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segunda-feira, 2 de agosto de 2010

A liberdade como problema. Marilena Chauí e outros

Escreva uma dissertação na qual você discuta a liberdade humana.Afinal, somos livres? A liberdade é um grande sonho?
Capítulo 6, Livro da Marilena Chaui -A liberdade
A liberdade como problema
A torneira seca (mas pior: a falta de sede) A luz apagada (mas pior: o gosto do escuro) A porta fechada (mas pior: a chave por dentro).
Este poema de José Paulo Paes nos fala, de forma extremamente concentrada e precisa, do núcleo da liberdade e de sua ausência. O poeta lança um contraponto entre uma situação externa experimentada como um dado ou como um fato (a torneira seca, a luz apagada, a porta fechada) e a inércia resignada no interior do sujeito (a falta de sede, o gosto do escuro, a chave por dentro). O contraponto é feito pela expressão “mas pior”. Que significa ela? Que diante da adversidade, renunciamos a enfrentá-la, fazemo-nos cúmplices dela e é isso o pior. Pior é a renúncia à liberdade. Secura, escuridão e prisão deixam de estar fora de nós, para se tornarem nós mesmos, com nossa falta de sede, nosso gosto do escuro e nossa falta de vontade de girar a chave.
Um outro poema também oferece o contraponto entre nós e o mundo:
Mundo mundo vasto mundo, Se eu me chamasse Raimundo Seria uma rima, não seria uma solução. Mundo mundo vasto mundo, Mais vasto é meu coração.
Neste poema, Carlos Drummond de Andrade, como José Paulo Paes, confronta-nos com a realidade exterior: o “vasto mundo” do qual somos uma pequena parcela e no qual estamos mergulhados. Todavia, os dois poemas diferem, pois em vez da inércia resignada, estamos agora diante da afirmação de que nosso ser é mais vasto do que o mundo: pelo nosso coração – sentimentos e imaginação somos maiores do que o mundo, criamos outros mundos possíveis, inventamos outra realidade. Abrimos a torneira, acendemos a luz e giramos a chave. Embora diferentes, os dois poemas apontam para o grande tema da ética, desde que esta se tornou questão filosófica: O que está e o que não está em nosso poder? Até onde de estende o poder de nossa vontade, de nosso desejo, de nossa consciência? Em outras palavras: Até onde alcança o poder de nossa liberdade? Podemos mais do que o mundo ou este pode mais do que nossa liberdade? O que está inteiramente em nosso poder e o que depende inteiramente de causas e
forças exteriores que agem sobre nós? Por que o pior é a falta de sede e não a torneira seca, o gosto do escuro e não a luz apagada, a chave imobilizada e não a porta fechada? O que depende do “vasto mundo” e o que depende de nosso “mais vasto coração ”?
Essa mesma interrogação, embora não explicitada nesses termos, encontra-se presente no que escreveu o poeta Vicente de Carvalho em “Velho tema”:
Só a leve esperança, em toda a vida, Disfarça a pena de viver, mais nada, Nem é mais a existência, resumida, Que uma grande esperança malograda. O eterno sonho da alma desterrada, Sonho que a traz ansiosa e embevecida, É uma hora feliz, sempre adiada E que não chega nunca em toda a vida. Essa felicidade que supomos, Árvore milagrosa que sonhamos Toda arreada de dourados pomos Existe, sim: mas nós não a alcançamos, Porque está sempre apenas onde a pomos E nunca a pomos onde nós estamos.
O poeta contrasta a “esperança malograda” de felicidade e a felicidade que “existe, sim”, mas que não alcançamos porque “nunca a pomos onde nós estamos”, embora esteja “sempre apenas onde a pomos”. Nossa alma fica desterrada no sonho, exilada do real, porque incapaz de reconhecer que a felicidade não é uma árvore distante, situada em algum lugar não localizável do
vasto mundo, mas está em nós, em nossa “leve esperança”, em nosso mais vasto coração, dependendo apenas de nós mesmos, “porque está sempre apenas onde a pomos”.
Porta fechada, vasto mundo, árvore milagrosa: a felicidade parece depender inteiramente do que se encontra fora de nós.
Chave por dentro, coração mais vasto, estar sempre apenas onde a pomos: a felicidade parece depender inteiramente de nós. Seja de modo pessimista (como em José Paulo Paes e Vicente de Carvalho), seja de modo otimista (como em Carlos Drummond), os três poetas nos colocam diante da liberdade como problema. Filosoficamente, este se apresenta sob a forma de dois pares de opostos:
1. o par necessidade-liberdade;
2. o par contingência-liberdade.
Torneira seca, luz apagada, porta fechada: a realidade é feita de situações adversas e opressoras, contra as quais nada podemos, pois são necessárias. Vasto mundo: se a realidade natural e cultural possui leis causais necessárias e normas, regras obrigatórias, se tanto as leis naturais como as leis culturais não dependem de nós, se sermos seres naturais e culturais não depende de nós, se somos seres naturais e culturais cuja consciência e vontade são determinadas por aquelas leis (da Natureza) e normas-regras (da Cultura), como então falar em liberdade humana? A necessidade que rege as leis naturais e as normas-regras culturais não seria mais vasta, maior e mais poderosa do que nossa liberdade? O que poderia estar em nosso poder? Árvore milagrosa: se a felicidade e o bem são milagres, então são puro acaso, pura contingência e não resta senão o jogo interminável entre a “leve esperança”
e a “grande esperança malograda”. Se o mundo é um tecido de acasos felizes e infelizes, como esperar que sejamos sujeitos livres, se tudo o que acontece é imprevisível, fruto da boa e da má sorte, de acontecimentos sem causa e sem explicação? Como sermos sujeitos responsáveis num mundo feito de acidentes e de total indeterminação? Se tudo é contingência, onde colocar a liberdade?
