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sexta-feira, 23 de julho de 2010

Sobre a banalidade do Mal,

 Wellington, leia os textos. Faça deles uma única paráfrase, afinal, os dois tratam o mesmo tema.


 Texto 1

Banalidade do Mal é uma expressão criada por Hannah Arendt (1906-1975), teórica política alemã, em seu livro "Eichmann em Jerusalém", cujo subtítulo é "Informe sobre a Banalidade do Mal".

Os Antecedentes da Frase

No ano de 1961, em Israel, é iniciado o julgamento de Adolf Eichmann por crimes de genocídio contra os judeus, durante a Segunda Guerra Mundial. Este julgamento foi recheado de grande polêmica e controvérsias. Quase todos os jornais do mundo enviaram jornalistas para cobrir as sessões que foram tornadas públicas pelo governo israelense. Além de crime contra o povo judeu, ele foi acusado de crimes contra a Humanidade, e de pertencer a um grupo organizado com fins criminosos.
Eichmann foi condenado por todos estes crimes e enforcado em 1962, nas proximidades de Tel Aviv.
Uma das correspondentes presente ao julgamento, como enviada da revista The New Yorker, era Hannah Arendt.

[editar] O Livro

Em 1963, baseado em seus relatos do julgamento e em cima de todo o seu conhecimento filosófico-político ela escreveu um livro ao qual denominou "Eichmann em Jerusalém".
Nele, ela descreve não somente o desenrolar das sessões, mas faz uma análise do "indivíduo Eichmann".
Segundo ela, Adolfo Eichmann não possuía um histórico ou traços anti-semita e não apresentava características de uma pessoa com caráter distorcido ou doentio. Ele agiu como agiu por desejo de ascender em sua carreira profissional e seu atos foram resultados de cumprimento de ordens superiores. Ele era um simples burocrata que cumpria ordens sem racionalizar em suas conseqüências. Para Eichmann, tudo era realizado com zelo e eficiência, e não havia nele o sentimento de "bem" ou "mal" em seus atos.

[editar] A Frase

Para Hannah, ele não era o "monstro", o "poço de crueldade" com que era julgado pela maior parte da imprensa. Os atos de Eichmann não eram desculpáveis e nem ele era inocente, mas estes atos não foram realizados por um ser dotado de imensa capacidade de crueldade, mas sim por um funcionário burocrata dentro de um sistema baseado em atos de extermínio.
Em cima desta análise ela cunhou a expressão "Banalidade do Mal" para indicar que alguns indivíduos agem dentro das regras do sistema a que pertencem sem racionalizar sobre seus atos. Eles não se preocupam com as conseqüências destes, só com o cumprimento das ordens. A tortura, a execução de seres humanos ou a prática de atos do "mal" não são racionalizados em seu resultado final, desde que as ordens para executá-los advenham de estâncias superiores.
Hannah Arendt discorre sobre a complexidade da natureza humana e alerta que é necessário estar sempre atento para o que chamou de "banalidade de atos do mal" e evitar a sua ocorrência.
Hoje a frase é utilizada com significação universal para descrever o comportamento de alguns personagens históricos que cometeram atos de extrema crueldade e sem nenhuma compaixão para com outros seres humanos, e que em suas vidas pregressas não foram encontrados traços de traumas ou quaisquer desvios de personalidade que justificassem os seus atos. Em resumo: eles eram "pessoas normais".

Texto 2 ( se achar este texto complicado, leia só o começo e passe para o seguinte)

