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terça-feira, 19 de outubro de 2010

aproveito a noite fria para relatar minha experiência como professora de Português e declarar a minha paixão pela Gramática culta.

Texto do meu blog antigo





Sei que o sonho de Oswald de Andrade era o povo um dia comendo os biscoitos finos da sua poesia.
Sei, inclusive, do alerta dos lingüistas para as variantes e, todos os falares. Mas desconfio de que quem saiu prejudicado com a desatenção à gramática normativa foi o povo.
Eu adoro a gramática normativa, a língua culta.
Na juventude, fui adepta das gírias, esqueci - ou quase-  o aprendizado do colégio. Nos anos setenta, empregar a gíria e os erros nos tempos verbais nos ajudava na inclusão social, no desejo de fazer parte dum grupo que buscava, desesperado, inventar um jeito de ser. 
Lembro meu pai criticando: “Rose, não entendo mais o que você fala” . Eu caprichava no desdém pelo vernáculo culto: “Tô ligada, pai!”
Ocorre que, no começo dos anos oitenta, fui cursar Língua e Literatura na Puc. E lá descobri que os professores, também, não eram “chegados” à norma culta. Estranhei e achei bom. Gostavam era de Linguística e de Semiótica.
A princípio achei bom, mas mudei de idéia, quando comecei a dar aulas particulares.Os alunos precisavam da língua culta, não só os meninos do colégio, mas também os adultos que visavam aos concursos. Então, seria um erro não valorizar a língua culta. Sem ela, não organizavam a escrita. 
E, porque precisasse trabalhar, comecei a estudar a gramática.  Foi quando "saquei" que meu pensamento tinha ficado mais concatenado, mais claro até para mim mesma, não só pra escrever. 
Com o tempo, descobri também que podia ter acesso mais fácil a textos muito complexos. Peguei o "diproma" e fui pro "trampo" Mas, mesmo dominando a norma culta, tomava cuidado para não me tornar metida. 
No início da vida profissional, anunciei meu trabalho em jornais populares, em cartazes, nas farmácias. Daí o fato da clientela ter sido se composta de alunos do colégio Bandeirantes, Etapa, mas também de gente de camadas com baixo poder aquisitivo. Descobri que esta é que mais valorizava o português culto.  Descobri depois que todos os alunos evoluíam na intelecção de textos, à medida que acertavam a conjugação dos verbos, ou o emprego das preposições corretas.
Foi quando me apaixonei pela Língua Portuguesa e, em especial, pela norma culta.
Substantivos, adjetivos, verbos, o meu feijão com arroz. E adoro a engrenagem da sintaxe, embora eu a saiba falha – não dá conta de explicar os meandros da língua.
A normativa propõe que verbos intransitivos se bastam, porque apresentam sentido completo. Não é verdade. Se eu digo “O marido bateu.”, a frase fica incompleta. Falta a mulher. Ele bateu na mulher. Mas, se o verbo bater é intransitivo, a mulher, além de apanhar do marido, ainda vira termo acessório, uma mera mulher “adjunto adverbial de lugar”.
Os gramáticos vivem atritos. Mencionam o verbo transitivo circunstancial em lugar de certos intransitivos que necessitam de complemento.
E assim é. Há falhas na norma da língua. É, por isso, que muito aluno fica boiando na sintaxe e passa a detestá-la. Quando se explica  que a regra tem falhas, o ensino flui.
Costumo dizer, nas aulas, que as regrinhas da sintaxe funcionam como sinais de trânsito, dão setas “ entre por aqui, por ali,mas cuidado nunca à esquerda, cuide do receptor. 
“E não corte as veias entre as palavras! Porque a engrenagem da sintaxe permite o fluxo dum sangue que, impedido, mata idéias.
No ano passado, a ESPM perguntou o porquê de o mercado valorizar os profissionais que dominam a norma culta. Outro dia, dei essa proposta para alguns alunos . Eles não souberam me explicar.
Foi quando eu lhes expliquei a importância de conhecer, por exemplo, a mesóclise: “Como é que vai entender um texto do século XIX, que usa mesóclise?
E um dia em aula ...eu dizendo: "A hierarquia das empresas mudou. Ai da chefia que não possa contar com as idéias dos trabalhadores! Empresas navegam à deriva, num momento de economia instável; muda uma regra no mercado e elas “quebram”. E um aluno?  "A empresa fale?".
" Não, a empresa não fale, Rodrigo. Porque o verbo falir é defectivo, não tem o presente do indicativo na terceira pessoa do singular. A empresa “quebra”, vai “pra cucuia”! E vivam as gírias e todos os barbarismos! São dinâmicos, transformam a linguagem!