O par necessidade-liberdade também pode ser formulado em termos religiosos, como fatalidade-liberdade, e em termos científicos, como determinismo-liberdade. Necessidade é o termo empregado para referir-se ao todo da realidade, existente em si e por si, que age sem nós e nos insere em sua rede de causas e efeitos, condições e consequências. Fatalidade é o termo usado quando pensamos em forças transcendentes às nossas e que nos governam, quer o queiramos ou não. Determinismo é o termo empregado, a partir do século XIX, para referir-se à
realidade conhecida e controlada pela ciência e, no caso da ética, particularmente ao ser humano como objeto das ciências naturais (química e biologia) e das ciências humanas (sociologia e psicologia), portanto, como completamente determinado pelas leis e causas que condicionam seus pensamentos, sentimentos e ações, tornando a liberdade ilusória.
O par contingência-liberdade também pode ser formulado pela oposição acaso-liberdade.
Contingência ou acaso significam que a realidade é imprevisível e mutável, impossibilitando deliberação e decisão racionais, definidoras da liberdade. Num mundo onde tudo acontece por acidente, somos como um frágil barquinho perdido num mar tempestuoso, levado em todas as direções, ao sabor das vagas e dos ventos.
Necessidade, fatalidade, determinismo significam que não há lugar para a liberdade, porque o curso das coisas e de nossas vidas já está fixado, sem que nele possamos intervir. Contingência e acaso significam que não há lugar para a liberdade, porque não há curso algum das coisas e de nossas vidas sobre o qual pudéssemos intervir.
Tomemos um exemplo da necessidade oposta à liberdade:
Não escolhi nascer numa determinada época, num determinado país, numa determinada família, com um corpo determinado. As condições de meu nascimento e de minha vida fazem de mim aquilo que sou e minhas ações, meus desejos, meus sentimentos, minhas intenções, minhas condutas resultam dessas condições, nada restando a mim senão obedecê-las. Como dizer que sou livre e responsável?
Se, por exemplo, nasci negra, mulher, numa família pobre, numa sociedade racista, machista e classista, que me discrimina racial, sexual e socialmente, que me impede o acesso à escola e a um trabalho bem remunerado, que me proíbe a entrada em certos lugares, que me interdita amar quem não for da mesma “raça” e classe social, como dizer que sou livre para viver, sentir, pensar e agir de uma maneira que não escolhi, mas foi-me imposta?
Tomemos, agora, um exemplo da contingência oposta à liberdade.
Quando minha mãe estava grávida de mim, houve um acidente sanitário, provocando uma epidemia. Minha mãe adoeceu. Nasci com problemas de visão. Foi por acaso que a gravidez de minha mãe coincidiu com o acaso da epidemia: por acaso, ela adoeceu; por acaso, nasci com distúrbios visuais. Tendo tais distúrbios, preciso de cuidados médicos especiais. No entanto, na época em que nasci, o governo de meu país instituiu um plano econômico de redução de empregos e privatização do serviço público de saúde. Meu pai e minha mãe ficaram desempregados e não podiam contar com o serviço de saúde para meu tratamento. Tivesse eu nascido em outra ocasião, talvez pudesse ter sido curada de meus problemas visuais.
Quis o acaso que eu nascesse numa época funesta. Tal como sou, há coisas que não posso fazer. Sou, porém, bem dotada para música e poderia receber uma educação musical. Porém, houve a decisão do governo municipal de minha cidade de demolir o conservatório musical público. Não posso pagar um conservatório particular e ficarei sem a educação musical, porque, por acaso, moro numa cidade que deixará de ter um serviço público de educação artística.
Morasse eu em outra cidade ou fosse outro o governo municipal, isso não aconteceria comigo. Como, então, dizer que sou livre para decidir e escolher, se vivo num mundo onde tudo acontece por acaso? Diante da necessidade e da contingência, como afirmar que “mais vasto é meu coração”? – ou que a felicidade “está sempre onde a pomos”? Examinemos mais de perto os dois exemplos mencionados.
No primeiro exemplo – negra, mulher, pobre, numa sociedade racista, machista, classista – parece que nada posso fazer. A porta está fechada e a luz apagada. Porém, nada estará no poder de minha liberdade? Terei que gostar do escuro e permanecer com a porta fechada? Se a ética afirmar que a discriminação étnica, sexual e de classe é imoral (isto é, violenta), se eu tiver consciência disso, nada farei? Serei impotente para lutar livremente contra tal situação? Mantendo-me resignada, conformada, passiva e omissa não estarei fazendo da necessidade uma
desculpa, um álibi para não agir? No segundo exemplo – epidemia, desemprego, fim dos serviços públicos de saúde e educação artística – também parece que nada posso fazer. Será verdade?
Não estarei transformando os acasos de meu nascimento e das condições políticas em desculpa e álibi para minha resignação? Falarei em “destino” e “má sorte” para explicar o fechamento de todos os possíveis para fim? Renunciarei à vastidão do meu coração, aceitando que a felicidade sempre será posta onde não estou?
Nos dois casos, podemos indagar se, afinal, para nós resta somente “a pena de viver, mais nada” ou se, como escreveu o filósofo Sartre, o que importa não é saber o que fizeram de nós e sim o que fazemos com o que quiseram fazer conosco.