Violência e banalidade do mal

Publicado em 14 de março de 2010
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Em Arendt, o problema do mal é abordado por uma perspectiva política e não moral ou religiosa
Odílio Alves Aguiar
Jerome Kohn, assistente de ensino e intérprete de Hannah Arendt, escreveu que o problema do mal é o principal eixo argumentativo a atravessar toda a reflexão político-filosófica arendtiana. A base da reflexão da pensadora é a experiência totalitária. Ao ligar essa experiência ao mal, Hannah Arendt apontou o paroxismo da violência perpetrada pelos governos totalitários e mostrou a insuficiência das teorias e categorias científicas, econômicas e políticas tradicionais para captar e explicar a novidade do que estava acontecendo. O domínio total é mais opressor que a escravidão e a tirania, é mais destruidor que a miséria econômica e o expansionismo territorial. O controle total pretende atingir e capturar os humanos; adota, como critério de legitimidade governamental, a redução dos homens a seres naturais. O recurso à categoria do mal é uma forma de tentar compreender o inexplicável e visa aproximar-se reflexivamente da primeira tentativa de constituição de uma forma de governo, no Ocidente, baseada na purificação e no extermínio dos seres humanos. Trata-se, assim, de pensar o mal nas sociedades secularizadas sem apelar ao teor teológico-religioso.
O tema do mal, em Arendt, não tem como pano de fundo a malignidade, a perversão ou o pecado humano. A novidade da sua reflexão reside justamente em evidenciar que os seres humanos podem realizar ações inimagináveis, do ponto de vista da destruição e da morte, sem qualquer motivação maligna. O pano de fundo do exame da questão, em Arendt, é o processo de naturalização da sociedade e de artificialização da natureza ocorrido com a massificação, a industrialização e a tecnificação das decisões e das organizações humanas na contemporaneidade. O mal é abordado, desse modo, na perspectiva ético-política e não na visão moral ou religiosa.
Faz-se necessário esclarecer, antes de avançarmos, que Hannah Arendt nunca sistematizou suas reflexões sobre o assunto. Colhemos os elementos do seu ponto de vista nas seguintes obras: Origens do totalitarismo (1951), Eichmann em Jerusalém (1963), A vida do espírito (1971) e em outros textos publicados postumamente. Essa bibliografia está muito bem articulada no livro de Nádia Souki intitulado Hannah Arendt e a banalidade do mal (Ed. UFMG).
Contingência do mal
Em Origens, o tema aparece no cotejamento e prolongamento da reflexão kantiana sobre o mal radical. Kant percebeu que o mal pode ter origem não nos instintos ou na natureza pecaminosa do homem e, sim, nas faculdades racionais que o fazem livre. Dessa forma, o mal não possui dimensão ontológica, mas contingencial. Ele acontece a partir da interação e da reação das faculdades espirituais humanas às suas circunstâncias. O mal radical, em Kant, é uma espécie de rejeição consciente ao bem e está atrelado, ainda, ao uso dos homens como meios, instrumentos, e não fim em si mesmo. Arendt retém esse aspecto da reflexão kantiana, acrescentando-lhe a dimensão histórico-política do seu próprio tempo. Nela, o radicalismo vai relacionar-se à novidade e ao assombro diante das informações chegadas às suas mãos nos Estados Unidos, em 1943, sobre Auschwitz. Ela associou o mal radical aos campos de concentração, base de sustentação da nova forma de governo em gestação. Isso faz o assunto ultrapassar a questão judaica, embora seja incompreensível sem ela. Holocausto é pouco para captar o que surgiu, pois não se trata apenas da execução de judeus. Esse algo a mais faz sua obra dizer coisas relevantes para todos nós. O mal radical está associado ao totalitarismo, organização governamental e sistemática da vida dos homens prescindindo do discurso e da ação, considerando-os meros animais, controláveis e descartáveis. É uma forma de governar sustentada, explicitamente, no pressuposto do extermínio de setores da população e não apenas na sua opressão ou instrumentalização. Isso não diz respeito apenas à exclusão sócio-política do criminoso, nem à eliminação do opositor ou inimigo, mas a atualização da lógica da descartabilidade humana inerente àquelas formas de governo.
Ao considerar a população apenas do ponto de vista biológico, laborante, o governo total tratou de eliminar qualquer instituição ou vínculo humano que pudesse dar abrigo à solidariedade, à ação e à diferenciação entre os indivíduos. Destruindo o mundo comum (partidos, família, arte, religiões, sindicatos, justiça e outras formas de organização), no qual as pessoas poderiam ser amparadas e respeitadas, os governos totalitários constituíram-se baseados na propaganda, na espetacularização, na atomização, na solidão, na padronização, na coletivização das massas e na redução do homem a animal, ocupado exclusivamente com a sua reprodução biológica. Os regimes totais conceberam os homens apenas como seres vivos e prolongaram esse critério na escolha dos merecedores da vida. O grande temor, presente nos textos da pensadora, é que o extermínio, a nova terapia contra os humanos considerados impuros e indignos, inerente aos governos totalitários, viesse a constituir-se em elemento imanente aos governos e sociedades contemporâneas. Isso levou Arendt a afirmar: “talvez os verdadeiros transes do nosso tempo somente venham a assumir a sua forma autêntica – embora não necessariamente a mais cruel – quando o totalitarismo pertencer ao passado”.
