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sábado, 21 de agosto de 2010

Os últimos acontecimentos na França e...o multiculturalismo



Multiculturalismo colocado na Berlinda
“Uma Gota de Sangue”, de Demétrio Magnoli, acusa o atual paradigma multiculturalista de promover divisão racial entre os homens
Durante as eleições americanas de 2008, Jesse Jackson, pastor batista e ativista político americano, criticou Barack Obama por não enfatizar suficientemente o tema da raça em seus discursos e, no intervalo de uma entrevista, imaginando que os microfones estavam desligados, confessou seu desejo de "capar" o então candidato democrata a presidência.

Essa é apenas uma das (curiosas) histórias que Demétrio Magnoli (foto abaixo), sociólogo e doutor em Geografia Humana (USP), utiliza em seu mais recente livro, "Uma Gota de Sangue - Uma História do Pensamento Racial" (Editora Contexto), para discutir os paradigmas e ideologias que envolvem o tema da raça no mundo contemporâneo. O nome do livro se deve a leis americanas de meados do século XX para determinar quem era negro ou não. Segundo essas leis, deveria ser considerado negro todo aquele que tivesse algum antepassado negro, ou seja, pela menos uma gota de sangue de origem negra.

A divisão da humanidade em raças é uma prática existente desde os séculos XVII e XVIII, com destaque para as análises craniométricas do médico alemão Johann Friedrich Blumenbach. No entanto, foi apenas no século XIX que o assunto “raça” ganhou realmente destaque, coincidindo, não fortuitamente, com a expansão colonial européia e com o avanço dos movimentos abolicionistas. Os primeiros a endossar teorias raciais foram os filósofos. É o caso do diplomata francês Arthur de Gobineau, com seu “Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas”, publicado entre 1853 e 1855. Para Gobineau, a humanidade estava dividida entre brancos, amarelos e negros, sendo que o progresso histórico dependeria das ações dos primeiros. Mas foram cientistas quem, de fato, deram consistência e chancela a tais teorias. Com o pensamento evolucionista, nasceu o “racismo científico”, que utilizava métodos fraudulentos para comprovar a supremacia de um homem sobre outro, de uma nação sobre outra, baseada muitas das vezes em medidas de crânios e cérebros humanos.

Magnoli lembra, porém, que há bastante tempo sabemos que não é correto falar em “raças” para classificar e ordenar os seres humanos. As diferenças entre negros e brancos, por exemplo, não passam de características físicas superficiais, representando uma fração ínfima do código genético humano. A cor da pele, que representa as teorias das raças, é uma mera adaptação evolutiva a diferentes níveis de radiação ultravioleta, expressa em menos de dez dos cerca de 25 mil genes do genoma humana. A população mundial é diversa, mestiça, fruto de milhares de anos de mobilidade. Um dos primeiros a contestar a fabricação das raças foi Franz Boas, ainda no início do século XX. Boas mostrou que as culturas humanas são dinâmicas, fluidas, abertas, em contínua reelaboração, e não presentes em códigos genéticos.

Multiculturalismo

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No entanto, o autor explica que, apesar do desmentido, a raça voltou a triunfar no século XX, como é o caso do nazismo e também do Apartheid Sul-Africano. E é neste ponto que se encontra o eixo central da tese do autor. Magnoli é um crítico ferrenho do “multiculturalismo”, paradigma ideológico famoso nos dias hoje, anunciado por organismos internacionais, empresas e bastante celebrado por diversas vertentes pedagógicas. O autor argumenta:

