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sábado, 14 de agosto de 2010

Colômbia e Venezuela

TENDÊNCIAS/DEBATES da Folha de São Paulo
A Unasul pode desempenhar papel relevante nas relações entre Colômbia e Venezuela?
NÃO

O problema são as Farc
AMAURY DE SOUZA

A julgar por iniciativas recentes, pode-se responder com elevada probabilidade de acerto que a Unasul (União de Nações Sul-Americanas) dificilmente virá a desempenhar papel relevante nas relações entre a Venezuela e Colômbia.
Trata-se de problema que persegue a Unasul desde o nascimento e ao qual ela tem dado respostas desapontadoras. O "animus laedendi" entre a Venezuela e a Colômbia já estava exacerbado quando a cúpula de chefes de Estado em Brasília aprovou o Tratado Constitutivo da nova entidade em 23 de maio de 2008.
Definida como "um espaço de integração e união", a Unasul ganhou personalidade jurídica internacional tardiamente. No dia 1º de março, as Forças Armadas da Colômbia bombardearam um acampamento das Farc no Equador, matando Raúl Reyes, o ex-número dois da guerrilha colombiana e pelo menos outros dez guerrilheiros.
A primeira reação veio não da Unasul, mas dos países da Alternativa Bolivariana para as Américas (Alba). O objetivo era isolar a Colômbia e caracterizá-la como um país agressor.
Embora a Colômbia tivesse violado o território do Equador, e não o da Venezuela, o presidente Hugo Chávez ordenou o deslocamento de tropas para a fronteira e rompeu relações com o governo do presidente Álvaro Uribe, antes mesmo de o presidente do Equador, Rafael Corrrea, expulsar o embaixador da Colômbia em Quito.
Quem desarmou uma crise diplomática que poderia tomar rumos belicosos foi a velha e desacreditada Organização dos Estados Americanos (OEA), a quem o presidente Correa solicitou apoio.
Reunida em tempo habilíssimo, a OEA condenou a Colômbia pela violação da soberania territorial do Equador, mas sem lhe atribuir a condição de país agressor.
A segunda vez que a Unasul foi chamada a se pronunciar sobre as relações entre os dois países foi na cúpula de Bariloche, em 28 de agosto de 2009. O prato de resistência foi a renovação do acordo militar entre a Colômbia e os Estados Unidos, concedendo a militares norte-americanos o acesso a bases colombianas para apoiar o combate ao narcotráfico e ao terrorismo.
Para impedir que a reunião terminasse em retumbante fracasso, prevaleceu a decisão de respeitar a soberania colombiana de permitir o uso de suas bases.
Em represália, Chávez suspendeu os laços comerciais com a Colômbia, com resultados desastrosos para comércio bilateral.
A última crise é bem mais recente. Duas semanas antes de passar a faixa presidencial ao sucessor, em 7 de agosto de 2010, o presidente Álvaro Uribe denunciou na OEA a existência de acampamentos de guerrilheiros das Farc na Venezuela, sob proteção do governo.
Ato contínuo, o presidente Chávez rompeu relações diplomáticas com a Colômbia e reforçou as tropas militares na fronteira. A Unasul ofereceu os préstimos, mas o presidente eleito, Juan Manuel Santos, agradeceu a oferta de mediação e disse preferir "o diálogo franco e direto, e o mais rápido possível" com o presidente Chávez.
A razão do desempenho medíocre da Unasul é sua relutância em reconhecer que as Farc são o epicentro do conflito entre a Colômbia e a Venezuela. As Farc estavam acampadas no Equador e há indícios seguros de que recebem abrigo na Venezuela. São um problema não apenas na região andina, mas sua influência desagregadora espraia-se pelo continente.
Tem razão Álvaro Uribe ao dizer que a colaboração de seus vizinhos da Unasul tem se resumido a uma "solidariedade retórica". Até porque não são poucos os que teimam em designar as Farc como "movimento insurgente" e, em última instância, politicamente legítimo.

