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quarta-feira, 9 de junho de 2010

O professor de bermudas, Gilberto Dimenstein

GILBERTO DIMENSTEIN

O professor de bermudas


Ele viaja pelo mundo atrás de ondas e é quando está na natureza que se sente em equilíbrio emocional

UM DOS mais renomados designers brasileiros, Carlos Motta teve sua desilusão definitiva com a educação formal por causa da invenção do "berimbaixo", um instrumento musical que nasceu da mistura do berimbau com o contrabaixo.
Professor da Faap, ele pensou ver nesse instrumento a salvação de um aluno, mas se enganou. "Não é para mim", admite Carlos, que, surfista desde a adolescência, gostava de dar aulas de bermuda.
Um dos alunos de Carlos Motta no curso de projetos estava prestes a ser jubilado, detestava estudar, tinha problemas com a família e dava uma série de sinais de envolvimento pesado com drogas. "Descobri que a única coisa que o seduzia era a música." Conseguiu seduzi-lo a fazer o design original de um instrumento. "Vi que despertei nele uma faísca."
O aluno se esforçou e tirou da prancheta o esboço do tal "berimbaixo", mas uma comissão da faculdade desconsiderou o projeto e o aluno acabou abandonando o curso. "Talvez ali estivesse a chance de surgir um talento."


Carlos Motta lançou ontem um livro sobre sua vida, acompanhado de uma exposição em que apresenta seus móveis, mundialmente cobiçados. Não revelou, entretanto, que se prepara para desenvolver o projeto de tirar de jovens como aquele seu aluno do "berimbaixo" algo semelhante ao que extrai das suas peças de madeira. A ideia é criar uma escola de ofícios.
Não era necessário ter havido aquela desilusão para que o designer percebesse sua dificuldade de enfrentar a rotina acadêmica. Ele viaja pelo mundo atrás de ondas e é quando está na natureza que se sente em equilíbrio emocional. Sexta-feira significa para ele, invariavelmente, dia de viajar para o campo ou para a praia. "Todo o meu trabalho é fazer um design integrado com a natureza, a começar do uso de madeiras recicladas."
Aprendeu muitas das sua habilidades ao ar livre, observando caiçaras produzirem utensílios e redes -esses foram, na prática, os primeiros mestres dos quais foi aprendiz. Quando estudou em Nova York, já formado em arquitetura, teve aulas práticas e, assim, quando notou a dificuldade de recrutar profissionais para ajudá-lo, virou marceneiro.
A solução prática foi transformar-se um pouco em mestre.


Para construir casas no campo e na praia, ele montou uma escola informal na cidade de São Francisco Xavier, no interior de São Paulo, com suas áreas de proteção ambiental, repletas de cachoeiras. É dali que tira a mão de obra especializada e também foi dali que saiu a inspiração para seu projeto educativo.
Ele quer montar na cidade uma escola de ofícios, reproduzindo a relação mestre-aprendiz, para formar, entre outras profissões, marceneiros, joalheiros e serralheiros. "Meu papel será descobrir e burilar talentos."
Nessa escola, ele pretende que inventores de coisas como o "berimbaixo" sempre se sintam aprovados e não terá nenhum problema em dar aula de bermudas.

gdimen@uol.com.br

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0906201004.htm

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