Do ponto de vista teórico, o multiculturalismo assenta-se sobre um primeiro pressuposto que não é dramaticamente distinto do artigo de fé do ‘racismo científico’. Esse pressuposto pode ser expresso como a noção de que a humanidade se divide em ‘famílias’ discretas e bem definidas, denominadas etnias. O ‘racismo científico’ fazia as suas ‘famílias’ – as ‘raças’ – derivarem da natureza. O multiculturalismo faz as etnias derivarem da cultura. O segundo pressuposto do multiculturalismo é que a cultura corresponde a um atributo essencial, imanente e ancestral de cada grupo étnico. Essa naturalização da cultura evidencia que o conceito de etnia, na narrativa multiculturalista, ocupa um nicho metodológico paralelo àquele do conceito de raça na narrativa do ‘racismo científico’.
Magnoli expõe o início do multiculturalismo, nos Estados Unidos, com a distorção das lutas dos direitos civis americanos, entre os anos 1950 e 1960, e a sua disseminação, via investimentos pesados da Fundação Ford, para diversos países, dentre os quais o Brasil, por meio de movimentos sociais que apóiam e reivindicam ações afirmativas, como a reserva de vagas para negros em universidades. Para o autor, o risco dessas políticas raciais é criar o mito de nações divididas em raças, países dentro de países, além de proporcionar ideologias que imaginam a cultura como algo hermético, produzindo identidades para consumo e colaborando para a cooptação política de lideranças nos mais diversos espaços.
Nos Estados Unidos, a denominação “afro-americano” é um exemplo da segregação criada pelo multiculturalismo. Tal termo dificulta imaginar os negros como simplesmente americanos, tal como qualquer branco. Afinal de contas, ninguém denomina um “branco americano” de “euro-americano”.

"Uma Gota de Sangue" é bastante coerente com o ativismo de Magnoli. Em maio de 2008, um grupo de intelectuais, sindicalistas, empresários e ativistas de movimentos negros entregaram ao presidente do Superior Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, o manifesto "113 Cidadãos Anti-Racistas Contra as Leis Raciais", que pede a suspensão das cotas para negros nas universidades e do programa ProUni. Magnoli foi um dos 113 que assinam a petição, ao lado de outros nomes importantes do cenário nacional, como Caetano Veloso, Ferreira Gullar, Gilberto Velho, João Ubaldo Ribeiro e Manolo Garcia Florentino.

No livro, Magnoli tem o espaço de que necessita para expor seus argumentos e desenvolver em detalhes um tema geralmente simplificado nos mais discursos sociais. Preciso e bem escrito, o livro impressiona até mesmo que discorde das posições do autor, o que demonstra a qualidade da obra, cujo valor é inestimável para aqueles que estudam ou pesquisa a "questão da raça".




por Bruno Leal


Do multiculturalismo à deportação(...) na capa a revista francesa Marianne de 7/8, sobre uma foto do presidente Nicolas Sarkozy. Dias antes, em Grenoble, Sarkozy pronunciara um discurso odiento: "A nacionalidade francesa deve poder ser retirada de todas as pessoas de origem estrangeira que deliberadamente atentaram contra a vida de um policial, de um militar ou de qualquer outro agente da autoridade pública. (...) Eu sustento ainda que a aquisição da nacionalidade francesa por um menor delinquente no momento da maioridade não seja mais automática."

