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terça-feira, 8 de junho de 2010

Gaza

Leia os textos e faça sua dissertação. Não é preciso posicionar-se de um lado ou de outro. A tese pode ser bem outra.

TEXTO 1

O conhecido escritor sueco Henning Mankell estava no comboio de ajuda humanitária que foi atacado na semana passada por soldados israelenses quando seguia para a Faixa de Gaza. Mankell falou a “Der Spiegel” sobre como os soldados estavam prontos para agir com violência, sobre os maus tratos a que foi submetido quando estava sob custódia israelense e os motivos pelos quais ele apoia a causa palestina.

Spiegel: Henning Mankell, você participou da recente tentativa de romper o bloqueio naval israelense à Faixa de Gaza. Por que?

Henning Mankell: Os israelenses atacaram a Faixa de Gaza em 2008. Eles destruíram tudo, e desde então as vidas dos palestinos vêm sendo marcadas por dificuldades sem fim. Eu e alguns amigos decidimos que deveríamos fazer algo quanto a isso. Nós quisemos expressar a nossa solidariedade. O povo da Faixa de Gaza não pode sair de lá, ninguém tem permissão para entrar e eles não possuem nada. Nós quisemos mostrar que o bloqueio israelense é ilegal.

Spiegel: Como vocês pretendiam fazer isso?

Mankell: Nós precisávamos de navios para isso. A ideia era utilizar um comboio para transportar para lá produtos urgentemente necessários, desde cimento até remédios e chocolates para as crianças. E nós queríamos que o mundo soubesse do sofrimento pelo qual a Faixa de Gaza está passando.
Tensão em Israel

* Entenda como funciona o bloqueio à faixa de Gaza
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* Na ONU, Israel acusa frota de não ter objetivos humanitários
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Spiegel: Com quem vocês se juntaram para esse projeto?

Mankell: Há muita gente, uma grande diversidade de pessoas, na Suécia, desde membros de igrejas a organizações apolíticas e figuras individuais. A ideia era que a campanha fosse estritamente humanitária, porque nós sabíamos que caso contrário haveria problemas.

Spiegel: A Faixa de Gaza é controlada pelo grupo islamita Hamas. Não seria uma ingenuidade acreditar que vocês poderiam manter-se fora da luta pelo poder no território?

Mankell: Me perguntaram diversas vezes se nós poderíamos descartar com certeza a possibilidade de que o Hamas acabasse assumindo o controle sobre a nossa campanha. É claro que eu sempre respondi que não podia garantir nada,. Mas uma coisa que eu posso assegurar é que nós trabalhamos única e exclusivamente com organizações de auxílio humanitário. Esse é o fato importante. Tudo o mais eram variáveis que estavam fora do nosso controle.

Spiegel: Você se envolveu com os preparativos para o comboio?

Mankell: Não muito. A primeira vez que eu ouvi falar da campanha foi um ano atrás. Eu achei que era uma boa ideia. E eu imediatamente enxerguei um papel para mim, já que eu sou bastante conhecido. Eu disse aos organizadores suecos que eu poderia participar do último trecho da viagem. Eles me disseram que isso seria ótimo.

Spiegel: Vocês dizem que os palestinos estão em uma situação muito difícil. Você já foi alguma vez à Faixa de Gaza?

Mankell: Não, os israelenses não me deixaram entrar lá. Eu fui a Israel e à Palestina várias vezes. Eu participei de um festival literário em Hebron um mês atrás, e também visitei Jerusalém. Nós tentamos viajar para a Faixa de Gaza, mas os israelenses nos detiveram e nos obrigaram a retornar. Eu nasci em 1948, no mesmo ano em que foi criado o Estado de Israel, de forma que este conflito tem me acompanhado a vida inteira. Para mim, a ideia de que esse conflito ainda existirá quando eu morrer é insuportável.

Spiegel: O objetivo político de vocês é fazer com que a atenção do mundo se volte para o bloqueio imposto por Israel. E vocês alcançaram esse objetivo, mas não da forma que esperavam. Como foi a sua experiência no seu navio, o Sofia?

Mankell: O comboio consistia de seis embarcações, e o Sofia era uma das duas menores. Eu jamais estive na embarcação maior, o navio Mavi Marmara. Nós partimos de Chipre. Estávamos muito longe da costa, em águas internacionais, quando os israelenses atacaram. Era tarde, eu estava cansado e já tinha ido dormir.
Raio-x de Israel:

*

Nome oficial: Estado de Israel
Governo: Democracia Parlamentar
Capital: Jerusalém
Divisão administrativa: 6 distritos
População: 7.233,701
Idiomas: Hebraico (oficial), árabe (usado oficialmente pela minoria muçulmana) e inglês
Grupos étnicos: Judeus 76.4%, muçulmanos 16%, árabes cristãos 1.7%, outros cristãos 0.4%, druzes 1.6%, sem especificação 3.9%
Fonte: CIA World Factbook

Spiegel: Que horas eram?