E salve a gramática normativa. Sequer um pastor compreenderia bem sua Bíblia, caso não dominasse as regras gramaticais! Sem elas, o rebanho da igreja tornar-se-ia mero repetidor de palavras.


Bom elogio à gramática, sem entanto, desdenhar os barbarismos e gírias, que são o sal dos idiomas, o tempero das palavras. O culto à norma culta não pode cercear o dinamismo das invenções neologísticas que brotam como plantas na floresta das palavras. Dizem que no auge da Latim, meados da idade média, se falava muito bem o português. Quer dizer, outra língua nascia sob a hegemonia da língua culta.

5 comentários:

  1. Rose, querida, que constatações saborosas seu texto me propiciou. Eu amo a língua, mas experimentei um caminho inverso ao seu. Cursei primeiro Direito e a língua, para mim, reduzia-se a normas. E como eu as amava! Tanto que, à época, bacharela em Direito, comecei a ministrar aulas de Gramática para concursos. Sentia um prazer especial em transformar aquele "bicho-de-sete-cabeças" em algo lógico, acessível, fácil, e é isso que a regra permite (amei sua metáfora das placas de sinalização). Somente ao cursar Letras é que percebi o quanto a Língua é rica e ultrapassa esses caminhos. Abri meus olhos e notei o quanto minha concepção anterior era, na verdade, "engessada". Curioso mesmo é perceber que, embora por caminhos tão distintos, acabamos chegando a conclusões tão parecidas!
    Um abraço.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Oi, Tatha

    respondo amanhã cedo...Já li...huhu...tb fiz direito, mas saí logo...rs

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  4. Eu fiz 2 anos de direito, aqui na Usp. Qdo saí fiquei bem confusa, até porque o que eu queria mesmo era sociologia, isso depois, de ter-me apaixonado - platonicamente- por um professor que "fez minha cabeça" pra gostar de sociologia. No começo era pra eu ser psicóloga. Depois....
    Tive um tempo - fim dos anos setenta - de não sei como nomear ..porque hippie nunca fui..então...Mas fiquei longe da universidade. Então, quando tudo parecia perdido, entrei na PUC...mas com a vivência do Largo 'Sanfran'e as ciências socias da Usp, num tempo de ditadura.
    Saususse, Pierce, eu o di ei. Chomsky, Grice...sim, sim...
    Odiei semiótica e ...literatura com base na eleição de iluminados, manja os livros da Perspectiva? Por aí...Sousândrade é o único romântico digno de nota. Um horror. Perdi o gosto pela literatura e recentemente voltei a resgatar isso.
    SeMãntica, o Rodolfo Ilari ...eu gostei...E claro que os conceitos de diacronia/sincronia etc são fundamentais. Mas que não fiquemos só neles, o caso é que ficavam...
    Na PUC do meu tempo era assim, uns entendiam , o resto ( maioria) boiava...e no fim - de algumas dependências e tal - todos passavam...
    Gente que ia dar aula em escola pública ficava três anos na dependência do Pierce...Um terror!
    Eu gostava das professoras e ficava muito confusa, porque eu fingia que gostava daquilo tudo.
    mas já passou ...ufa ufa...

    Você é muito genial, mulher!

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  5. Percebo a importância de dominar a gramática , tb p poder subvertê-la ...E é essa subversão que me permite dizer aquilo que toda a linearidade e o acurado das regras jamais permitiriam. Há um canto da vida que só a quebra da expectativa alcança.

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