Cumprir o seu dever
A questão do mal retorna, em Arendt, quando ela aceita o convite de uma revista americana para fazer a cobertura do julgamento de Eichmann ocorrido em Jerusalém, em 1962. As questões jurídicas e filosóficas envolvidas nesse caso foram muito bem debatidas no livro Justiça em tempos sombrios de Christina Ribas (Ed. UEPG). Se, ao mal radical, Arendt associa o surgimento e a prática da violência extremada e sistemática contra setores da população por parte de uma nova forma de governo, ao mal banal, ela vai relacionar a prática dos agentes encarregados de executar as ordens governamentais. Quem foi Eichmann? Trata-se do principal responsável pelo envio dos judeus aos campos de concentração. Em todos os relatos de Arendt, verificamos uma profunda perplexidade com a forma de Eichmann falar das suas atividades como carrasco nazista. Ele usava clichês, palavras de ordens e a moral da obrigação do bom funcionário para justificar o seu comportamento. Para ele, em nenhum momento, podia ser enquadrado como criminoso, pois apenas cumpria a sua obrigação, o seu dever. Eichmann era um ser humano normal, bom pai de família, não possuía nenhum ódio ao povo judeu e não era motivado por uma vontade de transgredir ou por qualquer outro tipo de maldade. No entanto, viabilizou o assassinato de milhões de pessoas. Foi justamente isso que levou Arendt a usar o termo banalidade do mal. Estamos diante de um tipo de mal sem relação com a maldade, uma patologia ou uma convicção ideológica. Trata-se do mal como causa do mal, pois não tem outro fundamento. O praticante do mal banal não conhece a culpa. Ele age semelhante a uma engrenagem maquínica do mal. O mal banal parece ser um fungo, cresce e se espalha como causa de si mesmo, sem raiz alguma e atinge contingentes enormes das populações humanas em diversos lugares da terra.
A pergunta de Arendt, ao se deparar com os depoimentos de Eichmann, foi: “o que faz um ser humano normal realizar os crimes mais atrozes como se não estivesse fazendo nada demais?” A resposta está no mal banal. Trata-se de uma prática do mal promissora nas sociedades massificadas, possuidoras de organizações econômicas, políticas e sociais potentes, nas quais os seres humanos tendem a se sentir sem poder, solitários, submissos e quase condicionados. Vivendo apenas como animal laborante, os homens tecnificam e burocratizam as suas obrigações e se tornam, desse modo, incapazes de pensar as conseqüências das ordens dadas pelos seus superiores ou grupos.  Eichmann, segundo Arendt, agiu igual ao cão de Pavlov, que foi condicionado a salivar mesmo sem ter fome. Ele não praticou o mal motivado pela ambição, ódio ou doença psíquica. Nada disso foi encontrado em Eichmann. A única coisa que chamou atenção de Arendt foi a sua incapacidade de pensar. Ao renunciar ao pensamento, Eichmann destituiu-se da condição de ser dotado de espírito que lhe possibilitaria o descondicionamento e, assim, dizer: não, isso eu não posso.
O mal como renúncia à capacidade de julgar
 O mal banal caracteriza-se pela ausência do pensamento. Essa ausência provoca a privação de responsabilidade. O praticante do mal banal submete-se de tal forma a uma lógica externa que não enxerga a sua responsabilidade nos atos que pratica. Age como mera engrenagem. Não se interroga sobre o sentido da sua ação ou dos acontecimentos ao seu redor. Buscar o sentido não é apenas se informar, não é algo da ordem do conhecimento nem da aferição da eficácia. Trata-se de medir e buscar a estatura do que está acontecendo a partir do crivo da dignificação dos envolvidos. Quem pensa resiste à pratica do mal. A busca da significação encontra muita dificuldade quando a pressa, os mecanismos e procedimentos técnicos, burocráticos e os processos econômicos auto-propelidos engolfam tudo. O praticante do mal banal renuncia à capacidade pertencente aos humanos de mudar o curso das ações rotineiras através do exercício da vontade própria. Repete heteronomamente o seu comportamento. Não se reconhece dotado de vontade, capaz de iniciar, fundar e começar. Ele também não exercita a habilidade, peculiar aos homens, de falar e comunicar o que está vendo e sentindo. Vive sem compartilhar o mundo com os outros. Renuncia, desse modo, à faculdade do julgamento. Em suma, recusa-se a viver com os dons provenientes das suas faculdades espirituais: pensar, querer e julgar.
Ao relacionar o mal ao vazio reflexivo, Arendt aponta para uma possível compreensão da violência nas sociedades contemporâneas. Nessas sociedades, o mal realiza-se na banalidade, na injustiça e nas radicais práticas de violência contra apátridas, imigrantes, mulheres, desempregados, índios, negros, crianças, idosos e a natureza.
A partir dessas teses, vemos emergir, na autora, formas de contraposição ao mal radical e ao mal banal. Na primeira, a autora propõe a recuperação da política, do mundo comum, principalmente, em A condição humana (1958); na segunda, aponta a retomada da dimensão ética em A vida do espírito (1971). Pensar, julgar e querer desembocam no cuidado com o mundo comum, no amor mundi, para usar a terminologia de Arendt, no respeito aos espaços onde os homens podem circular e se sentirem amparados pela presença dos iguais e dos diferentes. Nesse mundo comum os homens mostram que nasceram para começar e não para morrer.