Mankell: Exatamente quatro horas da madrugada. Meia hora mais tarde, uma pessoa entrou no meu aposento e avisou que a embarcação principal tinha sido atacada. À distância, nós vimos os helicópteros e os soldados descendo por cordas no convés, e ouvimos tiros. Depois disso, não tivemos mais contato com o Mavi Marmara. Foi somente quando eu estava me preparando para embarcar no voo da Lufthansa que me levou de volta para Estocolmo (nota do editor: Mankell foi deportado pelas autoridades israelenses) que fiquei sabendo que houve mortos na operação.

Spiegel: Quando foi que eles abordaram a sua embarcação?

Mankell: Às 5h35. Eles chegaram em lanchas rápidas. Nós fomos até o convés e aguardamos por eles lá, sem oferecer qualquer resistência.

Spiegel: Quantas pessoas havia a bordo do Sofia?

Mankell: Creio que 24 pessoas, incluindo a tripulação. Os soldados israelenses estavam usando máscaras, e eles nos disseram para descer para as cabines. Alguns de nós éramos meio velhos, e não conseguimos nos movimentar com a rapidez desejada pelos israelenses, de forma que os soldados usaram armas de choques elétricos para nos apressar. Foi uma coisa horrível. As pessoas caíam. Eles atiraram com balas de borracha em um homem que estava ao meu lado. Os soldados estavam preparados para usar a violência contra nós desde o princípio. E tudo isso ocorreu em águas internacionais. Eles não contavam com nenhuma base legal para subirem a bordo da nossa embarcação.

Spiegel: E a seguir, o que aconteceu?

Mankell: Eles assumiram controle sobre o barco e desviaram a nossa rota para Israel. O que eles fizeram primeiro foi pirataria, e depois foi sequestro.

“Os israelenses são ladrões”

Spiegel: O governo israelense advertiu várias vezes que não permitiria que o comboio chegasse à Faixa de Gaza.

Mankell: Pelo menos eles deveriam ter nos deixado continuar por mais duas horas, até que estivéssemos próximos à costa. Então, eles poderiam ter dito: isso é o máximo que vocês podem se aproximar da Faixa de Gaza. Agora os israelenses estão alegando que não queriam ferir nem machucar ninguém. Mas por que, em nome de Deus, eles simplesmente não incapacitaram o nosso radar ou destruíram o nosso leme? Isso teria sido muito fácil para eles, e ninguém teria sido ferido ou morto.

Spiegel: Depois disse você foi levado para uma prisão. Como foi que eles o trataram?

Mankell: Eu não sabia para onde eles estavam me levando. Os soldados formaram filas à esquerda e à direita, e nós fomos obrigados a passar por esse “corredor polonês”, enquanto cinegrafistas militares nos filmavam. Eles nos transformaram em objetos de um espetáculo, e isso é algo pelo qual eu jamais perdoarei os israelenses. E depois disso eles tomaram tudo o que nós tínhamos: telefones celulares, dinheiro, roupas, cartões de crédito. Essa foi a forma como eles nos trataram. Os israelenses são ladrões.

Spiegel: O governo israelense argumenta que está em guerra com o Hamas, e que por causa disso ele tem direito à intervenção.

Mankell: Essa é a arrogância do poder israelense. Eles estão conduzindo essa guerra em águas internacionais. Será que eles podem fazer tal coisa? Não havia armas a bordo. Só um punhado de civis suecos.

Spiegel: A guerra da propaganda agora está sendo travada com toda força. Os israelenses estão divulgando vídeos com o objetivo de sustentar a versão deles para o incidente, e os palestinos estão fazendo a mesma coisa. Vídeos que estão em circulação e que foram feitos à bordo do Mavi Marmara mostram um grupo de homens portando estilingues, bastões e barras de metal, preparando-se para o ataque israelense. Mas as imagens não dizem nada sobre o que de fato ocorreu.

Mankell: Quem estava atacando quem? Os soldados israelenses chegaram em helicópteros. Não foram as pessoas que se encontravam nas embarcações que invadiram os helicópteros. Além disso, existe o direito à autodefesa em águas internacionais.

