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domingo, 22 de agosto de 2010

Tanto sobre a China

Aqui, uma coletânea sobre a China. Leia tudo. Busque um eixo temático, uma tese. Escreva uma dissertação argumentativa.


Enorme necessidade energética da China cria cenário propício a desastres ambientais

International Herald Tribune
Sam Chambers
Às vezes as estatísticas colidem no momento exato para mostrar um quadro mais amplo. A necessidade crescente de energia da China está resultando num aumento dos incidentes industriais, e são poucas as chances de que a série de catástrofes ambientais do país diminua no futuro próximo.
Faz um mês que a República do Povo sofreu seu pior vazamento de petróleo. O desastre de 16 de julho aconteceu num momento sensível para Beijing, ao mesmo tempo em que veio a notícia de que a China ultrapassou os Estados Unidos no consumo de energia.
O vazamento aconteceu depois que dois oleodutos explodiram num depósito de armazenagem de petróleo no porto de Dalin, administrado pela China National Petroleum Corp., parente da companhia mais valorizada por capitalização de mercado do mundo, a PetroChina. Desde 2006, o local do acidente havia sido considerado um risco ambiental pelas autoridades locais.
O incidente detonou uma chama espetacular que queimou por três dias, espalhando um cheiro acre pela metrópole do nordeste chinês, que costumava vencer as enquetes sobre cidade mais habitável da China.
Alguns dias depois da explosão, a Agência Internacional de Energia disse que a China era a maior consumidora de energia do mundo, e não os Estados Unidos. A mudança histórica aconteceu anos antes do que se previa, uma vez que o consumo de energia da China mais do que dobrou em menos de uma década.
A AIE disse que o consumo de energia da China em 2009, do petróleo e carvão até a energia eólica e solar, equivaleu a 2,265 bilhões de toneladas de petróleo. Os Estados Unidos usaram 2,169 bilhões de toneladas no ano passado. Per capita, entretanto, os norte-americanos ainda consomem cinco vezes mais energia.
No ano passado a China se tornou o maior mercado de carros do mundo. Só em agosto de 2009 os habitantes de Beijing compraram mais carros novos do que toda a população norte-americana. E no entanto a China tem apenas 1/20 do número de carros por pessoa do que os Estados Unidos têm. E a consultoria Mckinsey estima que o número de automóveis nas estradas da China irá mais do que triplicar até 2020.
Beijing contestou os números da AIE. Entretanto, a confusão estatística foi esclarecida mais tarde com números do próprio ministério de proteção ambiental da China.
O número de acidentes ambientais aumentou 98% nos primeiros seis meses do ano, de acordo com o ministério, enquanto a demanda por energia e minerais levou ao envenenamento de rios e derramamentos de óleo no país que hoje é o maior poluidor do mundo.
“O rápido desenvolvimento econômico está ocasionando cada vez mais conflitos com a capacidade de o meio ambiente absorver” as demandas, disse o ministério numa declaração no mês passado. Ele acrescentou que a qualidade do ar se deteriorou pela primeira vez em cinco anos nos seis primeiros meses deste ano.
Durante as duas últimas décadas, o fornecimento de petróleo se tornou uma prioridade de segurança nacional. Em janeiro de 2009, a dependência da China do petróleo estrangeiro atingiu 50% pela primeira vez. Essa dependência só irá crescer – nem a China, nem a Índia nesse caso, têm reservas significativas de petróleo para explorar; seu crescimento econômico irá continuar e superar em muito a capacidade da produção doméstica de petróleo. Importar a maior parte de sua necessidade energética é agora um fato para as duas nações mais populosas do mundo.
Entre 2004 e 2009, a China respondeu por 40% do aumento total do consumo de petróleo, um fator-chave no aumento dos preços do petróleo visto durante o período. Beijing sabe que qualquer interrupção no fornecimento de petróleo deixará o país refém dos interesses estrangeiros, gerará um caos em sua indústria manufatureira e deixará milhões de pessoas desempregadas.
Assim, a China embarcou num esforço para aumentar seus estaleiros e frota mercante, e está aumentando o investimento estratégico em algumas áreas portuárias, principalmente no oceano Índico. Beijing quer que a China seja a maior construtora de navios até 2015, e que 40% de todas as importações de petróleo do país sejam feitas por navios chineses até essa data.
Há uma década só existia um estaleiro na China capaz de construir os grandes navios-tanque. Hoje, o país tem uma dúzia de estaleiros capazes de construir esses navios gigantescos.
No ano de 2000, a frota da China carregava apenas 6,7% das importações de óleo bruto do país; essa quantidade aumentou para 20% em 2005. O objetivo de 40% deve ser atingido em 2011, quatro anos antes do previsto, enquanto a maior parte das entregas de novos navios a cada duas semanas é feita para proprietários chineses. Mas a qualidade ainda é um problema – a mão de obra de baixa qualidade transforma muitos dos navios construídos na China em bombas-relógio ambientais.
A China também acelerou dramaticamente a construção de grandes terminais de petróleo acima de 200 mil toneladas de porte bruto. Em 2000, existiam apenas três grandes terminais de petróleo para o país inteiro. No final de 2009, a China havia construído 13 terminais de petróleo de 200 mil toneladas de porte bruto ou mais, com a capacidade de receber 282 milhões de toneladas de petróleo.
No período de uma década, a China construiu uma gama incrível de infraestrutura para gerir seu comércio marítimo de petróleo. Ninguém nunca montou uma frota de navios-tanque ou terminais dessa escala num período tão curto de tempo. Mas essa pressa traz problemas – como mostra o desastre de Dalian.
(Sam Chambers é coautor de “Petróleo na Água”, um estudo sobre como a China está mudando os padrões do comércio mundial de petróleo.)
Tradução: Eloise De Vylder
http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/herald/2010/08/22/enorme-necessidade-energetica-da-china-cria-cenario-propicio-a-desastres-ambientais.jhtm