texto 3
Ética e violência:
Reflexões sobre a natureza do mal

MARCONI PEQUENO
Professor do Departamento de Filosofia
e do Programa de Pós-Graduação em Filosofia
CCHLA - UFPb
E-mail: marconip@bol.com.br
Trata-se de refletir sobre a violência, o mal que a engendra e suas implicações no campo da moral. A palavra violência sugere inúmeras significações. Quase sempre seu sentido é tomado de forma pejorativa. Definir um ato como violento significa considerá-lo como algo negativo. Eis o que nos permite de dar uma definição persuasiva do termo, caracterizando como violento aquilo que nos horroriza, constrange, envergonha, ou seja, todo ato moralmente reprovável (Persuasive definitions, Alfred Ayer & Charles Stevenson).

Por outro lado, somente podemos formular uma definição pejorativa da violência se aceitarmos a noção de que se trata de um ato moralmente negativo, ou seja, de um ato que provoca no ser humano um dano qualquer. Uma definição adequada do termo violência deve, pois, justificar o julgamento que considera um ato violento como um fato moralmente negativo. Porém, toda violência pode ser considerada um ato moralmente negativo, mas nem todo ato moralmente negativo se caracteriza como violento.

Costuma-se definir a violência como sendo toda ação intencional que implique a morte de uma ou mais pessoas, o constrangimento, o sofrimento ou lesões físicas e psicológicas contra a sua vontade. Ora, mas existem atos reputados violentos praticados por indivíduos contra si mesmos. O suicídio individual ou coletivo, o ato de imolação com o fogo em sinal de protesto, bem como a greve de fome, são atos executados com o concurso da vontade da vítima. Nesse sentido, o princípio da vontade não garante a adequação do conceito aos casos possíveis.

O constrangimento, da mesma forma, parece ser uma condição necessária da violência, mas não é uma condição suficiente. Toda violência é um ato de constrangimento, mas nem todo constrangimento é violento. A violência não precisa da força física para se manifestar. Aliás, pode ela mesma se expressar sem que se constate a presença de lesões físicas ou psicológicas no indivíduo por ela atingido. A violência, muito dela se fala, pouco sobre ela se reflete.

