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domingo, 20 de junho de 2010

Leitura para alunos corajosos, que leem, sem preguiça. A banalidade do mal.

Leia, faça uma paráfrase que só terá a ganhar com este trabalho. 


Adolf Eichmann, nascido em 19 de março de 1906 em Solingen, norte da Alemanha
foi morto em Jerusalém, na prisão de Ramleh em 31 de maio de 1962 enforcado após um
julgamento na corte distrital de Jerusalém, cumprindo uma lei de 1950 que previa pena de
morte aos nazistas e colaboradores. Houve cinco acusações que o conduziram ao
enforcamento, dentre elas: acusação contra o povo judeu, contra humanidade e crimes de
guerra. Em maio de 1945, Eichmann havia sido preso em um campo de internamento nos
Estados Unidos, mas fugiu para Argentina em 1950 e manteve-se sob o nome de Ricardo
Klement em Buenos Aires, até que em Maio de 1960 ele foi capturado por agentes israelitas.
Eichmann foi o grande responsável por “solucionar as questões judaicas” durante o
terceiro Reich. Ele organizava a expulsão dos Judeus e por fim, os conduzia até às câmaras de
gases. Mas nada disso soava como assassinato, como atrocidade ou crueldade para Eichmann.
Em seu julgamento ele se dizia inocente no sentido de acusação e morreu sem ser questionado
no sentido do quê então ele não se sentia inocente. Ele se declarava um bom cidadão
1 Acadêmica de Jornalismo PUC-GOIÁS e Filosofia UFG, Goiânia.
cumpridor das leis. Isso significava que essas leis eram as ordens de Hitler que possuíam
força jurídica no Terceiro Reich. Dessa maneira, o alemão em seu julgamento dizia nunca ter
matado ou dado ordem para matar, apenas havia obedecido. Sendo assim, todas as atrocidades
cometidas por Eichmann e todos os milhares de judeus mortos foram possíveis segundo sua
obediência, que significava que ele não pensava por si só, não agia segundo juízo próprio,
mas vivia abraçado a um código de éticas e que facilmente poderia ser trocado, se fosse
conveniente, e jamais pensaria por si próprio ao agir.
Foi a partir do julgamento desse homem que pela primeira vez, a filósofa judia
Hannah Arendt, que tinha ocupado grande parte de sua vida analisando a maldade cometida
durante o Terceiro Reich, utilizou a palavra banalidade do mal, o que significou uma
mudança nas suas reflexões acerca do mal diante da espantosa superficialidade do réu.
Eichmann não apresentava repúdio aos judeus, não expressava nenhum fanatismo ideológico
(mesmo porque ele nem chegou a ler Mein Kampf, de Adolf Hitler), nenhum sinal de
motivação. Para compreender melhor como foi utilizado o termo banalidade do mal e porque
a partir de Eichmann, me proponho no artigo a descrever a carreira e personalidade de tal
indivíduo para que se possa melhor compreender o termo, além de conduzir a reflexão acerca
da banalidade em si, para que seja possível estabelecer paralelos entre tal reflexão e a conduta
jornalística.
Eichmann desde criança sempre foi mal na escola e não foi capaz de concluir escola
de engenharia. Sua carreira então foi marcada por um serviço na empresa de mineração de seu
pai (de pequeno porte), depois um emprego na Elekstrobau, onde ficou dois anos até ser
demitido. Quando se encontrava aos 22 anos desempregado, o primo judeu de sua madrasta
conseguiu para ele uma representação no Norte da Áustria numa Cia de Óleo a vácuo, onde
foi bem sucedido por cinco anos até ser transferido a contragosto e sequencialmente, demitido
em 1932. Foi em abril desse mesmo ano que ele se filiou ao partido Nacional Socialista a
convite de Kaltenbrunner, um sócio de seu pai iniciando sua carreira como soldado até se
entediar bastante e descobrir uma vaga no serviço de segurança, onde começou como espião
de membros do partido, depois passou a estudar sobre os judeus até se tornar um “perito” no
assunto e ter seu auge em 1938.