DIÁRIO DE PEQUIM

O MAPA DA CULTURA

Uma nova China?
Arte, liberdade e censura
FABIANO MAISONNAVE
A pergunta tem um ar subversivo: "Vocês querem ir ao estúdio?". Convite aceito, sigo os irmãos Gao pelas escadas de um prédio de aspecto abandonado até chegar a uma ampla sala repleta de estátuas de Mao Tse-tung, todas com seios de fora e nariz digno de Pinóquio.
Na escultura mais forte da série "Miss Mao", o rosto do líder comunista estampa uma voluptuosa mulher dourada, deitada e de pernas abertas, em tamanho natural. Em sua vagina, desponta um dragão vermelho.
Ver a ridicularização do símbolo máximo de um regime responsável pelo massacre na praça da Paz Celestial, em 1989, cheira a clandestinidade, mas não é bem assim. Afinal, estamos no distrito 798, uma antiga fábrica que, com o aval oficial, se transformou, na última década, no centro da arte contemporânea chinesa.
Inicialmente um polo de artistas em busca de espaço para trabalhar, o 798 foi encampado pelo governo e hoje se tornou um popular destino turístico de Pequim, com vários espaços de arte, restaurantes e lojas. Segundo a administração do local, são 10 mil trabalhadores para atender 1 milhão de visitantes por ano, entre turistas e compradores estrangeiros, estudantes de arte e famílias chinesas tanto da capital quanto do interior do país.
Além do estúdio, restrito a convidados, os dois irmãos Gao mantêm uma galeria na rua principal do 798. Ali, a única "Miss Mao" tem 30 cm de altura e está coberta por uma camiseta branca. "Custa € 13.500 [R$ 30.500]", diz um deles, revelando pela moeda de onde vêm seus clientes. O mais polêmico ali é uma estátua do líder comunista segurando um rifle.
A poucos metros, do outro lado da rua, uma livraria de arquitetura modernosa vende a imagem de Mao em canecas, camisetas e pôsteres. Um exemplar do "Livro Vermelho" editado na época da Revolução Cultural custa R$ 30. A dona da livraia é Kong Dongmei, neta do "grande timoneiro".
"O 798 tem duas 'Miss Maos", brinca Gao Qiang, cujo pai, um operário, foi preso durante a Revolução Cultural Chinesa para reaparecer morto 25 dias depois -o governo alegou suicídio. Nenhum dos dois irmãos jamais conversou com a vizinha.
A aparente diversidade do 798 é celebrada por Taylor Lin, presidente da Associação de Arte e Investimento da Universidade de Pequim. "Os artistas têm diferentes opiniões sobre figuras como Mao, e no passado isso não era possível. É uma prova de que as coisas estão mudando", diz Lin, durante conversa num dos vários cafés do distrito.
Para ele, a "harmonia da contradição" do 798 tem uma função pedagógica. "As pessoas do interior vêm aqui, sentem esse ambiente especial e voltam às suas vilas. Isso traz mudança."
Os irmãos Gao discordam. "O governo quer criar uma ideia de que a China está mais aberta não só economicamente como também culturalmente, mas não é assim", diz Gao Zhen, 54.
