Total de visualizações de página

segunda-feira, 21 de junho de 2010

olhar em Blade Runner


Marcelo Afonso*

“History is hysterical; it is constituted only if we “look”
at it, excluded from it. That is, my mother before
me – history. History / Mother / My Mother.
‘My mother? I’ll tell you about my mother...’ ” 1 .
A imagem desempenha um papel primordial na sociedade de hoje. Vivemos na era da virtualidade dos mundos representados como criações rudimentares (rudimentares por enquanto) de uma nova dimensão. Aos poucos o ser humano foi se virtualizando, procurando fora de si aquilo que não conseguia obter em seu interior, projetando todos os seus anseios e aspirações para a efemeridade do ciberespaço. Tudo isso às custas de substituição dos antigos padrões. Temos agora imagens no lugar de objetos e máquinas no lugar de homens. “Hoje, com a industrialização da imagem, a imagem pensa em nosso lugar. Havíamos feito da imagem nossa morada, doravante ela faz de nós a sua morada, uma morada onde o hóspede há muito tempo passou a ser um convidado indesejável”.2

Com a representação dos significados universais através de imagens, o sujeito também passou a ser representado, isto é, a imagem reproduz objetos e se autoreproduz como extensão das próprias interações dos homens entre si e com o mundo em que vive, criando assim uma realidade paralela, icônica, onde tudo é possível. A imagem passa a ser mais real que o objeto que a originou, mais humana que os humanos. “Desde o momento que a imagem passou a se reproduzir, ela passou a reproduzir o sujeito: a imagem na era da sua reprodutibilidade técnica é a imagem na era da automatização do sujeito”.3

A História perde o passo na sociedade da imagem, uma vez que só aquilo que pode ser representado torna-se “vivo” e, assim, objeto histórico. É, segundo Virilio, a chamada “era da lógica paradoxal da imagem”.4 A memória é delimitada pela evidência imagética, pelo registro representando a realidade através de fotografias, gravações em vídeo ou filmes. O termo “memória fotográfica” passa a ter outro significado nos dias de hoje. Não acreditamos mais tanto no que interpretamos, mas sim naquilo que nos foi interpretado e simulado por certas imagens.

Junto com esse novo “olhar”, que “vê” por nós, desenvolvem-se as novas tecnologias de produção de realidades representadas, de automação da percepção, máquinas de visão que funcionam como extensão do corpo humano. Além de representarem as imagens da realidade visível e de criarem realidades artificiais, as novas tecnologias foram desenvolvidas para que se possa ver além daquilo que o olho humano é capaz de capturar. Telescópio, microscópio, radiografia, fotografia, cinema, televisão, radar, vídeo, satélite, fotocopiadora, ultrassom, ressonância magnética, holografia, raio Laser, fax, computação gráfica e muitas outras técnicas tiveram o apogeu de utilização na segunda metade do século XX, criando-se um bombardeio de imagens e clichês que, reunidos, resultaram no mundo “real” de hoje.

Em Blade Runnerencontramos todos os aspectos dessa supervalorização da imagem que se desenvolveu de forma mais ampla na segunda metade do século XX, principalmente nas últimas duas décadas.
Os olhos
“Não vês que o olho abraça a beleza
do mundo inteiro? (...) É a janela do
corpo humano, por onde a alma especula
e frui a beleza do mundo, aceitando
a prisão do corpo que, sem esse
poder, seria um tormento (...)
Ó admirável necessidade! Quem
acreditaria que um espaço tão
reduzido seria capaz de absorver
as imagens do universo?”.

Leonardo da Vinci
O simbolismo referente ao olhar está diretamente ligado a toda a narrativa do filme Blade Runner. Vejamos inicialmente as cenas em que ocorre a preocupação de Ridley Scott e do roteiro com esta questão, através de determinadas passagens:

• A seqüência de abertura do filme traz, como uma das primeiras cenas, um olho em enquadramento fechado, no qual se vê o reflexo de luzes da Los Angeles de 2019;
• Logo em seguida, outras tomadas em enquadramento fechado do olho de Leon, que estava sendo submetido ao teste Voight-Kampff;
• Os óculos do Dr. Eldon Tyrell possuem lentes de grossa espessura, e produzem o efeito de aumentar o tamanho de seus olhos;
• Os olhos dos replicantes brilham em tom avermelhado conforme a luz que lhes é incidida;
• Os olhos são a base do teste Voight-Kampff de identificação de replicantes;
• No Chew’s Eye World, o laboratório de olhos do cientista Chew, onde podemos ver olhos dentro de aquários, tanto ele quanto Leon manipulam olhos;
• Chew usa um grande aparelho de aumento de visão;
• Leon tenta matar Deckard pelos olhos;
• No apartamento de J. F. Sebastian, Roy Batty brinca com olhos de um recipiente;
• Roy afunda seus dedos nos olhos de Tyrell;
• Pris tem seus olhos realçados pela maquiagem;
• Pris, quando tenta se esconder entre os brinquedos de J. F. Sebastian, faz com que de seus olhos apareça somente a parte branca;
• Deckard diz a Zhora que vai procurar buracos de voyeurs em seu camarim;
• Os grandes olhos da coruja de Tyrell são mostrados com freqüência;
• Para a melhor realização do teste com Rachel, Deckard pede para Tyrell diminuir a iluminação da sala;
• Os olhos de Rachel são ressaltados no teste Voight-Kampff;

Ocorrem várias citações do verbo “ver” ou referente a olhos:

Leon:
“I’ve never seen a turtle”.

Chew:
“I just do eyes! Just eyes! Just genetic design, just eyes!”.
“You Nexus? I design your eyes”.

Taffey Lewis:
“Never seen her, buzz off”.

Roy Batty:
“Ah, Chew... If only you could see what I’ve seen with your eyes...”.
“Not na easy man to see, I guess...”.
“I`ve seen things you people wouldn’t believe”
.

Rachel:
“I wanted to see you...”.
“He wouldn’t see me”.
“Look. It’s me with my mother”.
“Olhar” está diretamente ligado com “acreditar”, subjetividade plena que é a capacidade de “sentir”. Segundo Marilena Chaui, “cremos que as coisas e os outros existem porque os vemos e que os vemos porque existem. Somos, pois, espontaneamente realistas”.5

A relação entre percepção visual e realidade aparece representada em Blade Runner no caráter simbólico das cenas dos olhos e de citações ao olhar. Para se saber se um determinado indivíduo existe realmente, isto é, se é humano com direito à vida, recorre-se, em Blade Runner, ao Voight-Kampff Test. O conceito de olho como “janela da alma” é no filme levado aos limites, uma vez que através dos olhos podemos perceber se o suspeito possui ou não uma “alma”, se é ou não humano.

A máquina do teste Voight-Kampff existe tanto no livro de Philip K . Dick quanto no filme e é utilizada para se detectar os replicantes através de respostas emocionais manifestadas por contrações da íris. Segundo o press-release oficial do filme, é “uma forma muito avançada de detector de mentiras que mede as contrações do músculo da íris (...) usado primordialmente por blade runners para determinar se um suspeito é realmente humano, medindo-se o grau de sua reação empática através de questionários e padrões cuidadosos”. Um braço sai do corpo do aparelho e nele é fixada uma câmera voltada ao olho do suspeito, criando-se uma imagem num monitor de vídeo. O operador faz determinadas perguntas ao possível replicante contendo situações criadas especificamente para que se desenvolva uma resposta emocional. Verificando o monitor e os vários ponteiros, o blade runner pode julgar as respostas do suspeito, determinando se ele é ou não humano. Este mecanismo aparece pela primeira vez no início do filme, quando Holden, blade runner profissional, entrevista Leon, que estava tentando se infiltrar na sede da Tyrell Corporation. Mais tarde, o mesmo aparelho é usado para Rick Deckard descobrir que Rachel é uma replicante, cujas memórias foram implantadas anteriormente.