O uso indiscriminado do termo violência identificando-a com toda espécie de poder coercitivo produz o grave erro de se colocar sob a mesma categoria relações que são diversas entre si pelos caracteres estruturais, pelas funções, pelos efeitos. Por isso, convém diferenciá-la da coação, da opressão, da ameaça, da manipulação do poder e, em particular do poder político. E mesmo que tal poder possa basear-se no exercício e no monopólio da violência legítima, esta não é o fundamento exclusivo daquele. O poder da violência nem sempre se traduz em violência do poder. Nem todo poder é exercido violentamente. O poder age sobre a vontade do outro, a violência freqüentemente sob sua condição física ou psicológica.

Até o momento abordamos o problema da violência de um ponto de vista antropocêntrico, ou seja, do homem que a pratica contra o seu semelhante (homo homini lupus). Mas o que dizer da violência cometida contra o meio-ambiente ou contra os animais ? Deixemos por enquanto de lado este aspecto. Concentremo-nos no caráter humano da violência. Ou seria correto dizer desumano da violência ? O que de humano há na violência ? Poder-se-ia afirmar que a violência é algo que vem do homem é transborda para além do humano ? À guisa de respostas, façamos uma breve digressão à filosofia de alguns autores do século XVII.

Os teórico do contrato social (Locke, Hobbes, Wolff) confrontavam o estado social ao estado de natureza, conferindo a este a responsabilidade pela violência onipresente na espécie humana. Para Hobbes, os homens preferem a tirania do Leviatã à insegurança e à violência do mundo natural. Mas o que de maligno há na natureza ? Em que sentido podemos encontrar nela o mal ? Trata-se de uma realidade inerente à sua constituição ou um valor que elaboramos a partir dos nossos julgamentos e vivências ? Se o mal e o bem estão enraizados na natureza, como o homem poderia ser responsável pela sua bondade ou maldade ? Mas por que consideramos a violência como um mal e a tipificamos segundo sua intensidade, profundidade, amplitude ? Antes, porém, de definir a violência como algo maligno devemos enfrentar uma das mais complexas e inquietantes questões filosóficas : o que é o mal ?

A filosofia em seu primeiro momento compreende o mal como uma espécie de não-ser em contraposição ao ser, expressão absoluta do bem. Os estóicos consideravam bom tudo que existe, enquanto o mau seria a marca do nada, da ausência de substância, da falta de essência. Santo Agostinho, por exemplo, afirmava que “nenhuma natureza é má, sendo que esse nome indica apenas a privação do bem" (De Civitas Dei , XI, 22). Para ele, “todas as coisas são boas, e o mal não é substância porque se o fosse seria o bem” (Conf. VII, 12). Boécio, da mesma forma, associa o mal ao nada, “porque não o pode fazer Aquele que pode todas as coisas”(Phil. Cons., III, 12). Thomás de Aquino, por sua vez, ratifica tal idéia ao afirmar que o mal não pode significar algum ser, alguma forma ou natureza, ele é a ausência de ser, ou seja, de bem. Não-ser, nulidade, irrealidade do mal é a tese que se depreende da atitude metafísica que identifica o ser com o bem.

Uma outra concepção metafísica do mal o considera como um elemento do conflito interno do ser, como a luta entre dois princípios antagônicos. O mal é tanto real quanto o bem, e, como tal, tem causa própria, antitética à do bem. O mal surgiria no seio do ser como uma sombra que desliza em sua superfície. Esta noção tem o mérito de evitar a redução do mal ao não-ser, ao nada, refutando o idéia de que se trata de um fenômeno irreal. A nulidade do mal continuou sendo a tese adotada pela doutrinas que identificam o ser com o bem ou, em termos modernos, com a racionalidade e o dever-ser. O pensamento moral kantiano reflete bem essa nova concepção, acrescentando-lhe uma idéia nova : o mal não apenas é real, com se afigura radical. Para Kant, “os únicos objetos da razão prática são o bem e o mal. Pelo primeiro entende-se um objeto necessário da faculdade de desejar, pelo segundo, um objeto necessário da faculdade de refletir; mas ambos somente segundo os princípios da razão" (Crítica da razão prática, cap. 2). O mal, segundo Kant, exige também o concurso da consciência. Kant, com isso, adere à teoria subjetivista ao julgar que o bem e o mal não podem ser determinados independentemente da faculdade de desejar do homem. Isto significa que eles não são realidade ou irrealidade por si mesmos, como preconizava a noção metafísica.