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Mais um texto ( muito bom)

"...Liberdade, essa palavra
que o sonho humano alimenta
que não há ninguém que explique
e ninguém que não entenda..."
Cecília Meireles
(Romanceiro da Inconfidência)
Os limites da liberdade

"Quando se diz que a liberdade de um acaba quando começa a liberdade do outro, o que se procura no fundo é evitar o questionamento do que deva ser a liberdade. A posição limita-se a considerar o seu exercício, sem maiores especulações sobre o que efetivamente possa ser considerado como liberdade. Nessas condições, admite-se como direito de liberdade de um indivíduo ele realizar tudo quanto queira desde que suas ações não venham a interferir na vida do outro. O que não se admite são os choques, os conflitos. Deste modo, teria eu o direito de fazer tudo quanto quisesse desde que não perturbasse a vida de outra pessoa. Sim, o sentido parece claramente ser esse. Mas, será isto aceitável? Primeiro, é possível todas as pessoas agirem de tal modo que cada um faça o que quer desde que não afete a vida do outro? Admitamos, teoricamente, que isto seja possível. Quais seriam as consequências? Ousamos dizer que as consequências estariam em que toda a vida humana seria perturbada. Como pretender não afetar a vida do outro se naturalmente nossas vidas são afetadas umas pelas outras? Depois, não basta (...) admitir a liberdade de um em separado da liberdade do outro, uma vez que faz parte legítima da liberdade de cada um esperar do outro aquilo que lhe é devido, ou seja, não é possível escamotear¹ o fato de que uns têm para com os outros deveres recíprocos.

(...)

O homem é de fato um animal social. Desta forma, não podemos esperar que realize o plano de sua liberdade a não ser dentro de um contexto social. A sua liberdade é na verdade uma co-liberdade. Ele constrói a sua liberdade em espírito de comunidade, dentro de um sentido de co-participação."

MENDONÇA, Eduardo Prado de. A construção da liberdade. São Paulo: Convívio, 1977. p.21 e 78.

O tempo de aprendizado da liberdade

"O erro pior é pretender que a juventude é, por excelência, a idade da liberdade, e que é preciso respeitar essa liberdade nas suas várias expressões, inclusive quando assume o estilo da revolta. A liberdade é uma das maiores reivindicações da adolescência, mas a liberdade que ela reivindica é uma sombra da liberdade autêntica, tanto quanto a espontaneidade criadora que se imagina descobrir na criança não passa de uma sombra e o simulacro¹ de um verdadeiro poder criador. A liberdade adolescente é uma adolescência da liberdade, uma liberdade de aspiração, uma aspiração à liberdade sem conteúdo preciso, na onda das paixões e na confusão dos sentimentos e das ideias."

GUSDORF, Georges. Impasses e progressos da liberdade. São Paulo: Convívio, 1979. p.106.

A nossa liberdade

"A liberdade é fundamental para todas as pessoas. Por sua causa já houve lutas, guerras e mortes, porque todos precisam de liberdade e às vezes surgem homens que não querem que os outros sejam livres.

Mas o que é a liberdade? Como é que se pode saber se uma pessoa tem liberdade? Ter liberdade é poder fazer as coisas que a gente acha boas e agradáveis. Ter liberdade é poder ficar junto das pessoas de quem a gente gosta. Ter liberdade é poder brincar, estudar, trabalhar, fazendo aquilo que nos deixa felizes. Ter liberdade é poder ir a todos os lugares que a gente acha bonitos, ou onde existam coisas que a gente quer ver ou fazer. Ter liberdade é poder falar, cantar, sorrir, amar, sonhar, sem ter medo de sofrer um castigo.

Todos nós queremos ser livres e achamos importante a nossa liberdade. E a liberdade dos outros? Não é justo pensar somente em nós, pois todas as pessoas precisam de liberdade. É preciso verificar se o que nós queremos fazer não vai prejudicar alguém. Mas também precisamos ver se existe alguém que deseja muito alguma coisa, ou que precisa fazer alguma coisa para ser feliz e que não pode fazer isso porque é pobre ou porque uma pessoa má está proibindo.

O mundo está cheio de gente que não pode escolher o lugar onde viver com a família, que não pode ter suas terras e sua casa e que não pode escolher seu trabalho. Existem milhões de crianças que não podem ir à escola, que se alimentam muito mal e às vezes até passam fome. Muita gente passa a vida inteira fazendo só o que os outros querem, sem poder fazer nada do que gostaria. Todas essas pessoas não são livres e por isso não são alegres nem são felizes. Isso não é justo e nós devemos sempre ajudar as outras pessoas a conseguirem sua libertação.

Às vezes existem pessoas que tiram a nossa liberdade, que nos obrigam a fazer só o que elas querem e dizem que fazem isso para nos proteger e nos ajudar. Nós não devemos concordar com isso, porque quando tiram a nossa liberdade tudo fica triste, as pessoas vivem contrariadas e infelizes. Quando alguém quiser nos obrigar a aceitar uma ordem, nós devemos querer saber o motivo e devemos dar sempre nossa opinião. Desse modo nós podemos obedecer sem perder a liberdade.

A liberdade é muito importante para todas as pessoas, pois quem não a tem não pode ser feliz.

Se todas as pessoas defenderem a liberdade ela nunca vai acabar, as pessoas que hoje são tristes vão ficar alegres quando forem livres. E o mundo será muito melhor para todos."