Spiegel: Não é algo muito inteligente atingir com bastões tropas de elite das forças armadas israelenses.

Mankell: Eu acho que os soldados israelenses provocaram deliberadamente essa reação. Eles queriam matar pessoas.

Spiegel: Isto é uma suposição. O que faz com que você afirme isso?

Mankell: Eu conversei com um sueco que estava a bordo do Mavi Marmara. Ele me disse que os israelenses atiraram bem no meio da cabeça de um palestino. Para isso, é necessário que o atirador mire no alvo, e isso é algo só pode ser feito de forma premeditada.

Spiegel: O governo israelense argumenta que a organização turca IHH, que foi em grande parte a responsável pela coordenação e pelo financiamento do comboio, tem vínculos com o Hamas e com a Al Qaeda. Israel alegou que havia armas escondidas à bordo.

Mankell: Eu vou lhe contar uma história. Quando nós fomos aglomerados debaixo do convés, os soldados revistaram o barco, e quando retornaram eles disseram que haviam encontrado armas. Sabe que armas eram essas? Navalhas de barbear e facas de cozinha.

Spiegel: Você conhece a IHH e o movimento Free Gaza, uma organização internacional?

Mankell: Não, não os conheço suficientemente para formar uma opinião. Eu tenho que confiar na minha organização sueca e nos acordos que ela fez: nada de armas nem de violência. Se ficar demonstrado que nem todo mundo respeitou essas regras, é claro que eu tecerei comentários sobre isso.

Spiegel: Você é conhecido pelo seu ativismo na África, e frequentemente transita entre a Suécia e Moçambique. Por outro lado, o seu apoio aos palestinos é algo recente. Como foi que você teve a ideia de apoiá-los?

Mankell: O meio apoio aos palestinos não é uma coisa recente, porque eu lutei contra a opressão durante a minha vida inteira. A África era o meu foco, mas eu jamais ignorei outros conflitos.

Spiegel: Ao falar sobre a aids e a fome na África, você está falando de uma questão de vida ou morte. Mas na Faixa de Gaza ninguém está morrendo de fome, apesar das diversas dificuldades enfrentadas pela população.

Mankell: Sob o meu ponto de vista, a conexão entre a África e a Palestina é o sistema de apartheid que foi criado pelos israelenses. Eu presenciei na África do Sul como aquele sistema monstruoso foi destruído. Agora o mesmo monstro ressuscitou em Israel, apenas em uma forma diferente. Os palestinos foram transformados em cidadãos de segunda classe. Quando vejo a face horrorosa do apartheid, eu me vejo obrigado a fazer tudo o que posso para destruí-la.

“O bloqueio tem que terminar”

Spiegel: Para os intelectuais europeus, só existe um país no Oriente Médio no qual eles poderiam viver da mesma forma como vivem nos seus países: Israel, um país livre e democrático, com uma sociedade aberta. Será que igualar Israel à África do Sul não seria um grande exagero?

Mankell: Não. Eu participei do Festival de Literatura Palestina em Hebron no ano passado. De acordo com a programação estabelecida, eu deveria falar na abertura do evento do Teatro Nacional Palestino, em Jerusalém. Nós estávamos prestes a começar a palestra quando a porta foi aberta e as forças armadas israelenses acabaram com o evento. Eu perguntei aos militares qual era o motivo da intervenção e eles me disseram que eu representava um risco à segurança de Israel. “Quem? Eu, um escritor?”, perguntei aos militares. Eu disse a eles que eu estava lá para falar sobre cultura. Eles me responderam que não haveria palestra nem discussão alguma, e acabaram com o evento. Israel não é uma sociedade aberta; apenas finge ser. Em Israel, pessoas são tratadas da mesma forma como se fazia na África do Sul.

Spiegel: Para você o Hamas é uma fonte de esperança, da mesma forma que foi o Congresso Nacional Africano?

Mankell: Eu sou extremamente crítico em relação ao Hamas. Eu não gosto nem um pouco da evolução dos acontecimentos políticos na Faixa de Gaza. No entanto, eu não conheço suficientemente essa questão.

Spiegel: Uma organização islamita como o Hamas, com o seu culto ao martírio, o seu desprezo pelas mulheres e o seu racismo, poderá algum dia ser um parceiro sério para um intelectual de esquerda?

Mankell: Eu participei de uma tentativa humanitária de romper o bloqueio naval à Faixa de Gaza. Isso é um passo importante para aliviar o sofrimento palestino, mas é algo que não deve ser confundido com as políticas do Hamas. Se a minha crítica ao Hamas tivesse me impedido de fazer parte dessa campanha, eu teria me desacreditado intelectual e moralmente. Eu sou capaz de fazer determinada coisa, mas isso não significa que eu tenha que abrir mão de outra.