Kant interpreta o mal radical da natureza humana como um princípio que alicerça o comportamento próprio a todos os seres racionais finitos, levando-os a se afastar ocasionalmente da lei moral. Para Kant, a mal reside nas nossas ações na medida em que damos prioridade às inclinações situado o desejo acima do dever. A questão do mal está circunscrita à esfera da moralidade, posto que remonta à atitude racional do sujeito. Esse princípio revela a nossa possibilidade de transgredir as leis morais elaboradas pela razão. A prática do mal torna-se não apenas possível, mas inexorável já que o mesmo é um elemento constitutivo da espécie humana.

Contra os moralistas clássicos, Kant afirma que o mal não provém da irracionalidade das paixões. As inclinações sensíveis, os desejos são moralmente neutros : eles podem somente fornecer a ocasião para o surgimento do mal. Mas a disjunção do mal da sensibilidade não conduz o filósofo a procurar o mal na depravação da razão, o que faria do homem um ser diabólico, movido pela intenção de fazer o mal pelo mal. Kant não acredita na causalidade do demoníaco. Mesmo horrorizados pelo caráter atroz do mal radical, devemos concebê-lo como algo inerente à espécie. Kant denuncia a boa consciência dos que vêem o mal como algo atípico e anômalo no curso da evolução humana. Porém, o fato de ser próprio à espécie, não torna inimputável aquele que o pratica.

Justamente porque o mal não se encontra numa inclinação, num instinto natural, mas numa “regra que o livre-arbítrio forja para si mesmo visando o uso da sua liberdade” (A religião dentro dos limites da simples razão, p. 39). O mal é radical porque pertence ao domínio da vontade em sua relação ao universal. Não é por originar-se das profundezas da psiquê que ele é radical, mas por ser o fundamento que corrompe o princípio de todas as máximas. Em suma : o mal não é estranho à razão.

Mas a razão que pode nos conduzir ao mal, seria uma verdadeira razão ? Como julgar razoável a prática do mal se sua manifestação tende a conspurcar todos os valores constituídos pela própria racionalidade ? Enfim, estamos diante do seguinte impasse: o que concorre mais para o surgimento do mal no mundo : é a decisão do nosso arbítrio ou é a fraqueza da nossa vontade ?

A prática voluntária do mal nos coloca em face do problema da fraqueza da vontade ou da escolha do pior. Esse problema se apresenta desde o intelectualismo moral socrático que Aristóteles apresenta no livro II de sua Ética a Nicômacos segundo o qual “ninguém age mal deliberadamente”. Ora, temos bastante dificuldade do ponto de vista moral para admitir que o mal possa ser praticado por aqueles que sabem o que é o bem. No entanto, constatamos que certas pessoas têm o prazer em fazer o mal por escolha própria e em fugir ao bem por decisão autônoma. Nesse caso, não vale a máxima de Demócrito para quem “procuramos o bem sem o encontra e encontramos o mal sem o procurar”. Porém, a ação com vistas ao mal seria mesmo decorrente da acrasia, da fraqueza da vontade, da intemperança ou da ausência de controle de si mesmo ? Existe o mal voluntário ? Toda ação malévola está de fato atrelada a uma decisão consciente ? A teoria do silogismo prático tenta responder a essa questão.

A teoria do silogismo prático em sua versão causal propõe que o princípio que rege o mecanismo da ação humana e o raciocínio dedutivo são o mesmo. Assim, toda ação estaria vinculada a uma decisão enquanto causa determinante daquela. Nesse caso, a recusa em agir contra as determinações da reta razão (ortos logos) seria uma contradição. Mas a idéia de contradição pode ser aplicada à relação entre as razões de agir e a ação ? A conclusão (ação conforme a decisão) aparece como um efeito cuja relação com a causa é contingente, provável, não necessária. Eis porque convém falar aqui de relação causal e não de relação lógica. Enquanto isso, a versão lógica desse silogismo sugere que o agente que renuncia a suas escolhas sem ser obrigado a fazê-lo é irracional. O problema é que se ele é considerado irracional não pode ser responsabilizado plenamente pelos seus atos. Para que possamos afirmar que uma má ação foi praticada conscientemente devemos provar que o culpado não estava completamente louco ou destituído de razão no momento em que a realizou.