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A Ilusão do Livre-arbítrio


A ilusão do livre-arbítrio foi um obstáculo no caminho do pensamento humano durante milhares de anos. Vejamos se o senso comum e o conhecimento não o podem remover.
O livre-arbítrio é um assunto de grande importância para nós neste caso e devemos tratá-lo com os olhos bem abertos e com a inteligência bem desperta; não porque seja muito difícil, mas porque tem sido atado e torcido num emaranhado de nós górdios durante vinte séculos cheios de filósofos palavrosos e mal sucedidos.
O partido do livre-arbítrio clama que o homem é responsável pelos seus actos, porque a sua vontade é livre de escolher entre o certo e o errado.
Respondemos que a vontade não é livre e que se fosse, o homem não poderia conhecer o certo e o errado enquanto não fosse ensinado.
O partido do livre-arbítrio afirmará que, no que respeita ao conhecimento do bem e do mal, a consciência é um guia seguro. Mas eu já provei que a consciência não nos diz e não nos pode dizer o que está certo e o que está errado; apenas nos recorda das lições que aprendemos acerca do certo e errado.
A "suave voz baixa" não é a voz de Deus: é a voz da hereditariedade e do meio.
E agora para a liberdade da vontade.
Quando um homem diz que a sua vontade é livre, ele quer dizer que é livre de todo o controlo ou interferência; que pode dominar a hereditariedade e o meio.
Respondemos que a vontade é governada pela hereditariedade e pelo meio.
A causa de toda a confusão neste assunto pode ser mostrada em poucas palavras.
Quando o partido do livre-arbítrio diz que o homem tem livre-arbítrio, eles querem dizer que ele é livre de agir como escolhe agir.
Não há necessidade de o negar. Mas o que o faz escolher?
Este é o eixo em torno do qual toda a discussão gira.
O partido do livre-arbítrio parece pensar na vontade como algo independente do homem, como algo fora dele. Eles parecem pensar que a vontade decide sem o controlo da razão humana.
Se fosse assim, não provaria que o homem é responsável. "A vontade" seria responsável e não o homem. Seria tão ridículo censurar um homem pelo acto de uma vontade "livre" como censurar um cavalo pela acção do seu cavaleiro.
Mas vou provar aos meus leitores, apelando ao seu senso comum e ao seu conhecimento comum, que a vontade não é livre; e que é governada pelo hereditariedade e pelo meio.
Para começar, o homem comum estará contra mim. Ele sabe que escolhe entre dois percursos a toda a hora, e frequentemente a todo o minuto, e pensa que a sua escolha é livre. Mas isso é uma de e o seu meio o fazem escolher. Ele nunca escolhe e nunca escolherá a não ser como a sua hereditariedade e o seu meio ― o seu temperamento e a sua formação ― o fazem escolher. E a sua hereditariedade e o seu meio fixaram a sua escolha antes de ele a fazer.
O homem comum diz "Sei que posso agir como desejo agir." Mas o que o faz desejar?
O partido do livre-arbítrio diz "Nós sabemos que um homem pode e efectivamente escolhe entre dois actos." Mas o que decide a escolha?
Há uma causa para todo o desejo, uma causa para toda a escolha; e toda a causa de todo o desejo e escolha tem origem na hereditariedade ou no meio.
Pois um homem age sempre devido ao temperamento, que é hereditariedade, ou devido à formação, que é meio.
E nos casos em que um homem hesita ao escolher entre dois actos, a hesitação é devida a um conflito entre o seu temperamento e a sua formação ou, como alguns o exprimem, "entre o seu desejo e a sua consciência."
Um homem está a praticar tiro ao alvo com uma arma quando um coelho se atravessa na sua linha de fogo. O homem tem os olhos postos no coelho e o dedo no gatilho. A vontade humana é livre. Se ele carregar no gatilho, o coelho é morto.
Ora, como é que o homem decide se dispara ou não? Ele decide por intermédio do sentimento e da razão.
Ele gostaria de disparar apenas para ter a certeza de que é capaz de acertar. Ele gostaria de disparar porque gostaria de ter coelho para o jantar. Ele gostaria de disparar porque existe nele o antiquíssimo instinto caçador de matar.
Mas o coelho não lhe pertence. Ele não tem a certeza de que não se mete em sarilhos se o matar. Talvez ― se ele for um tipo de homem fora do comum ― sinta que seria cruel e covarde matar um coelho indefeso.
Bem, a vontade do homem é livre. Se quiser, ele pode disparar; se quiser, ele pode deixar ir o coelho. Como decidirá ele? De que depende a sua decisão?
A sua decisão depende da força relativa do seu desejo de matar o coelho, dos seus escrúpulos acerca da crueldade, e da lei.
Além disso, se conhecêssemos o homem muito bem, poderíamos adivinhar como o seu livre-arbítrio agiria antes que tivesse agido. O desportista britânico comum mataria o coelho. Mas sabemos que há homens que nunca matariam uma criatura indefesa.
De um modo geral, podemos dizer que o desportista desejaria disparar e que o humanitarista não desejaria disparar.
Ora, como as vontades de ambos são livres, deve ser alguma coisa fora das vontades que faz a diferença.
Bem, o desportista matará porque é um desportista; o humanitarista não matará porque é um humanitarista.
E o que faz de um homem um desportista e de outro um humanitarista? Hereditariedade e meio: temperamento e formação.
Um homem é, por natureza, misericordioso e outro cruel; ou um é, por natureza, sensível e outro insensível. Esta é uma diferença de hereditariedade.
Um pode ter sido toda a sua vida ensinado que matar animais selvagens é "desporto"; o outro pode ter sido ensinado que é inumano e errado; esta à uma diferença de meio.
Ora, o homem por natureza cruel ou insensível, que foi treinado para pensar que matar animais é um desporto, torna-se aquilo a que chamamos um desportista, porque a hereditariedade e o meio fizeram dele um desportista.