A pretexto de combater a violência, Sarkozy pressiona pela introdução de uma fronteira de sangue entre os cidadãos. Os "franceses de casta" acusados de delitos contra as autoridades conservariam seus direitos nacionais. Os franceses "de origem estrangeira" - isto é, os cidadãos de outra "etnia" - perderiam tais direitos, sujeitando-se à deportação. A mudança não pressupõe que alguém seja acusado de um ato de delinquência. Antes disso todas as pessoas de origem estrangeira teriam sido rebaixadas a cidadãos de segunda classe, pois teriam apenas uma nacionalidade precária, condicional.
Grenoble representou a conclusão coerente de uma trajetória, não um raio no céu limpo. O ponto de partida foi o multiculturalismo. O ponto de chegada é a deportação. Se há um paradoxo nisso, ele é apenas aparente.
Há três anos Sarkozy criou um Ministério da Imigração e da Identidade Nacional. No nome há uma tese: a imigração constituiria ameaça à identidade nacional, definida segundo critérios étnicos. A tese condensa uma reação contra a história republicana francesa. Desde a Constituição de 1793 a cidadania é definida como um contrato entre iguais, que são os habitantes da França. No lugar disso, o "crápula da República" recupera o mito monarquista da "França de mil anos", portadora de uma essência étnica e religiosa.
A Frente Nacional de Jean-Marie Le Pen tenta restaurar o mito anacrônico pela celebração romântica do passado, que assoma na imagem de Joana D"Arc. Sarkozy almeja um fim idêntico, mas pelo recurso ao multiculturalismo contemporâneo. Em 2008 o "crápula da República" encomendou um plano de ação em favor da "diversidade" e da "igualdade" entre as etnias. Tudo começaria com a reformulação do censo e a produção de estatísticas étnicas da população. Na França, em nome do contrato republicano da igualdade, os censos não indagam sobre origem ou religião. Mas o projeto multiculturalista não pode viver sem isso, pois precisa colar rótulos étnicos em cada pessoa. Evidentemente, tais rótulos também são indispensáveis para identificar cidadãos de segunda classe e promover a deportação dos "indesejáveis".
Tanto quanto no Brasil, o governo francês ganhou aplausos entusiasmados da rede de ONGs sustentadas pela Fundação Ford para a política de classificação racial dos cidadãos. Contudo uma onda de resistência partiu de defensores de direitos humanos e de movimentos antirracistas. A escritora Caroline Fourest observou que "as estatísticas étnicas reforçarão o racismo". Samuel Thomas, da organização SOS Racismo, conectou o discurso multiculturalista aos "nostálgicos da época colonial". A feminista Fadela Amara qualificou as "estatísticas étnicas, a discriminação positiva, as cotas" como "uma caricatura". E foi ao ponto: "Nossa república não deve tornar-se um mosaico de comunidades. Nenhuma pessoa deve, uma vez mais, portar a estrela amarela."
O "mosaico de comunidades" é o ideal do multiculturalismo. Na França, o recurso à "estrela amarela" propiciaria o delineamento de uma "nação gaulesa" circundada por uma miríade de "etnias minoritárias". No Brasil, propicia a fabricação de um Estado binacional composto por uma "nação branca" (ou "eurodescedente") e uma "nação negra" (ou "afrodescendente"). Lá as minorias ganham a pecha de "estrangeiros"; aqui todos seriam "estrangeiros" numa terra de exílio. Há mais uma diferença. A esquerda francesa, que acredita na democracia, rejeita a rotulagem étnica. A esquerda brasileira, que cultua tiranias, alinha-se quase inteira aos arautos da política de raças.
Todos devem portar a estrela amarela - eis o programa do multiculturalismo. Também é a plataforma de Charles Wilson, líder de um partido neonazista americano que almeja enviar os negros e latinos "de volta a seus países". Ele emprega uma linguagem paralela à dos nossos racialistas e reivindica o que enxerga como seus direitos raciais: "Eu tenho orgulho de ser branco. Estou falando de minha herança, e consideram isso um crime de ódio. Podemos dizer poder negro, poder latino, mas se você disser poder branco cai todo mundo em cima."
Nos idos de 2006, o chefe da Frente Nacional reclamou do "excesso de negros" na seleção francesa de futebol. O zagueiro Thuram, nascido em Guadalupe, replicou oferecendo-lhe uma aula de História: "Não sou negro, sou francês. Le Pen deveria saber que, assim como existem negros franceses, existem loiros e morenos. Viva a França! Mas não a França que Le Pen quer, e sim a França verdadeira." É a "França verdadeira" que está em perigo quando o "crápula da República" tenta dividi-la segundo linhas oficiais de cor.
"Como os militantes antirracistas poderiam apoiar o estabelecimento de categorias etnorraciais?", pergunta, indignado, Samuel Thomas. Eis uma boa questão para os racialistas brasileiros, que se travestem como militantes antirracistas.
Nota. Em carta publicada em 11/8, referente a meu artigo Falanges da moralidade (Aliás, 8/8), Oded Grajew afirma que seu Instituto Ethos não se beneficia de recursos públicos. Não é verdade. Além da isenção de Imposto de Renda e das parcerias com o governo federal, o Ethos recebeu recursos diretos do BID. No Balanço Patrimonial de 2007, o último disponível no site do instituto, está registrado o valor de R$ 488.559,30.
SOCIÓLOGO E DOUTOR EM GEOGRAFIA HUMANA PELA USP. E-MAIL: DEMETRIO.MAGNOLI@TERRA.COM.BR 

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Veja aqui tb


http://pt.wikipedia.org/wiki/Multiculturalismo




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O avião mal tocou a pista do aeroporto de Bucareste, na quinta-feira, e muitas das famílias ciganas, deportadas da França por permanecerem além do prazo de seu visto, já planejavam voltar.

“É claro que estamos pensando em voltar”, disse Ionut Balasz, 26 anos, aos jornalistas ao chegar ao aeroporto. “A vida é melhor do que na Romênia, mesmo quando você é ilegal.”