Spiegel: Na África do Sul, Nelson Mandela surgiu no momento certo, transformando o Congresso Nacional Africano em uma organização política que criou um país compartilhado para negros e brancos. Como você vê o futuro de Israel e dos territórios palestinos?

Mankell: Infelizmente, não existe um Mandela em Israel, e tampouco há um F.W. de Klerk. Existem de fato apenas duas opções: a solução sul-africana ou a solução de dois Estados. Eu não sei o que acontecerá. Mas se tudo continuar como está, haverá uma explosão. É por isso que o bloqueio precisa terminar. Isso seria, no mínimo, um primeiro passo. E seria algo capaz de conduzir a um diálogo real entre israelenses e palestinos, mas a forma como isso seria implementado é um problema deles.

Spiegel: Esse conflito já é suficientemente complicado, mas ele provavelmente sequer se constitui na maior ameaça à paz na região no momento. Essa ameaça é representada pelo Irã, com o seu polêmico programa nuclear e a sua previsão de que Israel desaparecerá do mapa.

Mankell: Eu estou muito preocupado, porque não confio nesse presidente (Mahmoud Ahmadinejad) e tampouco nos mulás. Eles desejam possuir qualquer arma que possa ser usada para destruir Israel. Naturalmente, nós não podemos aceitar isso.

Spiegel: Mas o que nós desejamos fazer? Campanhas como esta podem ser dirigidas contra um país democrático como Israel. O governo iraniano não deixaria as coisas chegarem até esse ponto.

Mankell: Eu fui convidado para um festival de literatura em Teerã, e recusei.

Spiegel: Por que?

Mankell: Porque o Irã coloca escritores e intelectuais na cadeia e faz com que alguns deles desapareçam. Eu não posso visitar um país como esse.

Spiegel: Por que você não vai lá e revela publicamente a repressão?

Mankell: Eu não seria capaz de fazer o que gostaria. Eles me utilizariam para fins de propaganda.

Spiegel: E você não teve essa preocupação em relação à campanha da Faixa de Gaza?

Mankell: Eu vi aquilo que vi. Senti aquilo que senti. Pensei aquilo que pensei. Eu vi o que acontece com o povo palestino, e foi isso o que eu quis divulgar.

Spiegel: Os intelectuais europeus encontram-se profundamente divididos em relação a Israel. De um lado estão os críticos de Israel, como você, o famoso escritor sueco, e do outro lado estão os críticos do islamismo, como Leon de Winter, o famoso escritor holandês, que chama você de um “idiota útil” para o Hamas. O que você tem a dizer a ele?

Mankell: É claro que não é isso que eu sou, mas eu apreciaria de ter uma conversa com qualquer pessoa que tem uma opinião decididamente diferente da minha, seja ela o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu ou o escritor Leon de Winter. Mas o que não faz sentido é ficar trocando gritos. Aliás, eu tenho vários amigos judeus, os meus livros estão publicados em hebraico e são best-sellers, e um ramo da minha família é composto de judeus.

Spiegel: Que papel você está desempenhando no momento? Você ainda é um escritor ou já é um político?

Mankell: Eu sou uma testemunha, porque eu estava lá. Muitas informações falsas já foram disseminadas, de forma que eu faço uma oferta às pessoas: eu estava em uma das seis embarcações, e eu posso lhes dizer o que aconteceu lá e o que isso significa.

Spiegel: Henning Mankell, obrigado pela sua entrevista.

Entrevista conduzida pelos jornalistas Tobias Rapp e Gerhard Spörl, em Berlim, na quinta-feira, 3 de junho, dois dias após Henning Mankell ter sido libertado.

http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/derspiegel/2010/06/08/primeiro-foi-pirataria-depois-sequestro-diz-o-escritor-henning-mankell-sobre-o-ataque-israelense-ao-comboio-humanitario.jhtm


TEXTO 2


Mesmo com braceletes dizendo médico em quatro línguas (inglês, turco, árabe e hebraico) e estetoscópios no pescoço, também a nós eles tentaram agredir. Um deles cuspiu no nosso cirurgião. Um outro deu um soco na enfermeira que tentava medicá-lo.