A hereditariedade e o meio do outro homem fizeram dele um humanitarista.
O desportista mata o coelho porque é um desportista, e é um desportista porque a hereditariedade e o meio fizeram dele um desportista.
Isso é dizer que o "livre-arbítrio" é realmente controlado pela hereditariedade e pelo meio.
Permitam-me que dê um exemplo. Um homem que nunca pescou foi levado à pesca por um pescador. Ele gostou do desporto e durante alguns meses praticou-o entusiasticamente. Mas um dia um acidente convenceu-o da crueldade que é apanhar peixes com um anzol e ele pôs de lado imediatamente a sua cana e nunca mais voltou a pescar.
Antes da mudança, se era convidado, ele estava sempre ansioso por ir pescar; após a mudança, ninguém conseguia persuadi-lo a tocar numa linha. A sua vontade foi sempre livre. Como se transformou então a sua vontade de pescar na sua vontade de não pescar? Foi consequência do meio. Ele aprendeu que pescar é cruel. O conhecimento controlou a sua vontade.
Mas, pode perguntar-se, como explica que um homem faça o que não deseja fazer?
Nenhum homem alguma vez faz uma coisa que não deseja fazer. Quando há dois desejos impera o mais forte.
Suponhamos o seguinte caso. Uma jovem recebe duas cartas no mesmo correio; uma é um convite para ir com o seu namorado a um concerto, a outra é um pedido para que visite uma criança doente num bairro de lata. A rapariga é uma grande apreciadora de música e receia bairros de lata. Ela deseja ir ao concerto e estar com o namorado; ela receia as ruas imundas e as casas sujas, e evita correr o risco de contrair sarampo ou febre. Mas ela vai ver a criança doente e não vai ao concerto. Porquê?
Porque o seu sentido do dever é mais forte do que seu amor próprio.
Ora, o seu sentido do dever é em parte devido à sua natureza ― isto é, à sua hereditariedade ― mas é principalmente devido ao meio. Como todos nós, a rapariga nasceu sem quaisquer conhecimentos e com apenas uns rudimentos de uma consciência. Mas foi bem ensinada e a instrução faz parte do seu meio.
Podemos dizer que a rapariga é livre de agir como escolhe, mas ela age de facto como foi ensinada que deve agir. Este ensino, que faz parte do seu meio, controla a sua vontade.
Podemos dizer que um homem é livre de agir como escolhe. Ele é livre de agir como ele escolhe, mas eleo fizerem escolher. Porque a hereditariedade e o meio fizeram com que ele seja aquilo que é. escolherá como a hereditariedade e o meio
Diz-se que um homem é livre de decidir entre dois percursos. Mas na realidade ele é apenas livre de decidir de acordo com o seu temperamento e a sua formação....
Macbeth era ambicioso; mas ele tinha consciência. Ele queria a coroa de Duncan; mas ele recuava perante a traição e a ingratidão. A ambição puxava-o num sentido, a honra puxava-o no outro. As forças opostas estavam tão uniformemente equilibradas que ele parecia incapaz de decidir-se. Era Macbeth livre de escolher? Até que ponto era ele livre? Ele era tão livre que não conseguia decidir-se e foi a influência da sua mulher que inclinou a balança para o lado do crime.
Era Lady Macbeth livre de escolher? Ela não hesitou. Porque a sua ambição era de tal modo mais forte que a sua consciência que ela nunca teve dúvidas. Ela escolheu como a sua toda-poderosa ambição a compeliu a escolher.
E a maior parte de nós nas nossas decisões assemelhamo-nos a Macbeth ou à sua mulher. Ou a nossa natureza é de tal modo mais forte do que a nossa formação, ou a nossa formação é de tal modo mais forte que a nossa natureza, que decidimos para o bem e para o mal tão prontamente quanto um rio decide correr colina abaixo; ou a nossa natureza e a nossa formação estão tão bem equilibradas que dificilmente podemos decidir.
No caso de Macbeth a competição é clara e fácil de seguir. Ele era ambicioso e o seu meio ensinou-lhe a olhar a coroa como uma possessão gloriosa e desejável. Mas o meio também lhe ensinou que o assassinato, a traição e a ingratidão são perversos e deploráveis.
Se nunca lhe tivessem ensinado estas lições ou se lhe tivessem ensinado que a gratidão é uma tolice, que a honra é uma fraqueza, e que o assassinato é desculpável quando leva ao poder, ele não teria de todo hesitado. Foi o seu meio que impediu a sua vontade....
A acção da vontade depende sempre da força relativa de dois ou mais motivos. O motivo mais forte decide a vontade; tal como o peso mais pesado decide o equilíbrio dos pratos de uma balança….
Como podemos, então, acreditar que o livre-arbítrio é exterior e superior à hereditariedade e ao meio? ...
"O quê! Um homem não pode ser honesto se escolher sê-lo?" Sim, se escolher sê-lo. Mas essa é apenas outra forma de dizer que ele pode ser honesto se a sua natureza e a sua formação o levarem a escolher honestamente.
"O quê! Não posso satisfazer-me quer beba ou me abstenha de beber?" Sim. Mas isso é apenas dizer que não irás beber porque te apraz estar sóbrio. Mas apraz a outro homem beber, porque o seu desejo por bebida é forte ou porque a sua auto-estima é fraca.
E tu decides como decides e ele decide como decide, porque tu és tu e ele é ele; e a hereditariedade e o meio fizeram de ambos o que são.
E o homem sóbrio pode passar por tempos maus e perder a auto-estima, ou achar o fardo dos seus problemas maior do que aquilo que ele pode aguentar e cair na bebida para se consolar ou esquecer, e tornar-se um bêbado. Não acontece isto frequentemente?
E o bêbado pode, devido a algum choque, ou a algum desastre, ou a alguma paixão, ou a alguma persuasão, recuperar a auto-estima e renunciar à bebida e levar uma vida sóbria e útil. Não acontece isto frequentemente?
E em ambos os caso a liberdade da vontade permanece intacta: é a mudança no meio que eleva os caídos e lança os honrados por terra.