Os irmãos, que sempre assinam juntos seus trabalhos, já tiveram vários problemas com a censura, como o fechamento de uma exposição por policiais e a apreensão de uma obra. Eles afirmam que um espaço a céu aberto foi fechado e que vários artistas não tiveram licença para abrir estúdios no 798 porque desagradam ao governo.
Esse jogo de xadrez com a censura, às vezes, leva ao paroxismo. Em outubro do ano passado, o "New York Times", tido como o jornal mais influente do mundo, publicou uma longa reportagem sobre os irmãos Gao.
O material incluía um vídeo que exibia a abertura de uma exposição. Enquanto as pessoas sorriam e conversavam com copos na mão, o narrador dizia, sem ironia: "Esta é uma inauguração de arte proibida na China".
Há oito anos atuando no 798, a curadora francesa Bérénice Angremy afirma que os irmãos Gao são um caso à parte. "Os artistas estão mais interessados em tópicos não controversos e em fazer dinheiro." Angremy critica o "ambiente de Disneylândia" tomado por galerias que só "jogam seguro". Os melhores artistas, diz, já deixaram o lugar. Como exemplo, ela mostra um catálogo com vários artistas do 798. "O que é subversivo aqui?", pergunta a curadora, enquanto folheia. "Nada."
Assim como os irmãos Gao, a francesa tampouco vê mais abertura na China. "As regras da censura são as mesmas e não mudarão. Mas, algumas vezes, o governo pode fazer vista grossa."

DEMOLIÇÃO À VISTA
Em 2000, o principal artista contemporâneo chinês, Ai Weiwei, desenhou e construiu a sua casa e montou a sua galeria em Caochangdi, à época um bairro quase nos limites de Pequim.
De louco ermitão, Ai virou pioneiro: descontentes com os aluguéis altos e com o burburinho do 798, muitas galerias começaram a se instalar na silenciosa vizinhança do artista. Hoje, são cerca de 30 espaços de arte ali, numa espécie de dissidência do distrito mais famoso da capital chinesa.
Agora, Ai Weiwei deve se mudar de novo, mas contra a sua vontade: em abril, o governo local notificou formalmente a todos os espaços de arte de que seus estabelecimentos serão demolidos. Até a semana passada, a data para o fim da região ainda não havia sido informada.

TERREMOTO NAS BILHETERIAS CHINESAS
Em três semanas de cartaz, o filme "Aftershock", de Feng Xiaogang, se tornou o maior sucesso de bilheteria da história da China, arrecadando US$ 79,4 milhões (R$ 139 milhões). Só na estreia, mais de 36,2 milhões de pessoas lotaram as salas de cinema para ver a história do terremoto que arrasou a cidade de Tangshan, matando 240 mil pessoas em 1976.
A superprodução incluiu uma impressionante (e desnecessária para o enredo) reprodução do funeral de Mao, morto no mesmo ano. Mais distante de uma escultura dos irmãos Gao, impossível.
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrissima/il2208201006.htm

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