Total de visualizações de página

domingo, 5 de setembro de 2010

A Filosofia lida com as questões essenciais da nossa existência” Mario Sergio Cortella

A Filosofia lida com as questões essenciais
da nossa existência”

Mario Sergio Cortella



 Conhecimento prático
Não é por acaso que Tales de Miletoseja considerado o primeiro filósofo: ele não abandonou o mito, que à época era a explicação hegemônica daquele período, mas soube incorporar ao mito alguns conhecimentos práticos para o dia-a-dia. Desse modo, o propósito da Filosofia é trazer uma leitura ao mundo menos imediatista, menos pragmática, menos apressada. Uma leitura que dê sentido àquilo que fazemos e vivemos.
 O sentido da vida
Embora haja uma corrente filosófica que não encontra sentido na vida, sobretudo no que se refere ao fim e ao princípio, é pertinente observar que certa crítica recente do pensamento filosófico Ocidental tem feito uma reavaliação de conceitos considerados como estanques. É o caso de autores como Michael Onfray e Allain de Botton, por exemplo. Enquanto o primeiro observa que as religiões tendem a mascarar a transcendência de forma irracional, o segundo nota na sociedade contemporânea a emergência pelo desejo de status. Dentro dessa perspectiva, a Filosofia proporciona à civilização um entendimento das coisas e do mundo menos controverso e, principalmente, menos esquemático. As regras são estabelecidas não como camisas-de-força, mas para que se possa apreender o todo e não-somente as partes.
Em “O fim e o princípio”, documentário do cineasta Eduardo Coutinho, algumas dessas questões são observadas.
CP FILOSOFIA Tomando por base um dos subtítulos de seus livros – no caso, “provocações filosóficas” – em um mundo dominado pela técnica, por que a Filosofia é importante?
MARIO SERGIO CORTELLA A Filosofia é importante na História humana. Embora com o nome Filosofia só formaria sua base a partir do século VI a.C., a organização de um pensamento questionador, indagador e inconformado com o óbvio já é algo que atravessa as sociedades e as culturas. No Ocidente, nós nos habituamos a lidar com a noção de Filosofia como aquela herdada do mundo greco-romano – e aí a Filosofia tem uma presença e uma herança para nós. No entanto, a Filosofia não é apenas um nome que se dá a uma área do conhecimento. Antes, trata-se de uma atitude crítica que nos leva, no mundo cotidiano, a recusar um pouco das conformidades que ele carrega. É possível, aliás, propor a seguinte ilustração: ao colocarmos um pouco de água em um copo, a água se conforma a esse recipiente, ficando aprisionada à forma do copo. A Filosofia é um dos jeitos de transbordar, de recusar o limite, de não aceitar o encerramento das idéias em uma única perspectiva. Hoje em dia, pelo fato de ser extremamente dinâmica, a tecnologia nos conduz a uma certa cela de velocidades. Assim, em vez de ficarmos presos no tempo, estamos libertos no tempo, o que é terrível, porque não permite a reflexão mais demorada, a maturação, a capacidade de gestão das percepções. Por tudo isso, a Filosofia, às vezes, é meditação, é forma de consolação; em vários momentos, é maneira de indagar; e, em alguns outros pode inclusive distrair, assim como há situações em que aliena. Por esse motivo, Descartes dizia que o filósofo é aquele que, a um só tempo, tem idéias de chumbo e possui asas. Em outras palavras, não se pode ficar conectado apenas ao chão, mas tampouco é indicado ficar conectado só ao céu. Aquele que fica nas nuvens, em Filosofia, é costumeiramente chamado de nefelibata. E aquele que fica só ao chão poderia ser classificado, conforme escreveu Nelson Rodrigues, de idiota da objetividade. Por isso, a Filosofia tem conhecimento prático 
CP FILOSOFIA Uma crítica muito comum feita aos filósofos diz respeito ao fato de que os pensadores estariam distantes das discussões cotidianas, que efetivamente interferem no dia-a-dia, porque a Filosofia trataria de temas muito abstratos.
MARIO SERGIO CORTELLA A Filosofia lida com as questões essenciais de nossa existência: o sentido da vida, a fonte da moral, qual é a base da verdade, qual seria o procedimento correto na vida. Ou seja, aquilo que de fato marca e aquilo que entendemos como importante – e não obrigatoriamente como urgente. É preciso não confundir o urgente com o importante. Muita gente se dedica ao urgente e deixa o importante de lado. O sentido da vida  é importante. A Filosofia é uma das ferramentas para que se busque esse sentido, o que não significa que a Filosofia em si mesma tenha essa condição. A resposta àqueles que entendem a Filosofia como sendo mera perda de tempo está, veja só, no cotidiano. E neste momento em que a humanidade cria angústias, quando se depara com uma vida insana marcada pela laborlatria e pelo biocídio – o assassinato da vida de todas as formas –, a Filosofia toma seu lugar de volta. Talvez volte como se fosse uma mãe idosa ou como a louca da casa, mas, de qualquer maneira, a Filosofia tem essa presença. Como dizia o pensador britânico Bertrand Russell, a Filosofia é a ciência dos resíduos. Isto é, mal um conhecimento obtinha alguma precisão no campo filosófico, este perdia o nome de Filosofia e ganhava um nome específico: Física, Química, Psicanálise. A Filosofia, de acordo com essa observação irônica, seria tudo aquilo que sobra depois que conseguimos resolver algumas das questões. O resíduo não é o lixo; é o restante.
Por isso, a Filosofia tem o seu lugar, que não é necessariamente natural, mas um lugar que se constrói no dia-a-dia.

1 | 2 | 3 | 4 | Próxima >>

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Pesquisar este blog

Arquivo do blog