Sei que todos já estão cansados de ouvir falar do que aconteceu em Gaza nesta semana, mas como ouvi muitas asneiras por aí, resolvi contar a vocês a minha versão da história. Eu não quero que pensem que virei alguma ativista ou algo do gênero. Eu continuo a mesma Ana de sempre. Mas por ter feito parte desse episódio, não posso me abster de falar a verdade dos fatos. Eu estava lá! Ninguém me contou. Não li no jornal. Não vi fotos na Internet ou vídeos no Youtube. Vi tudo como foi mesmo, ao vivo e com muitas cores. Como vocês sabem, eu estou servindo com médica na medicina de emergência do Exército de Israel, departamento de trauma. Isso significa: medicina em campo.

4h30 da manhã de segunda-feira: meu telefone do Exército começa a tocar. Possíveis conflitos em Gaza? Pedido de ajuda da força médica, garantir que não faltarão médicos. Minha ordem: aprontar-me rapidamente e pegar suprimentos, o helicóptero virá me buscar na base. No caminho, me explicam a situação. Há um navio da ONU tentando furar a barreira em Gaza. Li todos os registros fornecidos pela inteligência do Exército (até para entender o tamanho da situação). O navio se aproximou da costa a caminho de Gaza. O acordo entre Israel e a ONU é que todos os barcos devem ser inspecionados no porto de Ashdod em Israel e todos os suprimentos devem ser transportados pelo nosso Exército a Gaza. Isso porque cerca de 14 mísseis tem sido lançados de Gaza contra Israel diariamente. E não podemos permitir que mais armamento e material para construção de bombas seja enviado ao Hamas, grupo terrorista que controla gaza. Dessa forma, evitamos uma nova guerra. Ao menos por agora.

O navio se recusou a parar. Disseram que eles mesmo entregariam a carga a Gaza. Assim, diante de um navio com 95% de civis inocentes (os outros 5% são ativistas de grupos terroristas aliados ao Hamas, que tramaram toda essa confusão), Israel decidiu oferecer aos comandantes do navio que parassem para inspeção em alto mar. Mandaríamos soldados para inspecionar o navio e se não houvesse armamento ele poderia seguir rumo a Gaza. Essa foi uma atitude extremamente pacifista do nosso exército, em respeito aos civis que estavam no navio. E, se não há armamento no navio, qual é o problema de que ele seja inspecionado? Os comandantes do navio concordaram com a inspeção.

5:00h - Minha chegada em Gaza. Exatamente no momento em que os soldados estavam entrando nos barcos. E foram gratuitamente atacados: tiveram suas armas roubadas, foram espancados e esfaqueados. Mais soldados foram enviados, desta vez para controlar o conflito. Cerca de 50 pessoas se envolveram no conflito, 9 morreram. Morreram aqueles que tentaram matar nossos soldados, aqueles que não eram civis pacifistas da ONU, mas sim militantes terroristas que comandavam o grupo. Todos os demais 22 feridos entre os tripulantes do navio, foram atendidos e resgatados por nós, eu e minha equipe e enviados para os melhores hospitais em Israel.

Entre nós, nove feridos. Tiros, facadas e espancamento. Um deles ainda está em estado gravíssimo após concussão e seis tiros no tronco. Meninos entre 18 e 22 anos, que tinham ordem para inspecionar um navio da ONU e não ferir ninguém. E não o fizeram. Israel não disparou nem o primeiro, nem o segundo tiro. Fomos punidos por confiar no suposto pacifismo da ONU. Se soubéssemos a intenção do grupo, jamais teríamos enviados nossos jovens praticamente desarmados para dentro do navio. Ele teria sim sido atacado pelo mar. E agora todos os que ainda levantam a voz contra Israel estariam no fundo mar.

Depois de atender os nossos soldados, me juntei a outra parte da nossa equipe que já cuidava dos tripulantes. Mesmo com braceletes dizendo médico em quatro línguas (inglês, turco, árabe e hebraico) e estetoscópios no pescoço, também a nós eles tentaram agredir. Um deles cuspiu no nosso cirurgião. Um outro deu um soco na enfermeira que tentava medicá-lo. Além de agressores, são também ingratos. Eu trabalhei por 6 horas seguidas atendendo somente tripulantes do navio. Todo o suprimento médico e ajuda foram oferecidos por Israel. Depois do final da confusão o navio foi finalmente inspecionado. Lotado de armas brancas e material para confecção de bombas caseiras. Onde é que está o pacifismo da ONU??? Na terça-feira, fui visitar não só os nossos soldados, mas também os feridos do navio. Essa é a política que Israel tenta manter: nós não matamos civis como os terroristas árabes. Nós não nos recusamos a enviar ajuda a Gaza. Nós não queremos mais guerra. Mas jamais vamos permitir que matem os nossos soldados.