Podemos dizer que a vontade de uma mulher é livre e que ela poderia, se o desejasse, saltar de uma ponte e afogar-se. Mas ela não pode desejar. Ela é feliz, ama a vida e teme o rio frio e rastejante. E no entanto, devido a alguma cruel volta da roda da fortuna, ela pode tornar-se pobre e infeliz; tão infeliz que odeia a vida e está ansiosa pela morte e, por isso, pode saltar para o temeroso rio e morrer.
A sua vontade é tão livre numa altura como na outra. Foi o meio que forjou a mudança. Antigamente ela não podia desejar morrer; agora não pode desejar viver.
Os apóstolos do livre-arbítrio acreditam que todos os homens são livres. Mas um homem pode apenas desejar aquilo que é capaz de desejar. E um homem é capaz de desejar aquilo que outro homem é incapaz de desejar. Negá-lo é negar os factos da vida mais comuns e mais óbvios....
Todos sabemos que podemos prever a acção de certos homens em certos casos, porque conhecemos os homens.
Sabemos que nas mesmas condições Jack Sheppard irá roubar e que Cardinal Manning não irá roubar. Sabemos que nas mesmas condições o marinheiro irá namoriscar com a empregada de balcão e o padre não irá; que o bêbado se embebedará, e o abstémio manter-se-á sóbrio. Sabemos que Wellington recusaria um suborno, que Nelson não fugiria, que Buonaparte agarrar-se-ia ao poder, que Abraham Lincoln seria leal ao seu país, que Torquemada não pouparia um herético. Porquê? Se a vontade é livre, como podemos estar certos, antes de o teste ocorrer, de como a vontade deve agir?
Simplesmente porque sabemos que a hereditariedade e o meio formaram e moldaram de tal modo os homens e as mulheres que em certas circunstâncias a acção das suas vontades é certa.
A hereditariedade e o meio tendo feito de um homem um ladrão, ele irá roubar. A hereditariedade e o meio tendo feito de um homem honesto, ele não irá roubar.
Quer dizer, a hereditariedade e o meio decidiram a acção da vontade antes de ter chegado a altura da vontade agir.
Sendo as coisas assim ― e todos sabemos que são assim ― o que acontece à soberania da vontade?
Deixemos qualquer homem que acredite que pode "agir como lhe agradar" perguntar a si mesmo por que lhe agrada e ele verá o erro da teoria do livre-arbítrio e irá compreender por que a vontade é escrava e não mestre do homem: porque o homem é o produto da hereditariedade e do meio e estes controlam a vontade.
Como queremos esclarecer tanto quanto possível este assunto, consideremos um ou dois exemplos familiares da acção da vontade.
Jones e Robinson encontram-se e têm um copo de whisky. Jones pergunta a Robinson se quer outro. Robinson diz, "não obrigado, chega um." Jones diz "está bem; tome outro cigarro." Robinson aceita o cigarro. Ora, temos aqui um caso em que um homem recusa uma segunda bebida, mas aceita um segundo cigarro. É porque iria gostar de fumar outro cigarro, mas não iria gostar de beber outro copo de whisky? Não. É porque sabe que é mais seguro não beber outro copo de whisky.
Como sabe ele que o whisky é perigoso? Ele aprendeu-o ― no seu meio.
"Mas ele poderia ter bebido outro copo se o tivesse desejado."
Mas ele não poderia ter desejado beber outro copo, porque havia algo que ele desejava mais ― estar seguro.
E por que quer ele estar seguro? Porque ele aprendeu ― no seu meio ― que era prejudicial, inútil, e indecoroso ficar bêbado. Porque ele aprendeu ― no seu meio ― que é mais fácil evitar adquirir um mau hábito do que eliminar um mau hábito uma vez adquirido. Porque ele deu valor à boa opinião dos seus vizinhos e à sua posição e perspectivas de futuro.
Estes sentimentos e este conhecimento governaram a sua vontade e fizeram-no recusar o segundo copo.
Mas não há nenhum sentimento de perigo, nenhuma lição bem aprendida de risco para impedir a sua vontade de fumar outro cigarro. A hereditariedade e o meio não o previnem contra isso. Assim, para agradar ao seu amigo e a si mesmo, ele aceitou.
Agora supõe que Smith oferece a Williams outro copo. Williams aceita, bebe vários copos e vai depois para casa ― como frequentemente vai para casa. Porquê?
Em grande medida porque tem o hábito de beber. Não só a mente repete instintivamente uma acção, como, no caso da bebida, uma grande ânsia física é activada e o cérebro enfraquecido. É mais fácil recusar o primeiro copo do que o segundo; mais fácil recusar o segundo do que o terceiro; e muito mais difícil para um homem que frequentemente se embebeda manter-se sóbrio.
Assim, quando o pobre Williams tem de fazer a sua escolha, tem o hábito contra ele, tem uma grande ânsia física contra ele e tem um cérebro enfraquecido com que pensar.
"Mas, Williams poderia ter recusado o primeiro copo."
Não. Porque, no seu caso, o desejo de beber, ou de agradar a um amigo, era mais forte do que o seu medo do perigo. Ou pode não ter tido tanta consciência do perigo quanto Robinson. Ele pode não ter sido tão bem ensinado, ou pode não ter sido tão sensato, ou pode não ter sido tão cuidadoso. De modo que a sua hereditariedade e o seu meio, o seu temperamento e a sua formação, o levaram a tomar a bebida com tanta certeza quanto a hereditariedade e o meio de Robinson o levaram a recusar.
E agora é a minha vez de fazer uma pergunta. Se a vontade é "livre", se a consciência é um guia seguro, como é que o livre-arbítrio e a consciência de Robinson o fizeram manter-se sóbrio, enquanto o livre-arbítrio e a consciência de Williams o fizeram embebedar-se?
A vontade de Robinson foi contida por certos sentimentos que não conseguiram conter a vontade de Williams. Porque no caso de Williams os sentimentos no outro sentido eram mais fortes.
Foi a natureza e a formação de Robinson que o fizeram recusar o segundo copo e foi a natureza e a formação de Williams que o fizeram beber o segundo copo.
O que teve o livre-arbítrio a ver com isto?
Disseram-nos que todos os homens têm um livre-arbítrio e uma consciência.