Podemos relacionar o teste Voight-Kampff à busca humana de tentar reconhecer tudo e todos através do olhar, projetando-se além das suas próprias capacidades dos sentidos. “Porque estamos certos de que a visão depende de nós e se origina em nossos olhos, expondo nosso interior ao exterior, falamos em janelas da alma. Crença que sustenta os chamados ‘testes projetivos’ da psicologia, onde se espera que a consciência, lançando-se qual projétil através dos olhos, projete no fora o seu dentro”7. Assim funciona o teste Voight-Kampff, projetando numa tela reações que esboçam o conteúdo da subjetividade mais íntima. Surge então uma situação paradoxal: como um replicante seria capaz de aplicar referências interpretativas pessoais num teste com outro replicante? Isso só é possível porque Deckard, até certo momento, não desconfia que ele mesmo é um replicante.

O homem da era da imagem paradoxal confia no que seus olhos vêem como sendo a realidade incontestável, reflexo verdadeiro de todo um universo. Contudo, com certo treino, o olho pode descobrir elementos que vão além da imagem reproduzida. Blade Runner explora muito a questão da imagem como reflexo e a imagem vítrea, um mesmo suporte físico carregando duplo significado, ambigüidades comuns mas pouco percebidas pelos nossos olhos “viciados” em clichês.

Em seu ensaio8, Rachela Morrison preocupa-se em revelar a existência dessas imagens refletidas em algumas cenas de Blade Runner. Os reflexos se dão basicamente em vitrines, objetos pelos quais olhamos e somos olhados em dois níveis, através delas e dos reflexos que incidem sobre elas. Em Blade Runner existem dois mundos, um interior e outro exterior, o real e o que gostaria de ser real. O próprio Philip K. Dick afirmou em seu ensaio Man, Android and Machine que “nós somos sempre um reflexo longe da realidade”.9

As vitrines reflexivas aparecem na seqüência da localização e perseguição de Deckard atrás de Zhora. Segundo Rachela, a primeira dessa série de imagens que se refletem ocorre enquanto Deckard pergunta ao fabricante de cobras Abdul Hassan pelo nome e endereço do comprador de um de seus produtos cuja escama encontrara no quarto de Roy. Através de uma vitrine, podemos observar os personagens e ao mesmo tempo o neon das ruas. Deckard pressiona Hassan que responde: “Taffey Lewis, down in fourth sector, Chinatown”, fora de sincronia com a imagem. Deckard aparece visualmente falando, mas quem ouvimos é Abdul Hassan. Para Rachela, isso é uma provocação à platéia, lembrando de que o que vêem é só um filme, apesar de sua aparente realidade. Para outros autores, o que ocorreu na verdade foi um erro de edição.

Outra cena em que a imagem refletida aparece é a de Zhora em seu camarim, usando um secador de cabelos futurista em forma de uma grande cúpula de plástico transparente, pela qual podemos ocasionalmente ver a imagem de Deckard refletida. Zhora, na cena da perseguição, utiliza também uma capa plástica transparente10. Enquanto correm, Deckard e Zhora são vistos tanto através das vitrines como pelos seus reflexos. Em determinado momento, Deckard está alternadamente atrás e na frente dela, conforme a posição da câmera e das vitrines, ocorrendo uma miscelânea de pontos de vista. Finalmente, Zhora acaba sendo atingida e trespassa as vitrines que estão entre ela e Deckard, numa cena em que o espectador acaba perdendo o senso de orientação. Essa seqüência representa a significação ambígua do filme em relação ao mundo verdadeiro e o da representação, realidade e simulação. Uma das primeiras cenas de abertura do filme é também marcante nesse aspecto, quando um olho em enquadramento fechado reflete as luzes e imagens da cidade futurista. Um olho que vê, é visto e reflete imagens.

O caráter de duplo significado aparece em outras passagens de Blade Runner. Quando Roy Batty visita o homem responsável pela construção de seus olhos, lança mão de uma de suas muitas observações poéticas11: “Ah, Chew, se pelo menos você pudesse ver o que eu vi com os seus olhos!”.12 A ambigüidade poética construída nessa frase está centrada no pronome “seus”, que pode ser levado em conta de duas maneiras. O termo “seus” pode estar se referindo aos “olhos que você fabricou”, e ao mesmo tempo significar “os seus olhos de ser humano”, isto é, Roy quer dizer que o próprio Chew, um humano, não seria mais capaz de enxergar como tal, assim como todos os outros humanos. Segundo esse aspecto, Tyrell é realmente coerente quando defende o slogan “more human than humans”, usado para vender seus replicantes.

