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quinta-feira, 24 de junho de 2010

Para leitura. O falso necessário, Umberto Eco

http://www2.uol.com.br/entrelivros/artigos/o_falso_necessario.html

por Umberto Eco

Templo de Paestum, construído em homenagem a Netuno
Leio nos jornais e na internet que em Albanella, a 20 km do templo de Paestum e a 60 km do templo de Velia, vai ser construído, com despesa de 1 bilhão e 500 mil euros, um parque arqueológico chamado Megale Hellas (que afinal significa Magna Grécia) com um templo falso, mas íntegro, todo em concreto revestido de travertino. Quem polemiza com a iniciativa diz que a poucos quilômetros dali há um templo verdadeiro do século IV-V a.C. dedicado a Demétria, e que ninguém pensa em trazê-lo à luz. Quem apóia a iniciativa pensa, ao contrário, em um fluxo turístico maior do que aquele que os templos verdadeiros – para dizer a verdade todos um tanto desbeiçados – permitem, e há de ter em mente a Veneza reconstruída em Las Vegas e talvez até as diversas Disneylândias: todas iniciativas das quais podemos dizer o que quisermos, menos que não atraiam pessoas (e dinheiro).

Compreendo a reação dos que se escandalizam com o fato, e sinto contribuir para sua perturbação ao afirmar que todos deve¬ríamos ser mais que favoráveis a essas empreitadas, e precisamente para salvar nosso patrimônio artístico.

De fato, noutros tempos os lugares sagrados das artes e da história eram visitados apenas por viajantes aristocráticos e o caso inspirava algumas reflexões melancólicas, não só por motivos de justiça social, mas também porque para aqueles viajantes enfeitiçados estava muito bom que igrejas e palácios estivessem caindo aos pedaços, as grandes telas abandonadas em sacristias para lá de úmidas, as estátuas antigas incrustadas de liquens. Depois teve início um turismo “burguês”, sempre de elite, mas representado por centenas de milhares de viajantes cultos e sensíveis; para ir ao encontro de suas exigências, os lugares e as peças artísticas foram restaurados, e aquele fluxo turístico levou benefícios econômicos a povoados e cidades.

Em uma terceira etapa, com o advento do turismo de massa, metrópoles e lugarejos talvez tenham incrementado suas entradas, mas ficaram mais feios e emporcalhados, virando lixões de latinhas de Coca-Cola e saquinhos de plástico. E quanto às obras de arte, sabemos perfeitamente que a respiração de milhões de visitantes não raro as coloca em perigo, e se o pé de certas estátuas de santos já está alisado e deformado pelo toque contínuo dos fiéis, nem sequer as pirâmides poderão agüentar muito tempo mais o diário arrastar de pés de seus visitantes.
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Umberto Eco é professor de semiologia da Universidade de Bolonha, na Itália, e autor, entre outros, de A misteriosa chama da rainha Loana, Baudolino, O nome da rosa e o pêndulo de Foucault

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