Março de 1938 foi o ponto máximo da carreira de Eichmann. Ele agora tinha um cargo
oficial, era tenente, havia sido condecorado por seu “conhecimento abrangente dos métodos
de organização e ideologia do oponente, o judaísmo” e tinha em Viena seu primeiro trabalho
importante: ele deveria executar a emigração forçada dos judeus. Como Arendt disse em sua
obra “Eichmann em Jerusalém”, ele estava louco para acertar. E conseguiu. Em oito meses,
45 mil judeus deixaram a Áustria e 19 mil deixaram a Alemanha, em 18 meses, totalizaram
148 mil judeus expulsos de lá, o que significa 60% da população judia do país. Eichmann
sabia fazer duas coisas bem feitas: negociar e organizar, e com isso conseguiu expulsar tantos
judeus em tão curto espaço de tempo de forma “legal”. Esse recorde medonho, esses feitos
cruéis que Eichmann conseguiu, foram todos visando uma patente, um reconhecimento. Diz
Arendt: “Com sua sincera devoção, questões de família e de carreira pessoal, era o último e já
degenerado produto da crença do burguês na suma importância do interesse privado. [...] É o
burguês isolado da sua própria classe, o indivíduo atomizado produzido pelo colapso da
própria classe burguesa” (Arendt, 2000, P.388).
Eichmann não pensava por si próprio, ele agia segundo um código de conduta
imposto, não importando qualquer opinião própria, mas o que lhe era dito para ser feito.
Eichmann era um desses tipos medianos. Esperava-se um monstro no tribunal, mas ele não
era. “A percepção de que Eichmann era um homem comum, possuidor de uma
superficialidade e de uma mediocridade transparentes, deixou Arendt atônita ao avaliar a
proporção do mal incalculável por ele cometido, qual seja, a organização das deportações de
milhões de judeus” (Assy, 2001, p.138). Eichmann era um filho de classe média, dotado de
pouca inteligência, mentiroso, com um discurso repleto de frases feitas e clichês. Ele não
entrou no partido por convicção nem se deixou convencer por ele. Por toda sua vida havia
fracassado, mas era ambicioso e vivia a procura de uma possibilidade de construir carreira.
Entrar para o partido Nacional Socialista significava para Eichmann uma possibilidade de sair
do emprego de vendedor entediante e sem significado e construir uma carreira militar, exercer
grandes feitos e ganhar uma patente. Não importava se tais feitos envolveriam assassinos,
torturas ou crueldades.
Rosângela Chaves, em sua obra “A capacidade de julgar: um diálogo com Hannah
Arendt” aponta que o caso de Eichmann não era de maldade, nem de estupidez – no sentido
de compreender -, mas de irreflexão. “Quanto mais se ouvia Eichmann, mais óbvio ficava que
sua incapacidade de falar estava relacionada com sua incapacidade de pensar, ou seja, de
pensar do ponto de vista de outra pessoa”, diz Arendt em Eichmann em Jerusalém. Nesse
sentido, o termo banalidade do mal está intrinsecamente ligado, para Arendt, à atividade de
pensar: a uma ausência de pensamento no sentido de irreflexão (thoughtlessness). Como diz
Bethânia Assy em seu artigo Banalidade do mal e pensamento em Hannah Arendt, a
associação do problema do mal à ética havia tornado-se insuficiente para Arendt compreender
o colapso moral vivido na Alemanha nazista. Nesse sentido, a filósofa iniciou uma atividade
reflexiva buscando responder se a atividade do pensamento estaria conectada com nossa
conduta ética, de discernir o certo do errado.
Para falar sobre a atividade do pensamento, Hannah Arendt escolhe Sócrates de
maneira indiscutivelmente apropriada. Aquele mais preparado para aconselhar, que viveu
entre os cidadãos e nunca evitou a praça pública, que nunca teve pretensão de governar os
homens e que sequer se deu o trabalho de escrever seus pensamentos. Sócrates é aquele que
dirá que uma vida sem pensamento, sem questionamento, não vale a pena ser vivida. Hannah
Arendt em “A Vida do Espírito” discorre sobre as duas faces do pensamento para Sócrates: o
perigo que consta na atividade de pensar e o perigo da ausência de pensamento, que pode
levar à maldade.