Roy é responsável também por outra visão dual – e poética – relacionada ao significado do verbo “ver”. Enquanto pergunta a Chew sobre a localização de Tyrell, comenta sobre ele: “Não é um homem fácil de se ver, eu acho...”.13 Há novamente aqui dois significados; não é fácil encontrá-lo, pois é uma pessoa de difícil acesso, burocrática, ou não é “emocionalmente” fácil se encontrar com o homem que o criou, como ele próprio confessa mais tarde diante de Tyrell: “Não é uma coisa fácil se encontrar com o seu criador”.14

Aí estão as ambigüidades do olhar através das suas diferentes dimensões possíveis. Olhamos e somos vistos dos mais variados ângulos. E em Blade Runner ocorre também o caso de poder ser visto e ao mesmo tempo não se ver. Pris, enquanto está disfarçada entre os brinquedos de J. F. Sebastian para despistar Deckard, o vê, mas Deckard não a enxerga. Roy, durante a perseguição final diz que está vendo Deckard e depois aparece rompendo a parede com a cabeça. As duas cenas culminam num impacto violento, luta e morte, ocasionado pela descoberta do que estava oculto, impacto da visão inesperada, contexto paranóico e esquizofrênico do bombardeio de imagens do final do século XX.
As fotografias, o tempo e a memória
A fotografia é um objeto de auto-afirmação tanto do sujeito quanto da sua realidade. Memória portátil, imagem viva de um passado que não existe mais, o registro fotográfico serve de legitimação e prova concreta de existência. “Não há ato nem acontecimento que não se reflita em uma imagem técnica, nem uma ação que não deseje ser fotografada, filmada, gravada, virtualizada, que não deseje confluir nesta memória e se fazer nesta eternamente reproduzível”.15

Só um elemento pode ter o poder de recordação histórica tão profundo quanto o da fotografia, que é a figura da mãe. Para Barthes, “história é isso, o tempo em que minha mãe viveu antes de mim”. Leon, quando está sendo entrevistado e testado pelo Voight-Kampff, consegue manter-se razoavelmente estável, até o ponto em que Holden, o blade runner que o estava entrevistando, lhe pede para nomear todas as coisas boas que vinham a sua memória a respeito de sua mãe. Leon explode: “My mother. I’ll tell you about my mother”, e atira em Holden. A memória da mãe, assim como a fotografia, é necessária para se clamar por uma história, para a afirmação de uma identidade sobre o tempo.

A fotografia com a mãe é a maior prova de existência que se pode alcançar, é o vínculo entre passado, presente e futuro. É a memória materializada e tomando vida. “Contemplando uma foto em que ela me estreita, criança, junto dela, posso despertar em mim a doçura enrugada do crepe da China e o perfume do pó-de-arroz”.17 É assim que se sente Rachel ao carregar consigo a foto em que aparece ela e “sua” mãe. Na verdade Rachel é uma replicante sem passado real. Suas memórias são realmente humanas, mas artificialmente implantadas a partir dos registros da memória da sobrinha de Tyrell. A foto é tão real para Rachel que quando a mostra para Deckard podemos ouvir um fundo sonoro sutil de vozes de crianças brincando, dando a impressão de que a foto tivesse tomado vida por alguns instantes, sensação de que a imagem é real.

Replicantes, por não serem humanos, são alienados, desmemoriados, sem passado. Criados para durarem por curto espaço de tempo - quatro anos no máximo - procuram sempre algum significado para suas vidas. “O que os replicantes querem é uma história. Por isso eles precisam ser mortos. Procurando uma história, lutando por ela, eles buscam suas origens por aquele tempo anterior a eles”.18

Humanos e replicantes vivem num mundo de simulação em Blade Runner. Toda a Los Angles de 2019 está dentro da ordem do hiper-real e da representação. Replicantes sem passado possuem mais emoções que os próprios homens, mesmo que tenham as suas vidas baseadas num passado fotográfico. Rachel quer convencer Deckard de que é humana mostrando-lhe a foto da sobrinha de Tyrrel. “Aquela fotografia representa o traço de uma origem e, assim, uma identidade pessoal, a prova de se ter existido e, ainda, de se ter o direito de existir”.19

Rachel e Leon carregam consigo suas fotos para terem, literalmente, a impressão de que têm um passado humano, reflexo forte do desenvolvimento de suas emoções, ponto focal entre sentimento e memória. Leon orgulha-se de um grupo de fotos de uma família que não é a sua e entristece-se por não ter conseguido apanhá-las no quarto porque Deckard já estava lá.