Se aceitarmos que não há uma relação lógica nem causal entre nossas razões de agir e nossas ações, podemos nos recusar a praticar o que julgamos ser o bem sem ser ilógico e sem deixar de assumir as responsabilidades pelas nossas ações. Podemos, com efeito, afirmar que a relação causa-efeito, ou seja, decisão-ação é contingente ou simplesmente provável, jamais certa. Ou ainda julgar valoroso o bem e mesmo assim praticar o mal sem ser ilógico ou contraditório. Podemos, enfim, pensar com kant contra Aristóteles.

Mas se a prática do mal não é algo necessariamente insano, ilógico ou contraditório, por que nos horrorizamos diante da malignidade de certos atos de violência, ao mesmo tempo em que convivemos com imposturas cujos malefícios são tolerados ? Quando é que a violência é mais perversa ou deletéria em sua malignidade ? É correto ou justo definir o caráter malévolo da violência segundo as interpretações que conferimos às suas repercussões e conseqüências ? Finalmente, pode uma vontade perversa se explicar a partir de motivos inteligíveis ?

O mal é obra da liberdade humana, razão pela qual quem o pratica não pode ser desresponsabilizado. De onde vem o mal ? pode ser uma pergunta sem resposta. Mas, por que fazemos o mal, diz respeito à nossa liberdade enquanto fato inteligível e à sua efetivação na experiência vivida. Em suma : o mal não depende de um espírito maligno para se manifestar.

Hannah Arendt afirma que há situações em que atos monstruosos são praticados por pessoas ordinárias destituídas de toda motivação especificamente malígna ou demoníaca. Em seu livro Eichmann em Jerusalém, ela demostra que o personagem título Adolf Eichmann, o funcionário do mal, o gestor da solução final, não é um inimigo da lei. Ele supostamente não fazia o mal pelo mal. Ele se dizia obediente às ordem, proclamando-se até mesmo como um sujeito kantiano que agia por dever. À radicalidade do mal se opõe a condição de um homem medíocre, desprovido de motivações, incapaz de pensar no outro, usuário de uma linguagem estereotipada, de um discurso confuso. Eichmann era banal porque não era monstruoso no sentido em que ele teria uma intenção diabólica, uma crueldade essencial em cometer gestos desumanos.

Em sua obra O sistema totalitário, a mesma Hannah Arendt qualifica de radical o mal que procede da hipótese de que tudo é possível, compreendendo-se também aqui a idéia de que os homens são supérfluos. Todavia, aos poucos, ela abandona a idéia de mal radical em favor da idéia de banalidade do mal. O mal deixa de ser radical porque não possui profundidade ou dimensão. Deve-se, com isso, recusar o conceito de mal radical e evidenciar a banalidade ou a normalidade de seus autores, mantendo-se o paradoxo atroz e a ameaça aterradora de se viver num mundo onde homens ordinários podem se transformar em assassinos monstruosos. A mudança da noção de mal radical para a de banalidade do mal permite que se reflita sobre a personalidade desse novo tipo de criminoso : o inimigo do gênero humano em carne e osso.

Arendt não minimiza o mal ao banalizá-lo, ao reenviar o seu autor à comunidade humana. Ao contrário, a incomensurável monstruosidade do mal radical repousa sobre a aparente normalidade dos criminosos. Este é um dos mais trágicos paradoxos dos nossos dias : é mais fácil ser vitima de um diabo com formas humanas, do que de uma entidade metafísica que exala malignidade.

