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quinta-feira, 3 de junho de 2010

a sociedade do conhecimento.

Saber Global: Centro e Periferia na Sociedade do Conhecimento
foi o tema do Seminário Internacional promovido pela Secretaria Especial do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social em parceria com o Ministério das Relações Exteriores e das Comunicações nos dias 24 e 25 de setembro, em Brasília.
Nos painéis e oficinas discutiu-se a globalização do saber na era da revolução informacional. A partir do documento inicial "Carta pela Democratização Universal do Saber: do Trabalho-Ferramenta ao Trabalho-Conhecimento", algumas idéias que poderão inspirar a discussão de políticas para a democratização do conhecimento foram apresentadas.
No seminário, estiveram presentes representantes de diversos ministérios e do parlamento para indicar que a questão do conhecimento é estratégica para o governo, para o desenvolvimento do país e para a democracia.
Por isso, requer investimentos e agendas dirigidas. Deste seminário internacional, entendido como fase preparatória, se requereu o passo inicial: a formulação de enunciados que explicitem os focos principais a serem abordados de agora em diante e que poderão influenciar futuras políticas governamentais.
Dentre os inúmeros méritos dessa iniciativa, destaco:
- o reconhecimento de que há uma inteligência operando no país e que é preciso agenciar espaços para que ela possa ser efetivamente coletiva;
- a tentativa de superar o cotidiano burocrático do fazer governamental para que ações do governo se adaptem a um mundo novo, que não é só o da política;
- os esforços para compreender como as mudanças tecnológicas atropelam as tradicionais instituições produtoras e difusoras de conhecimento que, impactadas, descobrem que seus velhos formatos geralmente não cabem nos modelos institucionais exigidos pela aceleração da produção do saber;
- a afirmação de que o conhecimento é a forma, por excelência, do capital contemporâneo, e que se traduz na produção tecnológica, científica, cultural e artística;
- a ênfase na idéia de que o conhecimento requer investimentos em educação que, por sua vez, já não pode seguir os velhos padrões e formatos que não são adequados às mudanças do mundo;
- o pressuposto de que o conhecimento é um bem imaterial que pode florescer sob condições macroeconômicas satisfatórias, porque os processos de internacionalização e globalização são irreversíveis, mas que exige também outras políticas que desenvolvam o imprescindível capital humano;
- a compreensão de que o valor do conhecimento aumenta à medida que integra pessoas que tenham competência não só para fruir mas também para produzir conhecimento.
Conhecimento e valor são temas indissociáveis
A aceleração do conhecimento produziu mudanças altamente significativas na forma de nos relacionarmos com o mundo de hoje. Não só nossos parâmetros de tempo e espaço se redefinem, mas assistimos a um processo de reorganização produtiva que aponta, inclusive, para um cenário de revolução similar e subseqüente à Revolução Industrial.
Reorganização produtiva que provoca deslocamentos freqüentes do capital e do mercado de trabalho, deles decorrendo impactos sobre o poder político e militar, sobre a cultura, o comportamento e o consumo, como explicou na mesa de abertura o secretário geral das Relações Exteriores, Samuel Pinheiro Guimarães.
Embora muito se saiba sobre os impactos que esta mudança acelerada no universo da C&T tem provocado, fica a pergunta, deixada no seminário pelo ministro das Comunicações Miro Teixeira: o avanço tecnológico está produzindo a inclusão e a igualdade?
Como 'o Brasil não sabe o que sabe' , como se constatou no Seminário, há que se buscar esses nossos tesouros enterrados, nossa inteligência. Daí a importância dos processos de Gestão de Conhecimento para que este saber disperso se revele, possa ser sistematizado e transformado em valor.
E o valor do conhecimento se traduz em patentes, em propriedade intelectual ou industrial. Mas com isto não se pode perder de vista que muito do conhecimento é e pode ser construído como um bem público que todos desfrutem.
Portanto, conhecimento disperso, enclausurado, não utilizável ou manejável não se traduz, necessariamente, em valor, como explicitado no documento Carta pela Democratização Universal do Saber: Do Trabalho-Ferramenta ao Trabalho-Conhecimento.
Um pouco do que foi apresentado
O conjunto dos painéis ofereceu uma idéia da variedade e complexidade de questões que estão postas para este governo debater com os vários setores especializados.
O objetivo final é estabelecer a agenda, verde ainda porque nova, como lembrou o representante da presidência da Câmara, para a condução de políticas públicas que devem colocar ou, na melhor das hipóteses, manter o Brasil no caminho da Sociedade do Conhecimento.
O mesmo deputado lembrou, no entanto, que política de concerto nacional não é política de governo, mas pode inspirar as políticas de alguns ministérios.