Só milionário idiota que acha lindo ser missionário da ONU não entende que guerra não é lugar para civis se meterem. Havia um bebê no barco (que saiu ileso, obviamente): alguém pode explicar por que uma mãe coloca um bebê em um navio a caminho de uma zona de guerra? Onde eles querem chegar com isso? Eles não entendem que foram usados como ferramenta contra Israel, e que a intenção nunca foi enviar ajuda a Gaza e sim gerar polêmica e criar ainda mais oposição internacional. E continuam sem entender que dar força ao terrorismo do Hamas, do Hezbollah ou do Irã só significa mais perigo. Não só a Israel, mas ao mundo todo. E o presidente Lula precisa também entender que desta guerra ele não entende. E que o Brasil já tem problemas demais sem resolver. Tem mais gente passando fome que Gaza. Tem muito mais gente morrendo vítima da violência urbana no Rio do que mortos nas guerras daqui. E passar a cuidar dos problemas daí. Dos daqui, cuidamos nós.

Eu sempre me orgulho de ser também brasileira. Mas nesta semana chorei. De raiva, de raiva de ver que especialmente no Brasil, muito mais do que em qualquer outro lugar, as notícias são absolutamente distorcidas. E isso é lamentável. Não me entendam mal. Eu não acho que todos os árabes são terroristas. Mas sei que quem os controla hoje é. E que esta guerra não é só contra Israel. O Islamismo prega o extermínio de todo o mundo não árabe. Nós só somos os primeiros da lista negra. Por favor, encaminhem este e-mail aos que ainda não entendem que guerra é guerra e que os terroristas não são coitadinhos. Eu prometo escrever da próxima vez com melhores notícias e melhor humor. Tenho algumas boas aventuras pra contar.

Ana Luiza Tapia fez "Aliá" há pouco mais de dois anos e serve ao exército israelense (IDF - Israel Defense Forces), na área médica.



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Comentários

#1 Agapito Costa 07-06-2010 17:54
Apenas para lembrar que nem todos esquecem, muito menos os hebreus.
Amanhã, 08 de junho de 1967, ao fim da tarde, o Egito aceitava o cessar fogo.
Foi ontem, para os que têm juízo, o que não ocorre com a frotilha da suposta solidariedade.
Na referida data estáva fazendo mil oitocentos e noventa e sete anos que os judeus foram dispersados pelo mundo.
"Cavalo Pardo"
#2 Luís Augusto Panadés 07-06-2010 18:01
Desculpe a crítica,

Mas Israel errou quando libertou rapidinho estes agitadores como se fossem pacifistas, deveriam ser processados em Israel e se fossem condenados o cumprimento da pena ficaria a cargo de Israel aplicar ou não, dependeria de Israel escolher se apenas os extraditaria ou os faria cumprir a pena por seus crimes.

Contrariamente fez muito bem o Estado de Israel em inspecionar os barcos e reagir.
Os vídeos bem mostram que primeiro eles usanram equipamentos não letais à exaustão até que não se pudesse mais o fazer.

Israel também ficou devendo mostrar ao mundo seus soldados feridos, esfaqueados e tudo mais para calar a boca desta imprensa podre que tem a coragem de dizer que Israel atacou os navios.
#3 Agapito Costa 07-06-2010 18:28
Parabéns Ana Luiza.
Procure saber o trágico encontro dos "Migs-21" sirios, com a aviação israelense nas primeiras horas da guerra de 1967.
Você vai concluir que a mídia amestrada já estava presente naquela época.
E o que parece não evoluiram até o presente momento.
#4 Misael Bandeira Silveira 07-06-2010 19:21
Citando Luís Augusto Panadés:
Israel também ficou devendo mostrar ao mundo seus soldados feridos, esfaqueados e tudo mais para calar a boca desta imprensa podre que tem a coragem de dizer que Israel atacou os navios.


Isso é o que me deixa perplexo e indignado. O problema é as agências de notícias. A maior parte dos outros jornais apenas repete o que sai nelas.

É Agência Brasil, deitando o pau, a AFE, e várias outras. É sistemático. Não existe mais jornalistas, estamos na era do CTRL + C e do CTRL + V (Copia e Cola).

Fui criticar um jornalista, nos comentários de um jornal da minha região aqui, mas nem tinha me dado conta que o jornalistinha de araque apenas havia copiado e colado a matéria da AFE.