A vida melhor de Balasz era em um acampamento improvisado nos limites de Grenoble, uma das cerca de 300 favelas ilegais que Nicolas Sarkozy, o presidente da França, prometeu remover.

A política provocou protestos internacionais, com organizações de direitos humanos acusando a França de expulsar um único grupo étnico, um ato ilegal segundo a lei da União Europeia, mas fortemente negado pelas autoridades.

A decisão também colocou em dúvida o compromisso da Europa com milhões de seus cidadãos e sua promessa de permitir a livre circulação por suas fronteiras.

A maioria dos ciganos visada pela França vem da Romênia e da Bulgária, alguns dos mais novos países membros da UE. E eles estão entre os cidadãos mais vulneráveis da Europa, com uma expectativa de vida média que equivale à metade da média da UE, e taxas de mortalidade infantil e analfabetismo muito maiores.

Mas nenhum desses novos cidadãos europeus tem o direito automático de trabalhar na França e, sem meios de se sustentarem, não podem permanecer mais do que três meses. O mesmo vale para 10 outros países europeus, que, apesar dos pedidos da Comissão Europeia, continuam restringindo o acesso ao seu mercado de trabalho para cidadãos da Romênia e da Bulgária.

“É permitido à França restringir o acesso ao seu mercado de trabalho segundo a lei da UE (...) mas é um tanto hipócrita a queixa sobre as pessoas não terem dinheiro para subsistência na França, quando ela não oferece acesso ao mercado de trabalho”, disse Rob Kushen, diretor administrativo do Centro para os Direitos dos Ciganos Europeus, em Budapeste.

Todavia, os países ocidentais da Europa como França, Alemanha, Espanha, Itália e Grécia ainda assim prometem uma vida melhor para muitos que enfrentam exclusão, discriminação e às vezes até pior em casa.

Na Romênia, lar da maior população de ciganos da Europa, com algumas estimativas colocando o número em até 2,5 milhões dentre uma população de 22 milhões, os ciganos há muito são marginalizados. Com acesso limitado à educação, aos serviços públicos e à Justiça, os ciganos permanecem estigmatizados, um padrão que se repete por toda a Europa.

A discriminação em casa forçou muitos a caírem na estrada à procura de trabalho, e a queda do comunismo há 20 anos e o ingresso na UE abriram as portas para uma onda de emigração, que especialistas dizem que provavelmente aumentará.

Mas as restrições ao trabalho na maioria dos países –com exceções notáveis como Espanha e Finlândia– fazem com que muitos sejam forçados a recorrer ao mercado negro, e alguns à criminalidade, assim que chegam. Isso transforma os ciganos em alvo fácil para os políticos que buscam distrair a atenção dos problemas domésticos, ao explorarem os temores em relação à segurança.

Na Itália, que conta com cerca de 60 mil ciganos não-italianos entre sua população, o governo até mesmo declarou uma “emergência nacional de ciganos” em 2008, levando a expulsões em massa como parte de um pacote de segurança, elementos considerados incompatíveis com a lei da UE.

Mas, segundo Olivier Legros, do grupo de pesquisa de ciganos europeus, UrbaRom, há evidências de alguns países do Leste Europeu que sugerem que as taxas de criminalidade não são maiores do que entre a população em geral.

A Comissão Europeia, por sua vez, parece ter reconhecido que suas tentativas para resolver a situação difícil dos ciganos fracassaram e que suas políticas necessitam de reforma. Todavia, as autoridades apontam que cerca de 17,5 bilhões de euros foram disponibilizados para projetos para ajudar os “ciganos e outros grupos vulneráveis” desde 2003. Como eles sugerem, o problema é simplesmente que os países membros não estão usando o dinheiro para essa população vulnerável.

“Nós achamos que mais pode ser feito nos países membros para ajudar os ciganos”, disse uma autoridade para o “Financial Times”.

Mas há pouca evidência de que exista vontade política. Nesta semana, os países membros devolveram a bola para a quadra da Europa, com tanto a França quanto a Romênia pedindo para uma solução para toda a UE.

Enquanto isso, outros 136 ciganos ilegais estavam voltando da França para casa na sexta-feira e, provavelmente, planejando retornar antes mesmo do avião pousar.

Guilia Segreti, em Roma (Itália), e Stanley Pignal, em Bruxelas (Bélgica), contribuíram com reportagem adicional.
Tradução: George El Khouri Andolfato

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