Alguns reflexos do Fórum Social Mundial estiveram presentes nas expressões No-Global x Know-Global. Ou seja, refletir sobre a tendência de organizar a economia e a sociedade, sem negar a globalização, mas, a partir disto, se estruturar políticas sociais que não sejam tão perversas como as da globalização. Neste sentido, a ação do Estado tem um aspecto crucial.
Mercado Livre do Saber e Nova Educação
Não se ignora que o conhecimento insere-se num mundo globalizado, de acelerado progresso da C&T. Embora esteja ligado à existência de uma estrutura física de produção, o conhecimento que agrega valor é, sobretudo, imaterial, traduzido principalmente nas marcas e patentes.
Desta sua apropriação intelectual temos um paradoxo: ao mesmo tempo em que a propriedade pode vedar o acesso de muitos ao conhecimento, tal apropriação permite que o valor se efetive para que possa, dentre outras coisas, gerar mais conhecimento.
No painel No-Global X Know-Global: Riqueza e Democracia na Era do Conhecimento, o professor italiano Umberto Sulpasso, presidente da International Multimidia University, discutiu a Economia do Saber uma forma de permitir a circulação ampliada do saber, idéia utópica porém não irrealizável.
Um saber que é mercado permanente, pois não acaba nunca, portanto, tem fonte e recursos inesgotáveis, ao contrário das fontes materiais. O saber não desaparece e quanto mais consumido mais se multiplica e, além disso, aprimora todos os processos produtivos.
Para criar este Mercado Livre do Saber, tal como sugere Sulpasso, a Universidade deve se conceber como uma das principais produtoras e difusoras do conhecimento.
Não é, portanto, por acaso que Sulpasso é presidente da Universidade Virtual Multimídia, que congrega 200 instituições dos países mediterrâneos, um projeto que visa estender o conhecimento universitário além das fronteiras territoriais.
Projetos como esses vêm ganhando forma na multiplicação nos processos de virtualização de várias Universidades pelo mundo todo, a exemplo do que faz o portal Universia Brasil, do Banco Santander, não por acaso um dos patrocinadores do evento.
Como no Brasil, grande parte do conhecimento se produz em Universidades públicas, estas deveriam tomar para si o compromisso de produzirem esta 'virtualização' do conhecimento, ou seja, engendrar formas de divulgação mais ampliada e pública do conhecimento.
Esforços que estão sendo conduzidos pelo programa Cidade do Conhecimento, e que foram apresentados no Seminário, enquadram-se nestas novas formas de interação possíveis entre a Universidade e a sociedade, através da criação, incubação e desenvolvimento de projetos por meio de redes digitais colaborativas.
Rumos a seguir
Os inúmeros expositores e debatedores trouxeram temas, enfoques e pontos de vista plurais que auxiliarão no estabelecimento de alguns consensos sobre os rumos a seguir.
Por isso, esse Seminário não se encerrou nos dois dias em que foi apresentado. A partir dele foi constituído o Comitê Gestor da Comunidade Virtual Saber Global, que continuará trabalhando virtualmente para melhor estabelecer e clarear o que emergiu como indicativos importantes de uma agenda das políticas a serem estabelecidas.
Os membros deste Comitê são:
Rogério Santanna - secretário executivo do E-Gov; Rodrigo Assunção - da secretaria de Logística e Tecnologia da Informação - MPOG; Zuhair Warwar - Cgecon; Marcos Dantas - Ministério das Comunicações; Daniel Balaban - Sedes/PR; Gilson Schwartz - Cidade do Conhecimento/USP.
Para dar mais um passo no amadurecimento das idéias e projetos possíveis, uma nova reunião será agendada no primeiro semestre de 2004.
por Profª Elizabeth Rondelli
Professora da UFRJ.Publicado na íntegra a partir do site I-Coletiva

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Educar para uma civilização planetária

Ubiratan D’Ambrosio *
Este é um roteiro para estimular e orientar as reflexões que farei sobre a possibilidade de uma visão humanística da educação reflexiva, conciliando o que chamamos as ciências exatas e a tecnologia com o que costumamos chamar ciências humanas. Como fruto de uma excessiva especialização e um certo deslumbramento com os assombrosos avanços das ciências e da tecnologia, criou-se a imagem de duas culturas: as ciências e tecnologias e as humanidades. Essa dicotomia é falsa e a sobrevivência da civilização no planeta Terra depende de reconhecer esse equívoco.
Cenários sócio-político-econômicos para o século
Um século é um período longo. No decorrer deste século deve haver o surgimento de uma nova ordem social, política e econômica. Estamos vivendo esse processo, embora muitas vezes se tenha a impressão de ser impossível mudar.