Mas tanto é perigoso afirmar que existe um mal inato, quanto acreditar que há um Eichmann em potencial a repousar em cada um de nós. Não se pode diluir o horror numa espécie de culpa universal que dissolve toda culpa particular : se todos são culpados, ninguém é culpado; se ninguém é culpado, ninguém é responsável. Não podemos nos identificar com a normalidade desses criminosos. Certos gestos não devem ser compreendidos, pois em algumas situações compreender o mal significa às vezes justificá-lo. Paul Ricouer afirma que “o mal exige uma explicação, mas como o tempo o mal não pode ser completamente explicado. Há um ponto para além do qual o mal pode ser apenas contado, narrado, descrito por intermédio da história, dos mitos, da ficção” ( Le mal : un défi à la philosophie et à la théologie). Ora, vimos que não é o mal extremo ou banalizado que o torna radical, mas o fato de ele provir da nossa liberdade. Mas o fato de ser oriundo da nossa liberdade nem sempre o explica O mal exige uma interpretação a partir de onde cai por terra toda explicação. O mal desafia o pensamento, pois o pensamento busca a explicação e, no caso do mal, ele pode encontra apenas ausência de explicação. O mal coloca em falência a potência da explicação.

O mal radical, ao revelar o que os homens são capazes de fazer ao semelhante, instala a possibilidade do inumano no humano. Com o mal radical, enquanto obra da liberdade dos homens, desaparece a medida do humano, já que elimina a capacidade de o indivíduo viver e dividir a sua existência com o outro. A natureza subjetiva do mal nos coloca ainda em face do problema referente à prática voluntária da perversidade. Significa dizer que a profilaxia do mal, o desejo de supressão da barbárie tão-somente nos conduz para fora do universo humano. A assepsia do mal não mata o bacilo da maldade, apenas antecipa outra tipos de desastre.

Mas se isto é verdade e se os fenômenos totalitários são, como pensa Hannah Arendt, o marco do nosso século, como podemos nos conciliar com um mundo onde tais acontecimentos são sempre possíveis ? Ou ainda, se o mal pode ser controlado, mas jamais extirpado, se ele pode ser contido, mas jamais abolido, se, enfim, a nossa disposição para o bem não é soberana para arreferecer a nossa propensão para o mal, como podemos de fato acreditar no progresso moral da humanidade?

Tais perguntas se impõem porque o aniquilamento do homem orquestrado pelo Estado é o símbolo maior do caráter bestial da violência humana neste século. Mais ainda porque a partir de tais eventos ficou difuso o traço comum da humanidade que nós julgamos possuir. A violência para além do humano, a constatação de que existem diabos com formas humanas : eis o que nosso século nos legou. O escritor Primo Levi, sobrevivente do holocausto em seu livro Si c’est un hommme afirmava: “não podemos nem devemos compreender a motivação de certos atos violentos sob pena de nós nos identificarmos com aqueles que o praticam ou nos vermos um dia no lugar daqueles que o sofrem” (Primo Levi, 1964: 58). Então como podemos aceitar aquilo que não pode ser compreendido ? O espanto e a perplexidade talvez sejam as únicas posturas que nos restam diante da barbárie humana.

Até porque sabemos que no teatro de horrores que marcou o nosso século, muitos cenários foram esculpidos pela dor, muitas paisagens foram delineadas pelos desencanto. A violência não deixou de ser personagem principal nesse drama. O roteiro do macabro parece não ter fim. Depois que a violência se esvai ao cumprir o seu desígnio, o mundo se revela um palco composto de um amontoado de escombros. 

Antígona, personagem título da celebre tragédia de Sófocles, já vaticinava: “numerosos são os demônios da natureza, mas de todos eles o mais demoníaco é o homem”. Os gregos, é certo, já previam : o trágico dominou a história e a transformou não em destino, mas em terror. O terrível assume a feição disso que o homem faz ao outro, aniquilando-lhe a humanidade, edificando o templo do inferno na terra, fazendo com que ele desapareça ainda que permaneça vivo : o que é pior do que a própria morte. Por isso, convém perguntar : como fazer avançar a nossa humanidade se, diante da violência e da banalidade do mal, não sabemos nem mesmo identificar o que de humano ainda resta em todos nós ?
http://www.dhnet.org.br/direitos/codetica/textos/pequeno_etica.html 

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