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sábado, 30 de outubro de 2010

EXERCÍCIO PARA FAZER CARTA. UNICAMP. A SIRIO POSSENTI

Leia o texto e escreva uma carta a Sírio Possenti


Se Verissimo escreveu...

Sírio Possenti
O lingüista Marcos Bagno foi o entrevistado da Caros Amigos número 131, de fevereiro de 2008. É um fato a ser comemorado, porque ainda é mais difícil explicar o que faz um lingüista do que o que faz um lobista... Por razões diferentes, claro.
Uma das teses de Bagno é que o ensino deveria ser menos conservador, ou seja, que a escola deveria aceitar como normais (na linguagem de quase todos, comocorretas) construções que as gramáticas ainda condenam sem razão consistente, mesmo para seus pontos de vista. Muitas delas, aliás, são aceitas sem que professores, intelectuais, avaliadores etc. se dêem conta de que já foram "erros". Por exemplo, a presença de "se" em frases como "para se morar bem... / para se fazer uma pesquisa...". Claro que alguns plantonistas ainda dizem que essa construção está errada, que o "se" não faz sentido etc., mas plantonista não é critério. Como Bagno disse muito bem - suas falas até que foram macias, mas, no caso, ele foi duro, e com justiça - esses caras não têm formação, repetem manuais como papagaios.
Vejam, por exemplo, dois casos da mesma construção no mesmo texto: a coluna chamada Tim-Tim (Correio Popular 14/02/2008), de Luis Fernando Verissimo, começa assim: "Não se vê mais patacas e dobrões, a não ser em filme de pirata". E quase no final, "...compreende-se os abusos".
Ora, Verissimo é uma das duas unanimidades nacionais, ao lado de Chico Buarque. No caso dele, o que o coloca nessa posição é apenas sua escrita. Ele não tem olhos cor de ardósia e, pelo que se sabe, as mulheres não se animam particularmente quando ele aparece no palco, como fazem quando é Chico que entra em cena. Então, se ele escreve não se vê em vez de não se vêem ecompreende-se em vez de compreendem-se, e se as gramáticas dizem que suas regras têm como base os melhores escritores, por que nossas escolas, provas, testes, vestibulares, concursos - e mesmo as gramáticas - acham que devem defender verbos no plural nessas construções?
O mesmo pode ser dito da defesa do verbo haver - ou a condenação do verbo ter- em frases existenciais, se todo mundo diz e muitos escrevem tinha uma pedra no meio do caminho ou tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu? O primeiro verso, como todos sabem, é de Drummond e é velho de cerca de setenta anos; os outros são de Chico, que, no caso, não está escrevendo "popularmente"...
Outro exemplo de conservadorismo bobo: não aceitar pronomes oblíquos em começos de frase, apesar de ei, você aí, me dá um dinheiro aí! Na Ilustrada (FSP) de 21/02/2008, Calligaris comenta um livro de Marcel Rulfo, cujo título em português é Me larga!. Espero que não apareça ninguém na mídia corrigindo para Largue-me! No mesmo dia - mas também antes disso, já não lembro onde - o caderno noticiou também que Carmela Gross, uma brasileira, expôs uma instalação em algum festival de arte de Madri, que é um grande anúncio luminoso com a frase SE VENDE (para protestar contra os rumos da arte, parece).
Veja o nobre leitor que não estou inventando nem propondo nenhum critério novo. Estou apenas levando minimamente a sério o dos próprios gramáticos. Nem estou propondo (nem o fez Bagno), embora isso não fosse totalmente descabido, que a escola e outras agências de controle aceitem construções como "nós vai" ou "os dois litro". Nem mesmo "a gente fomos", embora construções assim estejam nos clássicos e então recebam nas gramáticas o sonoro nome desilepse. Não, não estou sugerindo nada de revolucionário, embora talvez devesse. Apenas peço que os princípios dos próprios gramáticos sejam aceitos por eles mesmos e por aqueles que se dizem seus seguidores. Afinal, eles se referem aos bons escritores, e não aos mortos ou bem antigos.
***
Ferreira Gullar não se emenda. Ou não deixa de trair suas verdadeiras crenças, apesar de diversas poses populares. Em sua coluna de domingo 17/2/2008 naFolha, escreveu: "Mas quem é o povo? Aquela gente nordestina, magricela, tostada de sol, que mal sabe falar?". Como assim, mal sabe falar? Que critérios ele usa para afirmar tamanha besteira? Os nordestinos que todos conhecem, de viagens, de praias ou de entrevistas na TV, são falantes absolutamente normais.
Será que ele acha que Fabiano representa o nordestino típico? Lê Vidas secascomo se fosse relatório do IBGE? Ou está confundindo fluência com competência, talvez por assistir a si mesmo na TV Senac?

Sírio Possenti é professor associado do Departamento de Lingüística da Unicamp e autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua e de Os limites do discurso.
http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI2644194-EI8425,00.htmlFale com Sírio Possenti: siriopossenti@terra.com.br

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