É evidente a fragilidade da atual organização da sociedade, na qual os excluídos logo serão a maioria da população. É necessário reverter o quadro, indo em direção à não-existência de excluídos. Em outros tempos, o confinamento e a eliminação eram as práticas para lidar com a presença incômoda de indesejáveis. Hoje, essas soluções são impraticáveis e as sociedades deverão evoluir para permitir que todos se beneficiem da civilização moderna. Muitos dizem que sou um otimista ingênuo. Há indicadores dessa tendência. A análise da história da humanidade mostra a irreversibilidade dessa tendência, embora esse não seja um processo linear. Há altos e baixos. Sem dúvida, estamos vivendo um momento de baixa. Mas essa análise não pode ser feita num período curto de tempo.
Sobre a educação
O sistema político funciona ancorado em duas bases: legal (Constituição, leis, códigos, normas, regulamentos e semelhantes) e representativo (Executivo eleito, parlamentares eleitos e, cada vez mais, cargos burocrático-administrativos preenchidos por eleição ou concurso – que é uma variante de eleição). Os resultados nesse processo de escolha para a gestão da sociedade dependem, em grande parte, de educação.
A educação atual está tendo como grandes objetivos a inclusão das populações no mercado de consumo e alguns indivíduos, selecionados, no setor de produção. Surgem marginais e excluídos, graças à ineficiência da educação. Desses marginais e excluídos, que crescem em número, surgirão os elementos capazes de mudar a sociedade. O progresso “corre por fora”, a reação se organiza no sistema.
Sobre a economia
A economia baseada no capital e no sistema de produção capitalista só pode prosseguir com melhoria de poder aquisitivo por maior número de indivíduos. O capital, que cresce baseado num sistema de juros, acarreta má distribuição de riquezas. A produção, que com o desenvolvimento tecnológico aumenta e ao mesmo tempo gera desemprego, gera uma contradição insustentável entre emprego e salário. Indicadores dessa contradição são os chamados salário-desemprego, renda mínima e as permanentes argumentações a favor do aumento de salário-mínimo como necessário para aumentar o poder aquisitivo. Simplesmente, o aumento da produção não pode se dar sem aumento de consumo. Em outras palavras, sem aumento de poder aquisitivo e de capacidade de consumir, o capitalismo não se sustenta. Salário está diretamente ligado a poder aquisitivo. Educação está diretamente ligada à vontade e à capacidade de consumir.
A questão maior a ser resolvida é: “combinar menos horas de trabalho com mais empregos e maior poder aquisitivo”. As teorias econômicas conhecidas são incapazes de lidar com essas contradições. Indicadores dessa incapacidade são os desencontros e desmandos de propostas de escolas econômicas diferentes. Uma nova economia se faz necessária. Provavelmente substituindo capital por produção participativa.
O futuro
Em 1993 foi criado o Instituto de Estudos do Futuro, como resultado de um grande evento internacional “Educação do Futuro/Educação para a Paz” realizado em 1992 no Memorial da América Latina, em São Paulo. A Comissão Organizadora decidiu, após o evento, manter-se ativada, analisando e fazendo avançar as idéias e propostas ali apresentadas. A forma de se manter ativada foi a criação de um Instituto, sem sede permanente, sem quadros permanentes, sem fins lucrativos, aberto a todas as posições ou opiniões expressas em caráter pessoal, jamais preocupado em algo que representa consenso, exceto o fato de todas as posições e opiniões terem como objetivo atingir paz para a humanidade, paz em todas as suas dimensões: paz interior, paz social, paz ambiental e paz militar. Pretende-se agir como a consciência daqueles que têm poder de decisão.
Não há como propor um modelo substitutivo dos modelos vigentes, em qualquer área. É possível procurar, num enfoque transdisciplinar, entender a condição humana, as condições da sociedade e da economia, sugerindo medidas para atingir a paz total, nas suas dimensões cósmica, planetária, social e individual. Acredito na possibilidade de um futuro com dignidade para toda a humanidade.
As mudanças profundas são o resultado de um processo. Não há mais possibilidades de grandes revoluções. Os meios de informação, de comunicação, de transporte, isto é, a globalização efetiva, tornam inviável uma revolução radical. Além do que revolução significa uma substituição de poder e, como a história nos ensina, o novo poder entra no mesmo comportamento. O poder, no sentido tradicional, é inviável na globalização. A transição para um novo modelo, na linha daquele sugerido acima, está ocorrendo. Há evidentes indicadores dessa transição. É uma transição lenta. Num momento avança um pouco, há um progresso, logo vem a reação e há um regresso. Mas o regresso nunca elimina todos os ganhos do progresso. O saldo é positivo e esse saldo, acumulado, é o que define o novo cenário. A transformação é permanente. Aqueles que têm poder de decisão deveriam ser capazes de antecipar o que será o saldo residual inevitável, isto é, o novo cenário, e incorporar esse novo na sua prática de hoje. Em outras palavras, perceber o futuro. É nisso que os estudos do futuro, como uma especialidade acadêmica, pode ajudar. É ingênuo o líder (político, dirigente, educador) que não busca essa ajuda.
