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sexta-feira, 20 de agosto de 2010

O Príncipe

 Prefácio de Fernando Henrique Cardoso 
Um livro mais do que oportuno

Ao longo de cinco séculos, o trabalho mais conhecido de Nicolau Maquiavel (1469-1527) deixou de ser apenas uma leitura de interesse político, para se transformar também em literatura obrigatória no currículo de historiadores, economistas, sociólogos, advogados e executivos. Suas observações sobre moralidade e ética permanecem espantosamente atuais.
SOBRE "O PRÍNCIPE"

Àqueles que chegam desavisados ao texto límpido e elegante de Nicolau Maquiavel pode parecer que o autor escreveu, na Florença do século XVI, um manual abstrato para a conduta de um mandatário. Entretanto, esta obra clássica da filosofia moderna, fundadora da ciência política, é fruto da época em que foi concebida.

Em 1513, depois da dissolução do governo republicano de Florença e do retorno da família Médici ao poder, Maquiavel é preso, acusado de conspiração. Perdoado pelo papa Leão X, ele se exila e passa a escrever suas grandes obras. O príncipe, publicado postumamente, em 1532, é uma esplêndida meditação sobre a conduta do governante e sobre o funcionamento do Estado, produzida num momento da história ocidental em que
o direito ao poder já não depende apenas da hereditariedade e dos laços de sangue. Mais que um tratado sobre as condições concretas do jogo político, O príncipe é um estudo sobre as oportunidades oferecidas pela fortuna, sobre as virtudes e os vícios intrínsecos ao comportamento dos governantes, com sugestões sobre moralidade, ética e organização urbana que, apesar da inspiração histórica, permanecem espantosamente atuais.
SOBRE O AUTOR

Nicolau Maquiavel
Nasceu em Florença em 1469 numa antiga família cidadã. Pouco se sabe de sua vida até 1498, quando ele foi nomeado secretário e segundo chanceler da República Florentina. Durante sua permanência no cargo, viajou em missão à corte de Luís XII e à do imperador Maximiliano; esteve com César Bórgia na Romanha e, tendo observado a eleição papal de 1503, acompanhou Júlio II em sua primeira campanha de conquista. Em 1507, na qualidade de chanceler dos recém-nomeados Nove di Milizia, organizou uma força de infantaria que participou da captura de Pisa em 1509. Três anos mais tarde, ela foi derrotada pela Liga Santa em Prato, os Médici retornaram a Florença, e Maquiavel viu-se excluído da vida pública. Depois de sofrer prisão e tortura, recolheu-se em sua propriedade rural nas imediações de San Casciano, onde, em companhia da esposa e dos seis filhos, se dedicou a estudar e escrever. Entre suas obras figuram O príncipeDiscursos sobre a primeira década de Tito LívioA arte da guerra e a comédia A mandrágora, uma sátira sobre a sedução. Em 1520, o cardeal Giulio de Médici encomendou-lhe uma história de Florença, que ele concluiu em 1525. Após um breve retorno à vida pública, Maquiavel faleceu em 1527.

Prefácio de Fernando Henrique Cardoso

 

Fernando Henrique Cardoso
Nasceu no Rio de Janeiro, em 1931. Sociólogo formado pela Universidade de São Paulo (USP), a partir da década de 1960 destacou-se como um dos mais importantes intelectuais latino-americanos em temas como a democracia, os processos de mudança social, desenvolvimento e dependência. Foi professor catedrático de Ciência Política e hoje é professor emérito da USP. Ensinou também nas universidades de Santiago, da Califórnia em Stanford e em Berkeley, de Cambridge (Inglaterra), de Paris-Nanterre, na École des Hautes Études en Sciences Sociales e no Collège de France. Como político e intelectual, teve participação ativa na luta pela redemocratização do Brasil. Senador pelo estado de São Paulo, foi membro fundador do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) em 1988. Entre 1992 e 1994, foi ministro das Relações Exteriores e ministro da Fazenda, na presidência de Itamar Franco. Foi presidente do Brasil por dois mandatos consecutivos, entre 1995 e 2002. É presidente do Instituto Fernando Henrique Cardoso (IFHC) e presidente de honra do Diretório Nacional do PSDB.

 

ARTIGO NA FOLHA DE S.PAULO - 11 de agosto de 2010
 
 
 Ao falar de "O Príncipe", FHC cita exemplos de seu governoPara ele, Maquiavel rompeu com padrões morais da política

BRENO COSTA

DE SÃO PAULO 
Não é todo dia que um ex-presidente da República sobe a um púlpito e diz a intelectuais, escritores e jornalistas que a preocupação central de um governante tem que ser a manutenção do poder e que, para isso, é preciso ser mau e dissimulado em alguns momentos.
O ex-presidente em questão é o sociólogo Fernando Henrique Cardoso. As pílulas de realismo político, no entanto, foram produzidas no século 16, por Maquiavel.
Anteontem, em palestra no Teatro Cultura Artística, FHC foi apenas o intérprete do italiano, como deixou claro ao dizer que "quem diz isso é o Maquiavel, não eu".
O ex-presidente assina o prefácio de 12 páginas à reedição de "O Príncipe", clássico da ciência política, agora com tradução de Maurício Santana Dias. O lançamento é um dos primeiros frutos da parceria entre a Companhia das Letras e da Penguin para a reedição de clássicos.
Ainda que seja pensamento de Maquiavel, e que FHC, quando no poder, jamais tenha se inspirado ou escorado nos escritos do italiano, ouvir um ex-presidente falar sobre um clássico da política dá mais relevo a uma obra escarafunchada há séculos.
Para FHC, o grande legado de "O Príncipe" foi ter rompido com "cânones" de como se encarar a política, baseados até então na moral.
"O que move as pessoas não é o bem-estar, a felicidade, a consideração pelos demais. O homem é em si mesmo uma coisa má. Ele é invejoso, tem cobiça, é violento, quer o monopólio do poder", traduz o ex-presidente.

COMPARAÇÃO
Dadas essas premissas, a principal qualidade de um governante no poder é "ter a capacidade de mantê-lo". FHC, que fez passar no Congresso a emenda da reeleição, em 1997, já afasta logo tentativas de comparações.
"Não há referência ao caso nem meu nem do Lula, é evidente", disse. Depois, disse que seu caso era diferente, porque foi reeleito "pelo povo, democraticamente".
A dissimulação, na ótica de Maquiavel, reproduzida por FHC, também faz parte da realidade política de um mandatário. Nesse ponto, FHC cita exemplo próprio, mas arma o escudo da defesa, colocando a dissimulação mais próxima ao espectro da omissão que da mentira.
"Alguém te pergunta: vai haver desvalorização do câmbio amanhã? Não pode dizer. No dia seguinte, você desvaloriza. Você vai atuar como? Vai falar sempre a verdade?", questiona-se FHC.

 

Tradução de Maurício Santana Dias
 

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