Os jornalistinhas de araque estão publicando muita coisa sem analisar o conteúdo, ou tentar apurar os fatos, daí que uma simples inspeção, em que soldados são atacados, de fato, vira o inverso, pelos jornais do Brasil inteiro.

Lamentável, mas tem muita gente, por causa do jornalismo de merda do Brasil, achando que Israel atacou uma missão humanitária, quando, de fato, os soldados apenas se defenderam de um grupo de 'piratas rebelde'.

Israel deu um exemplo, sábado, de como fazer uma abordagem marítima. Entraram, conversaram numa boa com o capitão e escoltaram o navio até um porto. Bem simples, sem violência da tripulação, sem violência por parte dos soldados.
#5 Alfred Palliser 07-06-2010 19:33
Eu soube que o babaca do Suplicy era para ter estado no tal navio da "ajuda humanitária",e que só não esteve lá por causa de que precisavam seu voto em Brasília naqueles dias.Não fosse isso o zonzo do Suplicy houvesse ido,como sempre manipulado pelo Aurélio Garcia.
#6 Ricardo Farias 07-06-2010 20:08
Parabéns a Ana otimo relato, infelizmente mais uma vez a midia manipuladora inverte os fatos e transforma bandidos em heróis, até quando Israel será injustiçado.
#7 Agapito Costa 07-06-2010 20:36
Em uma pesquisa realizada pelo jornal Zero Hora em 04 de junho de 2010 no que tange a quem tem razão com referência a crise,entre Israel e a frotilha humanitária, apresentou o seguinte resultado abaixo.
53% Dos gaúchos Israel tem razão.
35% Os palestinos tem razão.
2% Os dois.
10% Nenhum dos dois.
"Indío Valente".
#8 Tania Maria Hoefel 07-06-2010 21:03
Dra Ana,

"O Islamismo prega o extermínio de todo o mundo não árabe. Nós só somos os primeiros da lista negra." ( palavras suas).

Comentei dias atrás justamente sobre este assunto, para tentar alertar. Me arrependi, pois não fui compreendida por muitos, que desconhecem a ameaça deste "dragão".
Minhas orações estarão com todos os que estão vivenciando " in loco" esta loucura.
E, caso não lhe informaram, eu e se não me engano mais dois comentaristas, já avisaram que eles estão já infiltrados nas favelas do Rio de Janeiro.
Coragem,
Att
#9 Mark 08-06-2010 08:41
é óbvio que alguem que serve ao exército Israelense ia fazer o seu relado de "coitadinha", mas dizer "armas brancas" como se fossem metralhadores é no mínimo, duvidar da minha inteligência.

Em qualquer navio se tem cozinha, onde se tem facas... se fossem realmente terroristas não teria revidado a violência com pedaços de ferro e facas(obviamente retiradas da cozinha).

Chega a ser ridiculo a defesa dos Judeus malditos a esse fato. Vocês estão promovendo o extermínio dos palestinos, com o aval norte-americano, e querem dar uma de coitadinhos.

Na boa, Israel pra mim tinha era que sumir do mapa, assim como o Irã... pra mim ali não há certo nem errado, mas que o mais errado são os Judeus, isso sim é FATO!
#10 Leonardo Castilhos 08-06-2010 09:46
Essa operação teve um erro tático de invasão no navio, um procedimento mal sucedido e ponto final.

Não existem culpados, terroristas, extremistas, islamitas, ortodoxos, malucos ou sei lá, existe uma operação mal planejada que resultou em mortes não necessárias.

Todos sabem que Israel deve continuar a inspecionar os navios que chagam a Gaza, mas deveriam ao menos se preparar para tal.

Se eu estivesse na condição de invadido a minha primeira reação seria dar uma paulada no invasor.

Um simples erro tático que resultou numa crise de opinião publica para Israel.
Querem achar um culpado? Culpem quem planejou a invasão do navio.

Onde estão os veteranos da operação Entebbe????
#11 Misael Bandeira Silveira 08-06-2010 09:46
Citando Mark:
Em qualquer navio se tem cozinha, onde se tem facas... se fossem realmente terroristas não teria revidado a violência com pedaços de ferro e facas(obviamente retiradas da cozinha).


Revidado a que? Revide é quando alguém é primeiramente atacado, e então procura meio de revidar.

Se alguém revidou, foi o exército, após ser atacado pelos 'pacifistas' com o que tinham disponível para usar contra os soldados.

Vou te dizer o que é fato. Fato é que qualquer pessoa, perante uma força militar se torna um alvo no momento em que passa a atacar ou colocar a vida de outro em risco. Isso é fato e foi o que ocorreu.


