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segunda-feira, 28 de junho de 2010

Futebol e filosofia

Ótimo blog
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htp://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz2806201008.htm
FSP, 28-6-10
por ALDO PEREIRA
A Fifa (“Fédération Internationale de Football Association”) congrega mais países (208) do que a Organização das Nações Unidas (192); mais até -apenas com futebol- do que os 204 que disputam 28 outras modalidades esportivas do Comitê Olímpico Internacional.
A abertura da Copa focalizou a atenção de 1 bilhão de pessoas. Tanto interesse presume efeito congraçador do futebol entre os povos e no seio de cada um deles: pense no verde e amarelo que hoje respingam em ruas e fachadas do Brasil. Lindo, cochicha para si o diabo. Cada partida internacional encena, em palco verde, um conflito tribal ilustrado em proezas de fôlego, velocidade, destreza e vigor, elementos de combate nem sempre estritamente metafórico. É comum que o ardor belicoso transborde para as arquibancadas.
Daí caber a cada filósofo (e quem não é?) oportuna reflexão sobre o efeito desagregador do chauvinismo que o futebol incentiva.
Antagonismo bobo entre Brasil e Argentina favorece o interesse comum desses países?
Nicolas Chauvin é personagem de ficção teatral e não, como já se creu, soldado fanaticamente devotado a Napoleão e à França. Também o sentido original do termo “chauvinisme” evoluiu para além de “patriotismo exaltado”.
Com adaptações vernaculares, “chauvinismo” denota hoje nas línguas europeias a ideia ou sentimento de certo grupo social ser superior, com decorrente direito de desdenhar, humilhar, sujeitar e explorar outros grupos, além de, se for o caso, punir recalcitrantes. Para você, se chauvinista, tais são privilégios de atributos como nacionalidade, sexo, nível social, raça ou quaisquer constituintes da identidade que você tenha assumido ou que o destino lhe confira. Chauvinismo é a energia que faz bater o coração de uma besta de múltiplas cabeças: antissemitismo, bairrismo, colonialismo, corporativismo, elitismo, escravagismo, etnocentrismo, evangelismo, fascismo, imperialismo, jacobinismo, jingoísmo, nacionalismo, nazismo, ocultismo, oligarquismo, patriotismo, racismo, sectarismo, sexismo, sionismo, terrorismo, tribalismo, triunfalismo, xenofobismo e outras tantas.
No futebol, todas se confundem com a animação saudável e inocente. Mesmo em outros palcos elas se disfarçam; a conjugação gemelar de chauvinismo religioso com etnocentrismo, essa presunção de superioridade privilegiada de um grupo étnico sobre os demais, ameaça hoje a própria sobrevivência da humanidade.
O fascínio hipnótico dessa cabeça tem inspirado crimes horrendos perpetrados de parte a parte no Oriente Médio desde que imigrantes europeus iniciaram, em meados do século 19, gradual colonização de enclave judeu em terras muçulmanas da Palestina.
Nesse jogo sem juiz, em lugar de vuvuzelas, zumbem trombetas de anjos vingadores, enquanto as torcidas algazarram gemidos de vítimas despedaçadas, grunhidos de assassinos, sinistros brados de matança e o murmúrio de pergunta que ninguém responde: por quê? [ALDO PEREIRA, 77, é ex-editorialista e colaborador especial da Folha.]

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