Total de visualizações de página

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

A ética dos encontros descartáveis

A ética dos encontros descartáveis
por Silvia Graubart
Falar de amor e sexo no século XXI implica refletir sobre a "sociedade do espetáculo" descrita pelo polêmico pensador francês Guy Debord. O autor analisa uma forma de estar no mundo em que a vida real é, inexoravelmente, pobre e fragmentada - e as pessoas são obrigadas a assistir e a consumir passivamente as imagens de tudo que lhes falta em sua existência subjetiva.

Essa perspectiva me remete ao termo "ficar" - rótulo informal para os encontros efêmeros e descartáveis, nos quais ver, ser visto e aparecer reduzem os casais a machos e fêmeas no cio. Os pares são transitórios, os arranjos duram apenas algumas horas, talvez dias. Ou minutos. É o tempo do desejo saciado.

A disposição para a entrega, para o "outro" e para o amor vive (ou sobrevive) sob o impacto do exagero, da aceleração e da competitividade. A sexualidade é experimentada como mais um produto de consumo, fica disponível num mercado de troca que não vai além da dimensão ilusória.

REFLEXOS DA GLOBALIZAÇÃO
"Ficar" denuncia uma nova ordem das coisas e o inevitável entrelaçamento entre indivíduo e mundo. Uma espécie de voyeurismo, que ao mesmo tempo exibe e excita, restringe o potencial criativo dos verdadeiros encontros à mera satisfação carnal. "Ficar" torna-se o absolutismo literal, comprometendo a fusão com os outros sentidos. Impede a elaboração das fantasias indispensáveis à compreensão do que está por trás da banal conexão entre os pares e do que poderia ser apreciado, sentido e vivido como metáfora para novos e mais criativos estilos de relacionamento.
2 3 »
Silvia Graubart é analista junguiana, jornalista, terapeuta sexual, membro da Associação Junguiana do Brasil (AJB), do Instituto Junguiano de São Paulo (IJUSP) e da International Association for Analytical Psychology, Zurique (IAAP).




http://www2.uol.com.br/vivermente/artigos/a_etica_dos_encontros_descartaveis.html

Um comentário:

  1. Ótimo texto, Rose! Instiga reflexões interessantes.
    Há uma entrevista antiga, concedida pelo psicanalista Jurandir Freire Costa, que trata de algo curioso. Ele defende a tese de que o mito do "amor romântico" ainda subsiste,apesar de vivermos num mundo de relações efêmeras e hedonistas. Isso, segundo ele, acaba destruindo as relações reais, sobretudo as afetivas.

    ResponderExcluir

Pesquisar este blog

Arquivo do blog