.....................

Texto 3


JOÃO PEREIRA COUTINHO

Vamos falar de Israel?

A recusa palestina em aceitar dois Estados lançou o Oriente Médio numa guerra durante meio século


MEA CULPA: tantas vezes escrevi sobre Israel e os palestinos que nunca expus, com humildade, a minha solução para o conflito. Isso desperta acusações lancinantes contra o meu "sionismo militante".
Pai, perdoa-lhes, porque eles não sabem o que fazem. Eu sempre tive uma solução salomônica. A minha solução assenta na necessidade de existirem dois Estados -um israelense, outro palestino- com fronteiras seguras e reconhecidas.
A minha solução recomenda ainda que Jerusalém seja a capital dos dois Estados; ou, em alternativa, que seja uma "cidade franca", sob supervisão internacional.
Por último, a minha solução implica o direito de retorno dos refugiados de 1948 e 1967 para um novo Estado palestino. Admito que, ao abrigo de um qualquer programa de "reunificação familiar", alguns desses refugiados regressem a Israel.
Escrevo tudo isso e, relendo, percebo de imediato por que motivo nunca propus esses passos milagrosos, hoje repetidos por qualquer político ou jornalista analfabeto. É que esses passos são inúteis e, pior ainda, comprovadamente inúteis.
A solução dos dois Estados tem sido proposta desde 1947; peço desculpa: desde 1937; peço desculpa: desde 1919, ou seja, desde o momento em que a Liga das Nações, nos escombros da Primeira Guerra, determinou um mandato britânico para a Palestina.
A ideia, generosa, era proporcionar uma divisão equitativa e demograficamente proporcional entre judeus e árabes palestinos (isso se esquecermos que os árabes da Transjordânia já tinham ficado com 80% do mandato original). A ideia foi recusada pelos árabes palestinos.
Recusada em 1919 e recusada em 1937, quando a Comissão Peel, enviada ao terreno para averiguar as causas da violência entre os povos, voltou a repetir a solução dos dois Estados. Os judeus aceitaram as recomendações da Comissão; os árabes recusaram.
Foi assim que o mundo chegou ao plano de partição das Nações Unidas de 1947. Onde se escutou, já sem grande entusiasmo, a cantiga do costume: dois Estados para dois povos; e Jerusalém sob jurisdição internacional. O leitor é capaz de adivinhar o que aconteceu a seguir?
Eu conto: a recusa palestina em aceitar dois Estados lançou o Oriente Médio numa guerra permanente -durante meio século. Até o dia em que, cansados da luta, Yasser Arafat e Ehud Barak se encontraram em Camp David; corria o ano 2000.
Ehud Barak tinha uma ideia luminosa para terminar o conflito: dois Estados para dois povos; Jerusalém partilhada; e o retorno dos refugiados para o novo Estado palestino (e alguns para Israel). Dizer que Arafat cometeu o gesto mais criminoso de toda a história do conflito, recusando a oferta, seria um eufemismo.
Como seria um eufemismo escrever que o conflito piorou com a emergência do Hamas em Gaza, depois da retirada voluntária de Israel em 2005.
Lendo a imprensa dos últimos dias, qualquer leitor ficou com a ligeira impressão de que o Hamas é uma entidade "humanitária". Será?
Basta ler a sua carta operativa fundamental, onde a organização nega todos os acordos de paz, passados ou futuros, com a "entidade sionista" (art. 13º); exorta todos os palestinos à jihad e ao martírio (art. 35º); e até cita, como prova da maldade sionista, esse best-seller internacional intitulado "Protocolos dos Sábios do Sião" (art. 32º).
Os "Protocolos", escusado será dizer, não passam de um documento forjado pelas autoridades czaristas em finais do século 19, que tentavam "provar" a intenção judaica de dominar o mundo. Foi o pretexto que faltava para que se iniciassem os pogroms assassinos contra a população judaica do Império Russo.
É, aliás, no seguimento dessas perseguições que se iniciam as primeiras vagas de emigração para a Palestina (então parte do Império Otomano), um destino historicamente relevante para os judeus da diáspora e onde sempre existiu presença judaica ao longo dos séculos.
Regresso ao início: a minha solução para o conflito? Não tenho nenhuma. Pelo simples motivo de que o conflito não é, porque nunca foi, um conflito territorial.
É um conflito puramente ideológico, em que uma parte sempre se recusou a aceitar a existência da outra. Sem enfrentar essa verdade terrível e indizível, tudo que resta são delírios e mentiras.

jpcoutinho@folha.com.br

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