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quinta-feira, 10 de junho de 2010

A rebeldia está na moda

A rebeldia está na moda. Sempre.

por ligiabragac - 19/08/2008

Juventude e rebeldia estão diretamente ligadas. E outro elemento completa o conjunto: a moda. Em entrevista, os professores Mauro Jeonymo e Dulce Gomes explicam esses fenômenos e suas relações.

No primeiro semestre de 2008 o Centro de Extensão da Escola de Belas Artes (Cenex-EBA), oferta como um de seus cursos " Culturas da Rebeldia - A Construção de Estilos ". Com o interesse social de estudar os grupos jovens e a forma como interagem, o sociólogo Mauro Lúcio Jeronymo iniciou pesquisa a respeito das subculturas jovens e como estas exploram suas rebeldias, influenciando a sociedade e o contexto em que surgiram. Um dos principais focos da pesquisa é a moda, relacionando as propostas dos grupos a sua maneira de vestir. Dentro do curso de Estilismo da EBA, a professora Dulce Gomes também realiza trabalhos sobre o assunto.

Nessa entrevista, os dois falam sobre a relação entre juventude, rebeldia, moda e a sociedade.


Quais interesses influenciaram essa pesquisa?

Mauro Jeronymo O que me motivou, inicialmente, foi a busca de compreender aquilo que alguns denominam "tribos urbanas", nos dias de hoje, e que de forma mais ampla é chamada de subculturas jovens. O que observamos, é que há sempre algo em comum nestas subculturas, que é a rebeldia, que pode ser entendida como a forma de se excluir, mas mantendo a busca por uma inclusão.


Por que direcionar a pesquisa sobre rebeldia à área da Moda?
MJ Um elemento presente no contexto da rebeldia social é o modo de vestir, esse vestuário – entendido de maneira bem ampla, englobando não só roupas, mas também adornos, acessórios, etc. - é uma forma de identificação entre eles e consequentemente uma diferenciação do restante, e isto nos remete à moda, onde temos um processo de apropriação de elementos e estilos dessas subculturas.

Dulce Gomes Moda é um mecanismo decodificador de comportamentos e expressões de grupos, que, ligados por ideologias comuns, adotam posturas e adornos que marcam uma intenção de linguagem e manifestação social. A moda não é uma só, mas varia de acordo com os diversos grupos sociais, quase que individualmente.

MJ A intenção é trazer essa discussão, propondo uma reflexão para o campo da moda. Muitas vezes os profissionais da área da tendem a se achar fora, pairando sobre a sociedade. E na verdade, hoje a moda é um dos fenômenos que mais influenciam a sociedade.


A indústria da moda, que populariza as influências das subculturas, faz com que a rebeldia perca seu valor?
MJ Observamos que a indústria da moda se apropria desses comportamentos e o que acontece é um deslocamento, um esvaziamento dessa rebeldia. Por exemplo, os punks surgiram dentro de um contexto político, social, dentro da Inglaterra. Havia desemprego, eles estavam se sentindo excluídos. Eles começam então a fazer roupas de sacos de lixos, tentando fugir do padrão anterior, os hippies e seu estilo mais orgânico, trabalhando agora com o artificial, o sintético. Na medida em que a moda começa a se apropriar desse estilo, o punk hoje não tem a ver com o punk original, dos anos 70.

DG Como são comuns em movimentos urbanos, esses punks usavam o espaço publico como palco para se afirmar enquanto grupo. Eram roupas espalhafatosas, o comportamento desagradável. E com isso eles garantiam visibilidade em uma sociedade que não dava espaço ao jovem. O grupo punk não queria apenas se expressar, queria também incomodar e abalar as estruturas vigentes. E depois de um tempo, essa rebeldia se tornou estilo, como referência, sendo apropriada pela indústria da moda, interpretadas pelo mercado, originando as propostas de moda como as conhecemos, ou seja: cores, formas volumes, acabamentos...

Um comportamento que nasce como intenção de manifestação de pequenos grupos, quando transformado em produto, é massificado, e uma linguagem nata como sinal diferenciador, torna-se com a moda sinal de igualdade. E durante o percurso "tendência de comportamento/tendência de moda" muitas das características originais das manifestações comportamentais se perdem e outras são inseridas visando sempre atingir um maior número de pessoas.

E como os jovens de hoje exploram sua rebeldia?
MJ Atualmente na sociedade nós temos o coletivo atritando com o individual. Ao mesmo tempo em que o jovem está na busca de se individualizar, ele acaba se inserindo em algum coletivo. O jovem quer ser único. Mas também quer se identificar. E a sociedade nos força a consumir. Na medida em que consumimos, existimos, nos conformando com isso.

DG Enquanto nos anos 80 a cultura da aparência era adotada por quase todos, o estilo de vida era definido através do comportamento de consumo, a grife era símbolo de status social e a publicidade atingia seu ápice de poder condicionante, nos anos 90 o consumidor começa a ser mais restrito e desconfiado, hoje o consumidor é cada vez mais consciente e posicionado diante do mercado. Já não existe um modelo de comportamento específico, um modelo de consumo específico. A sociedade está se preocupando com a qualidade do ambiente, com a qualidade dos relacionamentos e com a qualidade de vida.

A grande exceção são os jovens. Quer adolescentes ou na faixa de 18 a 24 anos, que têm uma conduta hiper consumista, não tanto em gastos com produtos, mas com um projeto de vida que valoriza bens materiais e os prazeres da vida. Os jovens escolhem bens ostentativos, tem prazer em gastar e são atraídos pela novidade. E nessa conduta eles buscam se expor.

MJ E a reflexão da rebeldia não fica restrita ao meio da moda. Existem grupos hoje em dia, como os Yomangos (que se apropriam de bens, como uma forma de desobediência, com o lema “você quer? você tem.”) e os Okupa, inspirados nos Squatters ingleses, (que ocupam casas desabitadas como forma de protesto ao difícil acesso a moradia, fazendo desses espaços, muitas vezes, centros sociais), grupos que tiveram início na Espanha e expressam sua rebeldia de uma maneira comportamental e essa subcultura já está se espalhando pelo mundo.

Hoje os lugares que podemos encontrar os jovens mais aglomerados são os shows de rock e as festas rave, ambas muito destrutivas. Acredito que os jovens deveriam se unir para fazer coisas mais construtivas, não comparecendo a um local para realizar um evento único, solto. E é muito o “aqui, agora, pronto, acabou”, muito dessa época. Mas a cultura da nossa sociedade está muito individual, portanto condicionando esse tipo de postura no jovem. Sinto falta do coletivo.

Os jovens se sentem mais deslocados, o mundo não é como eles querem ou imaginam. Aí eles se rebelam das mais diversas formas. Com o tempo eles vão se adaptando e se incluindo, e a rebeldia deixa de existir. Ninguém é rebelde a vida toda.


Para mais informações a respeito do curso “ Culturas da Rebeldia - A Construção de Estilos ", com o professor Mauro Jeronymo, entre em contato com o Cenex-EBA (31) 3409 5256.

http://www.fafich.ufmg.br/tubo/producao/agencia/universidade/cobertura-2008-1/a-rebeldia-esta-na-moda-sempre/

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