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domingo, 15 de agosto de 2010

Conhece-te a ti mesmo Entenda o que é e como encontrar a sua vocação, com conselhos de filósofos gregos e romanos da Antiguidade

Conhece-te a ti mesmo
Entenda o que é e como encontrar a sua vocação, com conselhos de filósofos gregos e romanos da Antiguidade
POR PATRÍCIA PEREIRA
Originário do latim - vocare - vocação quer dizer "chamado". E, como chamado, não está relacionado de forma direta a uma profissão, mas a uma questão maior: algo que diz respeito à plena realização da natureza do indivíduo. Aquele que atua dentro de sua vocação e trabalha com o que faz parte de sua natureza tem mais possibilidades de encontrar a realização e, por conseqüência, a felicidade. Como sugeriu Confúcio, professor, filósofo e teórico político chinês, que influenciou a Ásia Oriental com seus pensamentos: "Escolha um trabalho que você ame e não terás que trabalhar um único dia em sua vida".
O prazer de viver parece estar muito relacionado à realização da vocação. Os epicuristas, por exemplo, já aconselhavam aos homens que buscassem o prazer duradouro e não o efêmero. Prazer duradouro que só pode ser alcançado na realização da própria natureza do indivíduo. Confúcio propunha, como um meio de encontrar essa vocação, que as pessoas trilhassem um caminho de experimentação, baseado na educação, explica o doutor em Filosofia e Sinólogo, professor da Faculdade Estadual de Filosofia, Ciências e Letras de União da Vitória (FAFIUV), no Paraná, André Bueno.
A pedagogia de Confúcio não buscava ser condicionante, porém, ele defendia que as pessoas na época deviam aprender atividades tão diversas como caligrafia, música, arco e flecha para encontrarem aquilo de que mais gostavam de fazer. É neste momento, explica Bueno, quando se percebe que um aluno parece ter potencial especial para algo, que se pode constatar a idéia de propensão: e se ele sente um prazer especial no que faz, e o faz de maneira que isso beneficie não só a si, mas tudo à sua volta, então está encontrando o caminho certo para sua vida, está encontrando uma via (o seu Dao, conceito chinês que pressupõe a idéia de que pode ser encontrada uma via realizante).
REPRODUÇÃO
Confúcio ensinando, retratado pelo pintor chinês Wu Daozi, na Dinastia Tang, (618-907), quando a China foi reunificada, após três séculos de fragmentação, entre os anos de 581 e 618
O despertar da vocação não é algo mágico, está mesmo ligado à educação, defende o diretor nacional da Associação Cultural Nova Acrópole, o filósofo Michel Echenique Isasa, autor do livro Como reconhecer sua vocação. Para Isasa, a criança, desde cedo, precisa ser observada e orientada por educadores para encontrar seu caminho. Uma busca que não se encerra na infância, já que, ao longo da vida, o ser humano passa por várias etapas de seleção vocacional e, em todas elas, deveria ser direcionado. Para outro membro da Nova Acrópole, Luís Eduardo Wexell Machado, o ponto- chave para se encontrar a vocação é observar. "É comum que o jovem chegue ao vestibular e não saiba que curso escolher. Troca de Engenharia para Medicina, de Química para Filosofia, campos muito diferentes. Isso porque falta capacidade de observação dos mais velhos em relação aos jovens", analisa Machado. Mas Machado aponta um outro lado, a da auto-observação, ligado à famosa frase de Sócrates "Conhece-te a ti mesmo", inscrita no templo de Apolo, uma máxima filosófica essencial para gerar autoreflexão. As pessoas costumam trabalhar com orientação vocacional e uma série de instrumentos que ajudam a encontrar a vocação de cada um, mas, fundamentalmente, é a reflexão pessoal que leva ao entendimento sobre a vocação.
A Filosofia pode ajudar nessa hora, ao fornecer textos que ajudam a refletir sobre si. "Os estóicos ensinam o homem a refletir sobre as coisas dele e não dar importância ao que é dos outros. Dizem que o homem deve se preocupar com o que depende dele e não com o que não depende", diz Machado. A aplicação se daria, por exemplo, na hora de fazer escolhas, porque somos levados por certas tendências fortes de nossa cultura e quase sempre analisamos as opções a partir de um ponto de vista que tomamos como nosso, mas que, de fato, não é, pertence ao outro. "É algo que assumimos como nosso pela pressão, pela força social que aquilo tem, seja no núcleo familiar ou dos amigos. A Filosofia pode nos ajudar bastante a obtermos um grau de conhecimento maior sobre nós mesmos, como no caso da orientação dada pelos estóicos", explica Machado.
Também conhecido como Oráculo de Delfos, o templo de Apolo, um dos locais mais venerados pelos gregos, era o lugar onde peregrinos de toda a Grécia rumavam para fazer consultas às sacerdotisas oraculares sobre o destino de cada um e seus respectivos familiares
Para Confúcio, a vocação é a manifestação humana da propensão individual. Bueno explica que os chineses acreditavam que todas as coisas na natureza possuíam propriedades em sua constituição, que lhes garantiam um modo de manifestar-se em particular, diferenciando-se umas das outras. Esta propensão favorece um meio específico de agir, transformar-se e realizar-se, não importando qual seja a condição do ser. Sendo assim, todos os seres humanos têm uma propensão e, por causa disso, nenhum talento é melhor do que o outro, explica Bueno. "Na verdade, é o uso e a habilidade que alguém alcança em aproveitar seu próprio talento que dá importância a ele. Isso significa que a sociedade pode até buscar privilegiar determinados talentos (como é o caso de grandes músicos, guerreiros, atletas, etc.), mas não existe uma propensão melhor que outra: as propensões, na verdade, são importantes pelo que elas são em si", explica.