AMAURY DE SOUZA é doutor em ciência política pelo Massachusetts Institute of Technology (EUA) e sócio-diretor da MCM Consultores Associados. É autor do livro "A Agenda Internacional do Brasil: A Política Externa Brasileira de FHC a Lula".

TENDÊNCIAS/DEBATES
A Unasul pode desempenhar papel relevante nas relações entre Colômbia e Venezuela?SIM

Organização pode e deve mediar conflitos
SÉRGIO PAULO MUNIZ COSTA

É positivo o jogo de cena do imbróglio colombiano-venezuelano. Por ora, optou-se por não queimar as pontes, mesmo com as motivações maquiadas pelas conveniências do poder. Porém, desse mais recente capítulo-crise da realidade sul-americana emergiu uma inevitabilidade: não há como negar o papel central do Brasil, por qualquer ângulo que se aprecie o cenário.
Mas não há também como desconsiderar que o crescimento econômico do Brasil, independentemente de sua qualidade, atrairá para o seu espaço as aspirações dos povos das nações vizinhas.
Sem um desenvolvimento regional compartilhado segundo as respectivas vocações e identidades, será impossível evitar o encontro de desequilíbrios socioeconômicos exponencialmente ampliados à escala continental.
A integração sul-americana não é uma opção, é um imperativo.
A Unasul (União de Nações Sul-Americanas) pode contribuir para a superação de conflitos na América do Sul simplesmente por atender a uma necessidade de integração confluente aos vários interesses regionais e se equilibra bem entre os extremos da imposição e da rejeição. Mas há condições para isso.
Menos um fato político do que um projeto promissor, o organismo proposto pelo Brasil tem que assumir o desafio de aprofundar o vínculo democrático neste tempo histórico em que velhos fantasmas ressurgem.
É difícil justificar e aceitar ações de quem suprime as regras de sucessão e dissenso democrático que lhes garantiram a ascensão ao poder. Não é apenas a ruptura institucional do golpe e a sua forma mais ou menos violenta que o condenam, mas particularmente o que dele resulta na supressão da democracia representativa entronizada no Estado de Direito.
Com ela, crises intermináveis se superam para reiterá-la. Fora dela, só existe o poder pela força que cinde a sociedade.
Assegurado esse consenso, por certo haverá ainda muito trabalho até que a Unasul cumpra o seu papel, a começar pela estruturação da defesa e segurança de maneira a esvaziar o componente militar de qualquer tensão local, enfrentar as ameaças comuns aos países da região e prevenir agressões externas.
O Brasil não pode se furtar a esse compromisso político, estratégico e operacional, e para tanto as suas políticas externa e de defesa têm que se confirmar como de Estado, assegurando continuidade e credibilidade à sua atuação.
A Unasul não só pode como deve mediar e solucionar o conflito entre Colômbia e Venezuela e mais os a ele subjacentes.
Urgência e oportunidade indicam que é o momento de fazer para se organizar, e não o contrário convencionalmente aceito.
Há experiências bem-sucedidas assimiladas em realidades distintas, boas tradições político-militares de missões de paz e principalmente um alinhamento estratégico no Cone Sul que pode perfeitamente inspirar outro mais amplo sul-americano.
Em certo momento de divergências no desenvolvimento dos trabalhos na Junta Interamericana de Defesa, um oficial boliviano não se furtou a externar sua conclusão sobre o relacionamento entre os colegas das nações sul-americanas, com algumas das quais o seu país tinha dificuldades não superadas: "Nossos ódios são fracos".
Se os ódios são fracos, não há por que reinventá-los. Caso faltassem à Unasul outras razões para existir, aí está uma para ela agir antes que eles surjam.

SÉRGIO PAULO MUNIZ COSTA é historiador. Foi delegado do Brasil na Junta Interamericana de Defesa, órgão de assessoria da OEA (Organização dos Estados Americanos) para assuntos de segurança hemisférica.
Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo. debates@uol.com.br

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz1408201008.htm

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