A fotografia desempenha então um papel fundamental na narrativa do filme. É através da fotografia encontrada no quarto de Roy que Deckard vai conseguir chegar até Zhora, replicante fugitiva. Para tanto, Deckard utiliza um equipamento especial, a Esper Machine. Esta máquina é capaz de decompor e reestruturar visualmente uma fotografia através da criação de novas relações, variando-se o foco, “aumentando e diminuindo suas seções, selecionando e rearranjando elementos, criando close-ups do que é relevante. Os significados dissecados e reorganizados da fotografia resultam em uma narrativa”.20 É a partir da fotografia que a investigação de Deckard toma rumos práticos. A imagem fotográfica traz em si diversos níveis narrativos. Segundo Ernst Mach, o universo estaria misteriosamente presente em cada ponto e em cada instante do mundo. Podemos encontrar a síntese do Universo em um objeto, a fotografia, e a Esper Machine é o instrumento para a dissecação desse objeto para que possamos penetrar em sua subjetividade mais profunda.

Tempo, espaço e memória formam o fulcro central do resultado fotográfico. Qualquer fotografia, por maior que seja a velocidade de obturação usada no momento em que foi tirada, traz o indício da evolução do tempo. Ela não é um momento exato no tempo ou no espaço, mas sim uma coletânea de momentos materializados numa cópia, seja ela soft ou hard. Os replicantes de Blade Runner estão inconscientemente imersos nessas “coleções de instantes” que formam a fotografia.

No filme, há uma sobreposição entre realidade e passado, que se manifesta através do culto à imagem fotográfica. Na primeira versão, de 1982, Deckard comenta em sua narração em off: “I didn’t know why a replicant would collect photos. Maybe were like Rachel. They needed memories”. Ironicamente, o próprio Deckard tem à mostra em sua casa uma grande quantidade de fotos. Após Rachel tentar convencê-lo de que a sua fotografia era verdadeira, Deckard a revela a fraude. Rachel sai do apartamento em disparada, chocada com a notícia. Sentindo-se culpado, Deckard passa a noite bebendo entre as fotografias de “sua” família. Perdido entre as imagens, provavelmente está desconfiado de que aquele seu passado registrado também possa ser criado, uma primeira tomada de consciência de que ele mesmo possa ser um replicante. As fotos que colecionava eram de pessoas que ele nunca conheceria. Essas fotos não são do passado de Deckard propriamente dito, mas elas são de “um” passado, o que é quase tão bom. “Ao se ter um passado, tanto um próprio quanto um que tenha sido criado, é também ter a esperança de se ter um futuro”.21

Philippe Quéau em seu ensaio comenta a esquizofrenia criada na sociedade contemporânea em torno de sua relação com a imagem e a virtualidade. “Formas diversas de esquizofrenia ou de solipsismo poderiam sancionar um gosto demasiado pelas criaturas virtuais com as quais cada vez mais devemos conviver”.22 É a criação do universo imaginário através da imagem, um tipo de esquizofrenia encontrada nos replicantes de Blade Runner. No livro de Philip K. Dick, muito mais do que no filme, questiona-se a possibilidade de um humano ser “aposentado” por engano. “Constata-se, de fato, que um certo ‘tipo’ de humanos responde ao teste do mesmo modo que os replicantes. Esse tipo é o esquizofrênico. Dessa forma, replicantes e esquizofrênicos são ‘cientificamente’ comparáveis”.23

A memória que vem das imagens é tão marcante para Roy que ele encerra a sua vida, após salvar a de Deckard, com mais um discurso poético:

“I’ve seen things you people wouldn’t believe. Attack ships on fire off the shoulder of Orion. I watched C-beams glitter in the dark near Tannhäuser Gate . All those moments will be lost in time like tears in rain. Time to die...”.