Sócrates fez poucas afirmações que pudéssemos relacionar maldade ao pensamento.
Contudo ele desenvolveu uma experiência do ego pensante que se transfere para as coisas, o
chamado dois-em-um, e que a partir dele podemos pensar as atitudes de maldade de
Eichmann. Esse dois-em-um consiste na atividade do diálogo do indivíduo consigo mesmo.
Ele foi tido como a essência do pensamento. Isso porque o indivíduo é tido como “um”
quando ele está contido no mundo exterior, no mundo das aparências e o indivíduo está em
dois-em-um quando está fora do mundo exterior, das aparências, mas mergulhado na
atividade pensante que consiste no estar-só, mas não sozinho, pois aqui o indivíduo se faz
companhia. Quando ele volta ao mundo exterior, ele volta a ser um, volta à sua unidade.
O dois-em-um, como essência do pensamento, de estar só consigo mesmo, acarreta em
alguns pontos importantes. Nessa atividade o homem é aquele que pergunta e aquele que
responde, transcendendo uma mera consciência de si. Nesse sentido o pensamento torna-se
dialético e crítico, ao se submeter ao um diálogo como uma viagem através das palavras,
como diz Arendt. Esse diálogo, esse pensamento tem um único critério: de ser consistente
consigo mesmo, ou seja, a conformidade. E nesse sentido, se o indivíduo for contraditório
consigo mesmo em seu pensamento, em seus diálogos, ele se torna seu adversário e é
impossível que alguém queira se tornar seu próprio adversário. O que Sócrates aqui quis dizer
é que quem quer pensar deve estar atento para que os parceiros do diálogo não sejam
adversários, mas amigos. Aqui a máxima de Sócrates é: não se contradiga. Arendt dirá: quem
quer conviver com um assassino? Há nesse diálogo um eu que cumpre ordens, que é
obediente, e que expulsa milhares de judeus em um tempo recorde e que os leva, finalmente
para câmaras de gases e há também um eu que agia segundo uma moral “não matarás”, ou
que se refletisse melhor saberia que isso não era o melhor a ser feito, que isso era uma
crueldade.
No entanto, para não haver esse embate, para não viver em conflitos internos e talvez
ficar louco, o melhor que Eichmann fez foi não pensar. Foi agir, obedecer. Não só ele, mas
todos os alemães que disseram sim à fala de Hitler. Sócrates aqui diria: se Eichmann tivesse
pensado, ele não teria feito o que fez. Porque ele teria se contradito, ele saberia que ao pensar
sobre o que ocorreria, suas atitudes não seriam aquelas. Mas ele consentiu, não pensou. Além
de ele ter sempre agido segundo um código de éticas que lhe havia sido dado, sem ter juízo
próprio, ele não pensava sobre o que ocorria, sobre o que estava acontecendo e ele estava
inserido. Ele cumpria ordens, praticava maldades. Apesar de Sócrates nunca ter dito
explicitamente que a ausência de pensamento leva a maldade, se talvez ele tivesse assistido à
atrocidade que ocorreu durante a segunda guerra mundial e ao julgamento de Eichmann, ele o
teria dito.
Sócrates faz uma metáfora para explicar o pensamento, que já havia sido feita
anteriormente em Sófocles e nos dias atuais por Heidegger. Diz Sócrates: “os ventos são eles
mesmos invisíveis, mas o que eles fazem mostra-se a nós e, de certa maneira, sentimos
quando eles se aproximam”. Isso significa que o pensamento, assim como o vento são
invisíveis, mas ambos são capazes de destruição. Assim como o vento destrói casas e árvores,
a atividade de pensar destrói valores, padrões para o bem e para o mal, costumes, regras de
conduta e todos os demais critérios estabelecidos. É nesse âmbito que reside o perigo da
atividade de pensar. O pensamento é perigoso para qualquer tipo de credo, qualquer tipo de
conceito, pois é capaz de virar tudo de cabeça para baixo, de tornar o Sol o centro da Terra e
não o contrário, por exemplo. O que Sócrates quis, em suma, dizer é: “Na prática, pensar
significa que temos que tomar novas decisões cada vez que somos confrontados com alguma
dificuldade”. Sendo assim, a ausência de pensamento parece necessária para assuntos
políticos ou morais, contudo aqui Hannah Arendt mostra também qual o perigo dessa
ausência de pensamento.
