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terça-feira, 28 de setembro de 2010

Memética: a invasão das mentes Assim como características genéticas são transmitidas hereditariamente, passando por mecanismos de seleção natural e evolução, comportamentos e ideias também seguem o mesmo processo.


Gustavo Leal Toledo

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O "ingrediente" fundamental da evolução é, segundo o biólogo Richard Dawkins, o que ele chamou de replicador: o replicador é um ente capaz de fazer cópias de si mesmo. Ele é o ser que tem descendentes e é nele que podemos dizer que a seleção natural age. Os primeiros replicadores eram capazes de copiar a si mesmos, sendo assim, seus descendentes herdavam suas características e, portanto, também eram capazes de copiar a si mesmos. A hereditariedade é uma característica fundamental dos replicadores. Entretanto, mesmo os replicadores que são capazes de fazer boas cópias de si eventualmente erram no processo e criam seres diferentes de si.
Esses erros, que foram chamados de mutações, acontecem por acaso, ou seja, eles não são direcionados para nada. Mas, eventualmente, um erro na replicação pode criar um replicador mais potente. Quando isso acontece, essa mutação é passada aos seus descendentes que eventualmente poderão ter novas mutações que também ampliem seus poderes de replicação. Tal processo de acúmulo de mutação é o que pode ser chamado de evolução. Ele se dá pela seleção natural que nada mais é do que o sucesso reprodutivo diferencial, ou seja, aqueles que se replicam mais se tornam mais comuns; os que se replicam menos tornam-se mais raros.
No caso do nosso planeta, os principais replicadores são os genes. São eles que sofrem as mutações e que transmitem as informações da hereditariedade. No entanto, o chamado ultradarwinismo nos mostra que o importante do gene não é o fato de ser uma cadeia de DNA e, sim, de ser um replicador. Deste modo, se ele fosse feito de outra coisa que também pudesse se replicar, também seria alvo da seleção natural e, por consequência, da evolução. É neste sentido que o ultradarwinismo quer ultrapassar as barreiras do darwinismo.
Para o ultradarwinismo, também chamado de darwinismo universal, o darwinismo não se restringe a um estudo da Biologia do nosso planeta. Onde houver um replicador capaz de passar suas características para seus descendentes e houver um suprimento finito de "nutrientes" necessários para a replicação, ocorrerá a seleção natural e a evolução. Isto quer dizer que a evolução não depende do substrato biológico aqui da Terra, ela pode se dar em outros planetas, com outros substratos. Como diz o filósofo Daniel Dennett: "As ideias de Darwin sobre os poderes da seleção natural também podem ser retiradas de sua base biológica". Com isso, Dennett não está querendo dizer que tais ideias possam ser aplicadas só a outros planetas e, sim, aplicadas a qualquer ambiente onde existam outros replicadores. Nas palavras de Richard Dawkins, "o darwinismo é uma teoria grande demais para ser confinada ao contexto limitado do gene".
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O replicador é capaz de fazer cópias de si mesmo e de gerar descendentes, de modo semelhante ao que faz o gene no processo de reprodução. É nele que age a seleção natural
Conceito de meme
Foi justamente para deixar mais intuitiva a ideia de que a evolução independe do substrato que Dawkins criou, no último capítulo de seu livro 
O Gene Egoísta (1976), o conceito de meme. Um meme pode ser compreendido como uma unidade de cultura, um comportamento ou uma ideia que pode ser passada de pessoa para pessoa pela imitação. Existe uma grande discussão sobre se os memes podem ser passados só por imitação ou se podem ser passados por outras formas de aprendizado social. Mas o importante é que eles são copiados de indivíduo para indivíduo. Ele é o replicador e, deste modo, o meme é o análogo cultural do gene.
Na definição de Susan Blackmore, considerada por Dawkins e Dennett como a principal defensora dos memes, "memes são instruções para realizar comportamentos, armazenado no cérebro (ou em outros objetos) e passado adiante por imitação". Deve ser notado que é bastante óbvio que a cultura passa de pessoa para pessoa, de geração para geração. Também não é nada questionável que a cultura muda, tendo partes dela desaparecido e outras partes se desenvolvido. Mas o real problema é como essa cultura passa e como ela muda e é isto que a Memética tenta resolver por meio de um processo darwiniano.
Os exemplos de memes são inúmeros, os mais comumente citados são: a moda nas roupas e na alimentação, cerimônias e costumes, Arte e arquitetura, engenharia e tecnologia, melodias, músicas, ideias, slogans, a roda, o alfabeto, a religião, etc. Toda a cultura, todos os comportamentos sociais, todas as ideias e teorias, todo comportamento não geneticamente determinado, tudo que uma pessoa pode imitar ou aprender com outra pessoa é um meme. Assim, um nazista, por exemplo, ao defender o nazismo está tentando passar este meme para outras pessoas. Se as mentes destas outras pessoas forem um ambiente propício para o meme do nazismo se instalar, ele assim o fará e tentará passar destas pessoas para outras.

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