Ora, se Williams tivesse sido Robinson, isto é, se a sua hereditariedade e o seu meio tivessem sido exactamente como os de Robinson, ele teria agido exactamente como Robinson agiu.
Foi porque a sua hereditariedade e o seu meio não eram o mesmo que o seu acto não foi o mesmo.
Tinham ambos livre-arbítrio. O que levou um a fazer aquilo que o outro se recusou a fazer? Hereditariedade e meio. Para inverter a sua conduta teríamos de inverter a sua hereditariedade e o seu meio....
Dois rapazes têm um emprego difícil e desagradável. Um deixa esse emprego e arranja outro, "sobe na vida" e é elogiado por ter subido na vida. O outro mantém-se naquele emprego toda a sua vida, trabalha muito toda a sua vida e é respeitado como um trabalhador honesto e humilde; quer dizer, ele é visto pela sociedade como Mr. Dorgan era visto por Mr. Dooely ― "ele é um excelente homem, mas eu desprezo-o."
O que faz com que estas duas vontades livres sejam tão diferentes? Um rapaz sabia mais do que o outro. Ele "conhecia mais." Todo o conhecimento é meio. Os dois rapazes tinham livre-arbítrio. Era no conhecimento que diferiam: meio!
Aqueles que exaltam o poder da vontade e menosprezam o poder do meio desmentem as suas palavras pelos seus actos.
Porque eles não mandariam os seus filhos para o meio de más companhias ou permitiriam que eles lessem maus livros. Não diriam que as crianças têm livre-arbítrio e, portanto, o poder de agarrar o bom e largar o mau.
Sabem muito bem que um mau meio tem o poder de perverter a vontade e que um bom meio tem o poder de a dirigir pelo bom caminho.
Eles sabem que as crianças podem ser tornadas boas ou más por uma boa ou má formação e que a vontade segue a formação.
Sendo assim, eles devem também admitir que os filhos das outras pessoas podem ser bons ou maus por formação.
E se uma criança tem uma má formação, como pode o livre-arbítrio salvá-la? Ou como pode ela ser censurada por ser má? Nunca teve oportunidade de ser boa. Que sabem isto é provado pelo cuidado que colocam em providenciar aos seus próprios filhos um meio melhor.
Como disse antes, cada igreja, cada escola, cada lição de moral é uma prova de que os pregadores e os professores confiam no bom meio, e não no livre-arbítrio, para tornar as crianças melhores.
Nesta, como em muitas outras matérias, as acções falam mais alto do que as palavras.
Isto, espero eu, desata os muitos nós com que milhares de homens eruditos ataram o tema simples do livre-arbítrio e destrói a alegação de que o homem é responsável porque a sua vontade é livre. Mas há uma outra causa de erro, relacionada com este assunto acerca da qual gostaria de dizer umas quantas palavras.
Ouvimos frequentemente dizer que um homem deve ser censurado pela sua conduta porque "ele conhece melhor."
É verdade que os homens agem erradamente quando conhecem melhor. Macbeth "conhecia melhor" quando assassinou Duncan. Mas também é verdade que frequentemente pensamos que um homem "conhece melhor" quando ele não conhece melhor.
Porque não se pode dizer que um homem conhece uma coisa enquanto não acreditar nela. Se me disserem que a Lua é feita de queijo verde, não se pode dizer que sei que é feita de queijo verde.
Muitos moralistas parecem confundir a palavra "conhecer" com a palavra "ouvir".
Jones lê novelas e toca música de ópera ao Domingo. O Puritano diz que Jones "conhece melhor" quando quer dizer que disseram a Jones que é errado fazer essas coisas.
Mas Jones não sabe que isso é errado. Ele ouviu alguém dizer que é errado, mas não acredita nisso. Portanto, não é correcto dizer que ele sabe.
E igualmente no que respeita à crença. Alguns moralistas sustentam que é mau não acreditar em certas coisas e que os homens que não acreditam nessas coisas serão punidos.
Mas um homem não pode acreditar numa coisa que lhe dizem para acreditar; ele pode apenas acreditar numa coisa em que ele pode acreditar; e ele pode apenas acreditar naquilo que a sua própria razão lhe diz que é verdade.
Seria inútil pedir a Sir Roger Ball que acredite que a Terra é plana. Ele não poderia acreditar nisso.
É inútil pedir a um agnóstico que acredite na história de Jonas e da baleia. Ele não poderia acreditar nela. Ele pode fingir que acredita. Ele pode tentar acreditar nela. Mas a sua razão não lhe permitiria acreditar nela.
Portanto, é um erro dizer que um homem "conhece melhor" quando lhe disseram "melhor" e ele não pode acreditar no que lhe disseram.
Essa é uma questão simples e parece muito banal; mas quanta má-vontade, quanta intolerância, quanta violência, perseguições e assassinatos foram causados pela estranha ideia de que o homem é mau porque a sua razão não pode acreditar no que para outra razão humana [é] absolutamente verdade.
O livre-arbítrio não tem qualquer poder sobre as crenças de um homem. Um homem não pode acreditar por querer, mas apenas por convicção. Um homem não pode ser forçado a acreditar. Podes ameaçá-lo, feri-lo, bater-lhe, queimá-lo; e ele pode ser assustado, irritado ou atormentado; mas não pode acreditar, nem se pode obrigá-lo a acreditar. Até que seja convencido.
Ora, embora isto possa parecer um truísmo, penso que é necessário dizer aqui que um homem não pode ser convencido nem pela ofensa nem pelo castigo. Ele pode apenas ser convencido pela razão.
Sim. Se queremos que um homem acredite numa coisa, teremos de encontrar umas quantas razões mais poderosas do que um milhão de pragas ou um milhão de baionetas. Queimar um homem vivo por não acreditar que o Sol gira em torno da Terra não é convencê-lo. O fogo é penetrante, mas não lhe parece ser relevante para a questão. Ele nunca duvidou de que o fogo queima; mas talvez os seus olhos moribundos possam ver o Sol a pôr-se no Oeste, à medida que o mundo gira no seu eixo. Ele morre com a sua crença. E não conhece "melhor".