Uma vez que o indivíduo encontra-se afastado dos perigos que podem causar as
investigações a aspectos morais, a atividade constante de pensar faz com que, na ausência da
reflexão, do juízo próprio, ele se abrace a qualquer código de éticas que tenha prescrito regras
de conduta (quaisquer que sejam). É mais fácil para um indivíduo aderir a um código de
conduta ao qual todos os membros de uma sociedade encontram-se submetidos, do que agir
segundo juízos próprios, pensar segundo seu conteúdo, o que provavelmente o levaria a agir
diferente de todos. Hannah Arendt, a partir disso conduz a um pensamento mais relevante
ainda, que esses indivíduos que vivem segundo códigos de conduta impostos, preferindo agir
segundo regras, a segundo seu próprio pensamento, considerando todas as dificuldades,
facilmente deixam um código de conduta de lado e abraça outro, bastando alguém oferecer
um novo código convencendo de que o que ele oferece é melhor.
Por outro lado, quando um indivíduo age segundo seu pensamento, para Sócrates, ele
age em conformidade consigo mesmo, seguindo a lei suprema: não se contradiga, não se torne
seu próprio adversário. Essa atividade pensante, de reflexão, é admitida por Arendt,
diferentemente de Kant, não como uma atividade para poucos, para os filósofos, pois
“Hannah Arendt concebe o pensamento no que se refere ao significado, distinto da cognição,
como uma necessidade natural da vida humana. Por tal motivo ele não pode ser considerado
uma prerrogativa de poucos” (Chaves, 2009, p.52). E ainda, segundo Arendt, essa habilidade
de pensar está relacionada à capacidade de distinguir o certo do errado, podendo impedir o
mal. Contudo, para o pensamento tornar-se uma condição necessária para evitar o mal, é
necessário ainda associar-se a outra faculdade do espírito, o juízo. Isso porque o pensamento
pode evitar o mal, mas não leva necessariamente à prática do bem. Diz Chaves: “o pensar não
oferece por si só regras de comportamento ético, nem fornece tabula de virtudes; ao contrário,
questiona todos os valores e as normas preestabelecidos” (Chaves, 2009, p. 75). Nesse
sentido, o pensamento só ganha dimensão positiva quando essa atividade libera o juízo, que
significa nossa capacidade de distinguir o certo do errado. Essa faculdade é de extrema
importância para Arendt, na medida em que é “absoluto e inalienável”, significando que não
podemos abrir mão de julgar.
Quando nos deparamos com tais reflexões acerca da importância da atividade de
pensar e do perigo de sua ausência, que, no caso de Eichmann dentro de um contexto
(Terceiro Reich), levou milhões à morte, transportamos tal raciocínio para o contexto atual e
mais especificamente no jornalístico. E os profissionais de jornalismo? Têm exercido a
atividade do pensamento? A reflexão faz parte de seu trabalho, de sua rotina? Ou isso é coisa
para filósofos? Ou ainda será que o mero apresentar dos dados, dos fatos ‘tal qual são dados’,
objetivamente (se é que é possível), é suficiente para realização de seu trabalho? Os cidadãos
que aspiram à informação não necessitam mais do que isso? E ainda, será que os jornalistas
têm provocado maldades ao não refletir acerca dos fatos que despejam diariamente, minuto a
minuto, nos cidadãos?
Falta um tiquinho,.,,,continue ...


http://www.ufg.br/this2/uploads/files/75/banalidade_do_mal_nos_noticiarios.pdf

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