise (16231662) há centenas de anos, resume bem o valor da temática dos afetos no estudo do ser humano: o mundo do coração é que controla todas as volições humanas, tem suas leis próprias que para qualquer mortal é de difícil compreensão. Dessa forma, as emoções, os sentimentos e os afetos podem ser definidos como um capítulo à parte do estudo da psique, ora pela importância devida do tema no âmbito da Psicologia Básica, em ensaios teóricos e estudos empíricos clássicos e atuais, ora na compreensão acerca das particularidades do ser humano que os fazem amar e até mesmo odiar.
Partindo dessas reflexões iniciais, o livro Humor e alegria na educação, cuja organização fica a cargo de Valéria Amorim Arantes, docente da Universidade de São Paulo (USP), busca reunir uma série de pesquisadores conceituados na área acadêmica para a discussão da afetividade, mais precisamente do humor e da alegria. O livro está disposto em nove capítulos, cada qual incorporando uma leitura psicológica e educacional.
No primeiro capítulo, que se chama Poesia e escola, Joan Fortuny discute a importância do conhecimento poético no ambiente escolar, sinalizando que esse tipo de linguagem permite ao aluno a elaboração de sua experiência pessoal, de modo a conhecer os estados de ânimo e o que eles têm a ver com as experiências mais íntimas (a saber: subjetivas) nos relacionamentos humanos. Portanto, a poesia, através de uma linguagem metafórica, e simbólica ao mesmo tempo, tem a função de exprimir novas vivências e senti-dos à vida. Um outro debate nesse capítulo é questionar o papel da escola tecnicista, e por que não dizer, aquela que é pautada no conhecimento mecanicista, o que diminui substancialmente a formação do caráter humano, e dá valor ao aspecto puramente metodológico do aprender.
No capítulo seguinte, esboça-se um quadro teórico sobre a questão do lúdico na educação, no tocante à leitura de São Tomás de Aquino, um dos pensadores de maior prestígio na Filosofia. Segundo a óptica desse pensador, o brincar é necessário para a vida humana, pois é ele que consegue, até mesmo nos intelectuais, um tratamento divertido e agradável. Dessa forma, a atividade racional (pensante) não pode viver sem o lado jocoso e alegre da vida, afinal: ninguém agüenta um dia sequer com uma pessoa aborrecida e desagradável. Isso tudo dá indícios para se pensar que a mente humana não é povoada somente pela compreensão lógica da realidade, mas sim peloespírito afetuoso do gostar do quê e o como se aprende.
No terceiro capítulo - da autoria de Mario Sérgio Vasconcelos - reflete-se sobre o lugar do jogo na prática educativa. Faz o autor um breve retrospecto acerca das várias maneiras de se ver o brincar, passando pela Idade Média até o Romantismo, além de considerar o campo psicológico do saber. Ademais, destaca-se que o brincar foi excluído do contexto escolar em virtude da ênfase na dimensão racional do ser humano, explicitando uma crítica, se bem se entende, sobre o status, quase que majoritário, ou superior, da razão em relação à emoção, permeando com isso um dualismo secular, ou seja, uma separação entre razão e coração.
Maria Lúcia de Oliveira, no quarto capítulo intitulado Escola não é lugar de brincar?, aborda um panorama da concepção da educação entre os gregos até o surgimento da instituição Escola propria-mente dita. Enfatiza, nesse aspecto, o valor do humor e da alegria entre o povo grego, na questão do conhecimento, parecendo até mesmo supor que na filosofia grega há o mundo do prazer auxiliando na reflexão: valorizando a capacidade criativa, os jogos e a fantasia como um recurso lúdico na formação do espírito, em oposição com o estabelecimento de uma Escola com uma constituição técnica e centrada prioritariamente nas disciplinas curriculares.
O quinto capítulo, cujo autor é José Sterza Justo, expõe o humor do ponto de vista da constituição emocional e primitiva do sujeito psicanalítico. Referese ao vasto campo dos sentimentos, como o riso, a alegria e a perversão - esse último, aliás, muito discutido por Sigmund Freud em seus famosos ensaios. Enfim, todos próprios da natureza humana e que se constituem psiquicamente como tais através das primeiras vivências infantis. Assim sendo, as piadas e o humor usados em situações fúnebres - como os velórios e enterros - são um bom exemplo da maneira que algumas pessoas lidam com o sofrimento, e a angústia de sofrer, subtraindo da consciência toda e qualquer percepção de dor, e ajudando, também, a en-tender os caminhos que o humor percorre no funcionamento psicológico.
A discussão do sexto capítulo transcorre pela evolução dos caminhos da escola, acentuando o modelo dessa instituição baseado na organização das disciplinas, na disposição das classes e imersa em uma sociedade de resultados visíveis e práticos. Ou seja, os conteúdos disciplinares têm um fim, uma meta: o vestibular. Os alunos, sob tal justificativa, são cada vez mais analisados, observados e diagnosticados, tendose a impressão de se continuar os padrões de uma escola despreocupada com o prazer. Porém o autor, João Batista Freire, traz elementos novos de discussão e técnica para a sala de aula, descrita na experiência de Florianópolis, em que a realidade do aluno é transformada em imaginação e imagens e ganha novos significados. Pensada dessa maneira, a escola torna-se divertida e alegre, mas também responsável com os conteúdos tradicionais.
O sétimo capítulo traz um exemplo prático de como o educador, por intermédio de um diálogo franco e sensível, pode usar o humor como um forte recurso pedagógico na formação de seres humanos mais cônscios de seus atos. Em uma sala de aula, descreve-se uma série de falas dos alunos com supostas intervenções mediadas pelo educador; que, muitas vezes, valese do humor para construir novas inter-relações e significados entre educador-educando. Para encerrar a coletânea de textos, Maria Tereza Mantoan, professora da Universidade Estadual de Campinas, em um tom todo espirituoso elabora um conjunto de perguntas, em forma de teste, a fim de examinar o poder de inclusão do leitor diante de muitas questões recheadas de dilemas no cotidiano escolar, em que está subentendida, por vezes, uma visão preconceituosa de educação e de educando, o que deveria ser inclusiva.
Para concluir, todo o livro traz, como uma proposta única e inovadora, um conjunto de discussões muito pertinente e deveras atual para a Psicologia Escolar/Educacional e também para as áreas de conhecimento correlato, tais como a Pedagogia e a Filosofia. Este material nos incita, e nos faz questionar, ainda que tacitamente, sobre a real função do educador e da escola, do professor e do aluno. Após uma leitura atenta, haverá muitas perguntas a serem feitas, como a seguinte: Devemos ou não mudar nossa maneira de ver o nosso aluno? Por isso, recomenda-se este livro como um instrumento de apoio profissional para aquele que trabalha diariamente na formação pessoal de alunos nos mais diferentes graus de instrução de ensino.

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