Roy morre tentando compartilhar com alguém as suas memórias, um banco de imagens poéticas que revela a existência de suas próprias emoções. No seu discurso final revela a tristeza em perder a riqueza de sua memória e de seus sentimentos que não poderão ser compartilhados com mais ninguém. As memórias não são só suas, são coletivas. E se perderão no tempo como lágrimas na chuva.

O olhar, a fotografia e a memória são os elementos essenciais para o estabelecimento de uma temporalidade histórica para a percepção do passado e futuro. Do exterior para o interior e vice-versa, os olhos são mecanismos de imersão total tanto no mundo real quanto no da simulação.

Nos dias de hoje, a simulação está sobrepondo-se à realidade numa escala que chega a atingir a esquizofrenia. Não sabemos mais no que acreditar então acreditamos no que vemos. A representação do real transforma-se no próprio real e o mundo se torna um imenso fractal criado pela universalização dos clichês icônicos e padronização das idéias.

Blade Runner traz à tona todos os problemas decorrentes dessa globalização dos sentidos. A crítica está no fato de que diariamente somos bombardeados com implantes de memória através da mídia, ferramenta utilizada para se filtrar a recepção do “mundo real” e decidir por nós o que deve ser lembrado ou esquecido.


1Bruno, Giuliana. “Ramble City: Postmodernism and Blade Runner” in October, 41, Summer, 1987.
2Parente, André (org.). Imagem Máquina. A era das tecnologias do virtual. Rio de Janeiro, Editora 34, 1996. p. 29.
3Idem. p. 30.
4Virilio determina as três eras da imagem: “era da lógica formal da imagem é a da pintura, da gravura, da arquitetura, que termina com o século XVIII. A era da lógica dialética é a da fotografia, da cinematografia ou, se preferirmos, a do fotograma, durante o século XIX. A era da lógica paradoxal da imagem é aquela que começa com a invenção da videografia, da holografia e da infografia”. Virilio, Paul. “A imagem virtual mental e instrumental” in Parente, André (org.), op. cit., p. 131.
5Chaui, Marilena. “Janela da alma, espelho do mundo” in Novaes, Adauto (org.) O olhar. São Paulo, Companhia das Letras, 1989. p. 32.
6Felix, Amedeo. “Reality or Simulacra”. Texto de site da internet: http://www.amedeofelix.com/BladeRunner.htm (2008).
7Chaui, Marilena. op. cit. p. 33.
8“Casablanca Meets Star Wars: The Blakean Dialetics of Blade Runner” in Literature/Film Quarterly. Vol. 18, 1990, No. 1, p. 2.
9Passagem de Philip K. Dick em “Man, Android and Machine”, ensaio publicado em Science fiction at large, editado por Peter Nicholls (New York, Harper & Row, 1977), p. 19, citado por Rachela Morrison.
10Um dos manequins das vitrine também veste o mesmo tipo de capa, o que, segundo Rachela, acentua a ambigüidade da narrativa.
11Roy demonstra certa sensibilidade nessa e em outras cenas, o que se caracterizaria como um desenvolvimento da capacidade de sentir emoções, inconcebível para um replicante segundo as concepções humanas.
12Ah, Chew... If only you could see what I’ve seen with your eyes!”.
13“Not na easy man to see, I guess...”.
14“It’s not na easy thing to meet your maker”.
15Baudrillard, Jean. “Videosfera y sujeto fractal” in Anceschi, Giovanni (et al). Videoculturas de fin de siglo. Madrid, Catedra, 1990. p. 33.
16Barthes, Roland. A câmara clara. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1984. p. 98
17Idem.
18Bruno, Giuliana. “Ramble city: postmodernism and Blade Runner” in October, 41, Summer 1987, p. 61.
19Idem, p. 71.
20Idem, p. 73.
21Desser, David. “Blade Runner. Science fiction & transcendence” in Film/Literature Quarterly, Vol. 13, No. 3, 1985. p. 175.
22“O tempo do virtual” in Parente, André (org.), op. cit., p. 97.
23Bruno, Giuliana, op. cit., p. 71.
24Tannhäuser é um personagem lendário da literatura alemã. 

http://www.eca.usp.br/nucleos/njr/espiral/noosfera39a.htm

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Pesquisar este blog

Arquivo do blog