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terça-feira, 28 de setembro de 2010

A busca sem fim A cultura de consumo segmentada, o uso dos antidepressivos, as terapias alternativas, tudo isso faz parte de um contexto em que a ideia de "qualidade de vida" começa a mudar os corpos e a subjetividade das pessoas

A busca sem fim
A cultura de consumo segmentada, o uso dos antidepressivos, as terapias alternativas, tudo isso faz parte de um contexto em que a ideia de "qualidade de vida" começa a mudar os corpos e a subjetividade das pessoas
por Robson Rodrigues


Shutterstock
O que é qualidade de vida? Seria um método usado para medir as condições da vida de um ser humano ou se trata de uma representação social criada a partir de parâmetros subjetivos, como bem-estar, felicidade, amor, prazer, realização pessoal e também objetivos, como satisfação das necessidades básicas e das necessidades criadas pelo grau de desenvolvimento econômico e social determinado pela sociedade? É difícil entender o que impulsiona indivíduos a uma busca desenfreada para alcançar esse objetivo que envolve o bem físico, mental, psicológico e emocional, além de relacionamentos sociais, como família e amigos e também a saúde, educação e outras circunstâncias da vida. Ou seja, tudo aquilo que é pautado para se ter uma vida "perfeita".
O que o senso comum entende é que qualidade de vida é uma coisa que pode ser medida, um objetivo a ser buscado dentro dos programas das empresas, ou do tempo que passamos no trânsito entre o local de trabalho e nossa casa, a qualidade dos serviços médico-hospitalares, a presença de áreas verdes nas grandes cidades, a segurança que nos protege dos criminosos, a ausência de efeitos colaterais de medicamentos de uso crônico, a realização profissional e financeira, enfim, o que cada um de nós pode considerar como importante para viver bem.
De fato, a qualidade de vida e a busca por uma melhor condição de vida são procuras incessantes dos seres humanos; mas isso não seria necessariamente uma definição completa. Afirmar isso seria dizer que uma das características fundamentais da nossa espécie é a eterna necessidade de querer viver bem, de constantemente vislumbrar novas condições, de tentar superar as condições mais adversas por outras um tanto melhores.
Mas o que realmente ocorre é que isso está presente na vida das pessoas. Seguimos as recomendações que nos são dadas sobre comer moderadamente, dormir com boa qualidade de sono, fazer exercícios frequentes e moderados, busca uma vida sexual satisfatória, lazer, relacionamentos sociais saudáveis e conquistas pessoais, procriar para satisfazer a necessidade de continuidade da espécie, evitar situações de estresses crônicos. Tudo para vivermos melhor. O fato é que a preocupação com o conceito de "qualidade de vida" refere-se a um movimento dentro das ciências humanas no sentido de valorizar parâmetros mais amplos que apenas o controle de sintomas, a diminuição da mortalidade ou o aumento da expectativa de vida, mas também de entender que esse conceito carrega implicitamente estilos e padrões de vida tidos como corretos e legitimados com o aval de especialistas e da própria sociedade.
Contudo, o que se nota é que a qualidade de vida está associada a um estilo de vida, uma modalidade comportamental, ou seja, no atual contexto essa busca pode ser considerada uma imposição social para se obter o corpo perfeito com dietas, alimentos orgânicos e tratamentos alternativos para que os indivíduos se sintam pertencentes a um determinado grupo e respondam aos anseios da sociedade.
Essa apologia do corpo perfeito é uma das mais cruéis fontes de frustração dos nossos tempos. É o que aponta a doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP), Lilian D. Graziano. "A busca pelo corpo perfeito já é um agente estressor". O que se observa é a escravização das pessoas por um modelo inalcançável de beleza rotulado muitas vezes como saudável. E isso é posto para cada indivíduo de maneira diferente. "Várias pessoas vivem num mesmo ambiente e sob as mesmas interferências, mas cada indivíduo reage de maneira diferente às adversidades conforme a percepção que tem da realidade", afirma a psicóloga.

Assim, os indivíduos têm suas vontades ditadas pelos modos de comportamento estabelecidos. Já para o professor de Sociologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Richard Miskolci, a ideia de qualidade de vida estabelecida hoje opera por um meio ainda mais perverso e eficiente.
"Vivemos em uma era em que o poder opera pela sedução. Somos constantemente convencidos e incitados a desejar este modelo de vida em que, por meio do consumo de técnicas e informação especializada, teríamos acesso à aceitação social plena. Esta busca contemporânea revela como, por trás do termo qualidade de vida, reside a busca conservadora de adequação aos modelos propagandeados pela mídia, pelos saberes médicos e técnicos sobre o corpo, mas também de normalidade psíquica compreendida como conformismo político e comportamental", revela Miskolci.
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