GRUPOS VOCACIONAIS
Os seres humanos podem ser divididos em grupos vocacionais. Em comum, cada grupo tem tendências, inclinações e dons que o leva a exercer certo tipo de atividade. "Principalmente atividades necessárias para a sobrevivência e o desenvolvimento social", afirma o diretor nacional da Associação Cultural Nova Acrópole e autor do livro Como reconhecer sua vocação, o filósofo Michel Echenique Isasa. De acordo com ele, pode-se falar em cinco grandes grupos vocacionais que, com o passar do tempo, foram se desdobrando em muitos outros. A divisão inicial, feita ainda na antiguidade por filósofos gregos, inclui a seguinte classificação: homens com tendência ao trabalho artesanal, à produção de objetos materiais; outros, propensos à agricultura; um terceiro grupo, mais ligado ao comércio, à criação de empresas; o quarto seria aquele com inclinações para trabalhar com questões sociais, de segurança, de liderança e de organização política; e o quinto grupo, formado por pessoas com tendências para a área educacional e sacerdotal.
Bueno exemplifica essa situação no caso de um pescador, já que de sua habilidade provém o alimento que sustenta a população. Em situações normais, esta capacidade não é considerada uma das mais importantes, apesar de a sociedade não perceber que, sem ele, passará fome e o todo não funcionará até certo ponto. Já numa situação de crise, no entanto, seu talento torna-se ainda mais evidente, pois é a ele que os outros precisam recorrer. "Isso não modificou, na verdade, a propensão de alguém em conhecer o mar, a arte da pesca, bem como não afeta o seu 'talento nato'. A relevância social pode até ser contextual, mas a propensão deve ser atingida com um outro fim: a realização pessoal e a felicidade", diz Bueno.
Assim, cada época tem a sua forma de dar
vazão à realização vocacional, sendo que a cada
dia surgem mais áreas de atuação e novidades


SHUTTER STOCKUma pequena fábula chinesa, contada pelo doutor em Filosofia e sinólogo, André Bueno, ilustra a visão chinesa da realização:
"Um mestre quis mostrar ao seu discípulo o que era realização. Foram até um jogador de xadrez e perguntaram: o que você faz? E ele respondeu: - jogo xadrez. O que faz para viver?, perguntaram novamente: - Jogo xadrez, ele respondeu. E o que gosta de fazer? Disseram - Jogar xadrez!, disse finalmente o velho. Ao saírem dali, encontraram um estudioso e lhe perguntaram: você que é estudioso, o que sabe fazer? Ele respondeu - sei várias coisas: poesia, música, história, caligrafia... - mas o que você sabe BEM?, perguntou o mestre; ao que o estudioso respondeu "bem, sei de tudo um pouco, mas acho que não sei nada tão profundamente". O mestre se virou para o seu discípulo e disse: - viu? Temos que experimentar de tudo, pra encontrarmos a nós mesmos; e tudo se resume em fazer uma coisa só: aquilo que nos torna felizes".
Assim, cada época tem a sua forma de dar vazão à realização vocacional, sendo que a cada dia surgem mais áreas de atuação e novidades, mas não chega a apagar os interesses antigos. "A humanidade continua a lidar com questões sociais, filosóficas e políticas, com a língua, a história e os outros países. A maneira como se lida com elas é que muda", explica Machado. E acrescenta que não há época que possa causar impedimento, isto é, que seja mais promissora para uma determinada vocação. "Em algumas épocas, algumas áreas estão mais na moda e dão mais retorno financeiro. Mas o primeiro critério para se encontrar e exercer a vocação não pode ser o retorno financeiro, e sim a realização do que a natureza determina. A felicidade não depende de dinheiro, mas de realização", diz.
Quando existe a vocação, as pessoas fazem seu
trabalho em menor tempo. Estimular a vocação, era
uma forma de beneficiar a sociedade como um todo

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 http://leiturasdahistoria.uol.com.br/ESFI/Edicoes/18/artigo71479-1.asp

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