A depredação do hábitat
Há inúmeros estudos técnicos sobre a possibilidade de reversão do quadro de degradação e destruição ambiental que estamos vivendo. Mas os processos, embora tecnicamente conhecidos e relativamente simples, são longos, mais que o período que os torna atrativos para os políticos. Como dependem de decisão política, esses processos não são deslanchados. Mas serão inevitáveis ações ambientais decisivas. Por exemplo, a contradição entre a qualidade e suntuosidade dos edifícios que estão sendo construídos nas marginais torna intolerável o convívio das empresas ali instaladas com o rio poluído. Terá que ser resolvido. Ao se resolver isso, estará sendo encaminhada a solução dos problemas que afetam as populações marginais nas cercanias do rio. O empecilho é uma legislação arcaica, um Judiciário lento e inoperante, e quadros políticos muito vulneráveis.
Haverá condições de evitar a catástrofe? Acredito que sim e estamos próximos à conjugação de interesses da economia com o fortalecimento dos poderes públicos, o que tornará possível corrigir o quadro atual. O caminho mais seguro continua sendo a educação. Mas obviamente uma outra educação, de caráter transdisciplinar, objetivando criatividade e crítica. Quando falo em educação, estou me referindo à educação de crianças, jovens e adultos, incluindo daqueles já em posição de decisão. Nessa educação, tanto de crianças como de jovens e adultos, o papel da mídia é fundamental.
A ciência e os cientistas estão ainda presos aos modelos cartesianos e newtonianos, já desgastados e evidentemente incapazes de lidar com a complexidade do mundo moderno. Há um grande progresso com novos estudos no mundo científico, que surgiram na última metade do século XX, sob denominações as mais diversas: teoria das catástrofes, teoria do caos, teoria de sistemas, complexidade, transdisciplinaridade. Aos poucos, essas teorias vão se incorporando ao mundo acadêmico. É o progresso. A reação se organiza e cientistas tradicionais tentam barrar esses avanços. É o regresso. Mas, como eu disse acima, o saldo é positivo, e se notam grandes transformações no mundo acadêmico e escolar. E, como conseqüência, o cotidiano, as empresas e os sistemas de produção vão avançando com relação à imobilidade e à reação do mundo acadêmico.
Ainda sobre a educação
Um indicador da inocuidade das reações e protestos do mundo acadêmico e dos setores mais conservadores é a grande expansão dos sistemas privados de educação, que prosperam porque respondem mais rapidamente às demandas do mundo atual, sobretudo respondendo às necessidades dos setores empresarial e de produção. Sobretudo na educação superior, o discurso dominante, de uma qualidade arcaica, vai se esvaziando. Parece intolerável o convívio do mundo fora da escola e do mundo escolar. O exemplo dado acima, de poluição de rios, serve também para descrever os problemas da educação. Embora sabendo o que deve ser feito, o processo é longo, mais que o período atrativo para políticos. O apego ao tradicional se manifesta, sobretudo, nos mecanismos de credenciamento e de avaliações (“provões”) alimentados pelo Ministério de Educação. São mecanismos arcaicos e insustentáveis que, além de retardar o progresso, dão uma aura, falsificadora, de seriedade no lidar com os problemas educacionais.
O salto de conhecimento para o qual o homem está se preparando para dar, ainda que inconscientemente, é resultado de toda a sua evolução biológica e intelectual.
A evolução biológica e intelectual continua. Comportamentos e conhecimentos estão em permanente evolução e, como não pode deixar de ser, são contextualizados, inseridos na totalidade em que estamos imersos. Hoje dispomos de poderosíssimos instrumentos materiais e intelectuais para captar informações de uma vastíssima porção da realidade, processar essa informação e compartilhar o resultado desse processamento praticamente com toda a humanidade. Hoje cada indivíduo pode compartilhar conhecimentos e compatibilizar comportamentos com um número surpreendente de outros indivíduos espalhados pelo planeta. Esse número deve crescer, chegando eventualmente a atingir toda a humanidade. Inconscientemente, estamos incorporando esse compartilhar conhecimentos e compatibilizar comportamentos na nossa evolução biológica e intelectual. Estamos, inconscientemente, chegando à civilização planetária.
Inúmeras evidências nos são dadas pela história e servem de base para minhas críticas e observações sobre o presente. A análise do passado serve de apoio para minhas reflexões otimistas sobre o futuro.
NOTAS:
* Professor Emérito da UNICAMP.

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