Tradução de Álvaro Nunes

Leitura opcional. Se quiser acesse o link. DALLARI, Dalmo de Abreu. A nossa liberdade. In: MESERANI, Samir. Linguagem e criatividade. São Paulo: Saraiva, s.d.

http://xucurus.blogspot.com/2010/08/estamos-prontos-para-liberdade.html




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É muito fácil opor a liberdade às "liberdades", condenar a liberdade como uma abstração, em nome das liberdades concretas. As liberdades concretas não têm sentido senão na medida em que se referem a uma liberdade interior, assim como a liberdade interior não se realiza senão quando se concretiza nas liberdades externas.
Entre a liberdade pessoal e a liberdade coletiva, nos Estados totalitários, somos ameaçados de sacrificar a primeira em nome da segunda. Toda liberdade pessoal supõe uma liberdade coletiva, a começar pela liberdade nacional. Em nosso país, aprendemos que, para que cada francês pudesse ser livre, era preciso que a França fosse livre. A liberdade individual supõe liberdades profissionais, de classe, religiosa e nacional. Mas não é necessário que essas liberdades coletivas se transformem num deus em nome do qual os homens tenham de imolar a liberdade pessoal de cada um. As liberdades coletivas não adquirem sentido senão quando se traduzem por uma liberdade pessoal estendida a cada ser humano.
A liberdade, enfim, não nos aparece como um estado no qual a pessoa se instala, como numa poltrona confortável em que a gente se senta, nem como uma rapariga que se entrega a todo mundo, sempre que solicitada, mas como uma ascese, como uma conquista.
A liberdade é ascética de pobreza, pois, para ser livre, é necessário libertar-se de um certo número de cargas - as cargas das paixões ou do dinheiro. Ninguém é verdadeiramente livre senão na medida em que se despoja de si mesmo. Alcançar a liberdade transcende da própria ascese: - é uma luta, uma batalha, é preciso lutar incessantemente para conservar a soma de liberdades que existem no mundo e que o determinismo tende a suprimir. É preciso lutar para aumentar a soma de liberdades que existem no mundo.
O maniqueísmo seria uma posição falsa: - não há a liberdade e a falta de liberdade, pura e simplesmente. O que há, a cada momento, é uma cota maior ou menor de liberdade. Todo o trabalho do homem, todo o sentido de uma civilização, consiste em transformar esse mínimo de liberdade num máximo, um máximo que, uma vez alcançado, deverá ser ciosamente defendido. Isso supõe um uso da liberdade interior para aumentar e consolidar as liberdades exteriores.
Nunca teremos senão a liberdade que conquistamos com nossas próprias mãos. Se essa afirmação parecer cínica, eu me explicarei melhor: - as pessoas não têm senão a liberdade que são capazes de defender e, pois, a liberdade que merecem ter.
Quando um povo perde sua liberdade, a menos que seja no caso de uma brutal invasão estrangeira (e mesmo nesse caso), a razão deve ser procurada e encontrada numa demissão.
Essas palavras não são anárquicas. Elas respondem, antes, a uma concepção profundamente cristã da liberdade, considerada, não como um estado, mas, como uma ação, um vir-a-ser. Não como um todo que encontra seu fim em si mesmo, mas como uma orientação no sentido da busca da verdade e do bem. Compreende-se, assim, que um dos movimentos políticos cristãos mais importantes para encontrar a essência do pensamento cristão, o Partido Guelfo, tenha inscrito em seu escudo de armas a divisa que seria, séculos depois, adotada pela Democracia Cristã da Itália: - "Libertas".
Quando os cristãos escolhem como divisa a liberdade, não estão renegando o Cristianismo, nem cedendo a qualquer tipo de demagogia. Estão, isto sim, afirmando que o Cristianismo é uma liberdade interior que deve resplandecer na vida social e política.
É certo que "syllabus" lembra que a Igreja se recusa a reconciliar-se com o liberalismo. A igreja está certa, ao não ceder a essa tentação. Pois o direito não deve sair nem do número nem da força. Num mundo humano, juridicamente ordenado, não pode haver liberdade sem direito e, pois, o direito não é uma consequência da força e do número, até porque sua finalidade é a defesa das liberdades.
Sob essa luz, pode-se bem entender o pecado do liberalismo e a medida em que ele foi prejudicial à liberdade, embora não pretendesse outra coisa senão servi-la e exaltá-la. Parece-me que um dos primeiros pecados do liberalismo é a confusão da liberdade com aquilo que os filósofos chamam de "liberdade de indiferença", a simples possibilidade de fazer uma escolha, seja ela qual for. Na verdade, a liberdade humana deve ser orientada pela natureza humana.

Joseph Folliet nasceu em Lyon em 1903 e é um dos representante mais destacados do pensamento católico de nossos dias. Doutor em Filosofia Tomista e em Ciências Políticas e Sociais, fundou, em 1927, uma congregação de religiosos, a dos Companheiros de São Francisco. Foi secretário-geral das Semanas Sociais, seminário de estudos promovido pela Igreja na França. Diretor da "Chronique Sociale de France", foi professor de Sociologia Geral nas Faculdades Católicas de Lyon. Suas obras mais importantes são "Os Cristãos na Encruzilhada", "Presença da Igreja" e "A Vinda de Proteu". O texto que hoje publicamos é um fragmento de sua conferência no Centro Católico dos Intelectuais Franceses, divulgada no volume "L" Eglise et la Liberté" e traduzido do francês por Gerardo Mello Mourão. 


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