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quarta-feira, 9 de junho de 2010

As características regionais e a identidade nacional brasileira


Por Carolina Octaviano

O Brasil é reconhecido como um dos países com maior diversidade étnica e cultural do mundo, apresentando uma população de 191,5 milhões de habitantes (dado divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE, em 2009), espalhadas em 26 estados de federação, mais o Distrito Federal, que apresentam realidades culturais, sociais e econômicas diferentes. Parte dessas distinções se deve ao modo pelo qual as localidades foram colonizadas e por quem as colonizou. Além disso, de acordo com Ruben Oliven, doutor em antropologia pela Universidade de Londres e autor da obra A parte e o todo – a diversidade cultural no Brasil-nação , a extensão territorial é um outro fator que explica esse fenômeno. “É natural que a população do Amazonas seja diferente da do Rio Grande do Sul, por exemplo”, comenta Oliven, que é professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul .

Entretanto, como um país de território vasto e com características regionais diferentes consegue manter uma identidade nacional de ponta-a-ponta ou, como diz usualmente, “do Oiapoque ao Chuí”? Para Anne-Marie Thiesse, historiadora e autora do livro A criação das identidades nacionais , essa unificação se dá a partir de uma construção social e não de modo natural e espontâneo. Os elementos básicos citados por ela para que isso ocorra são os ancestrais fundadores, a história, os heróis, o folclore, a língua, os monumentos e certas paisagens. Aplicando este conceito ao Brasil, pode-se obter como exemplo: os índios que aqui viviam e Pedro Álvares Cabral (ancestrais fundadores), a história brasileira, Tiradentes (um herói nacional), as danças folclóricas (manifestação do folclore), o português (língua), o Cristo Redentor e a Estação da Luz (monumentos) e as Cataratas do Iguaçu e a Floresta Amazônica (paisagens). Todos esses elementos são traços da identidade e da cultura brasileira, agindo como símbolos unificadores da nação.

Vale lembrar que a região, mesmo tendo características próprias, faz parte de um todo. “ O mundo atual está totalmente organizado em Estados-nação, o que é fruto de um processo histórico. Não existe região sem nação ”, completa Oliven. O Brasil passou por um processo mais intenso e significativo de integração nacional a partir de 1930, tendo Getúlio Vargas como presidente da República. Antes disso, ele apresentava poucas estradas e um sistema de comunicação ineficiente – o telégrafo era o modo mais rápido e ágil para se comunicar. “Com Getúlio, passa a haver uma maior integração tanto econômica, como política e de meios de comunicação. Além disso, há o que é chamado de construção da brasilidade (uma imagem sociocultural que fosse o espelho do povo brasileiro)”, explica. Com isso, o Brasil viveu um processo de integração nacional que faz com que ele seja visto até hoje como um país integrado, mas com bastante diversidade.

O pesquisador cita elementos bastante peculiares que compõem a identidade brasileira, que ajudam na unificação do país, como o samba, o futebol, o carnaval, e os meios de comunicação – que também desempenham um papel de destaque, uma vez que potencializam os elementos de unificação. “O futebol foi inventado na Inglaterra e trazido para o Brasil. Ele se popularizou e hoje é um símbolo brasileiro. Com o carnaval também ocorre um processo semelhante. Ele surgiu na Europa e chegou ao Brasil como algo elitizado, mas, aos poucos, foi se popularizando e se tornando um elemento nacional. O samba nasceu nas classes populares e hoje é identificado como uma manifestação cultural brasileira”, explica.

A língua como um elemento unificador

Como afirma Thiesse em seu livro, um dos elementos mais fortes de unificação de um povo e de um país é a sua língua. Jean Baptiste Nardi, doutor em história econômica, no artigo “Cultura, identidade e linguagem”, afirma que a língua portuguesa é um dos casos em que a linguagem passa a ser a expressão da união de um povo. “Portugal foi o primeiro país do mundo a unificar-se dentro de suas fronteiras atuais, no século XIII, e a existir como ‘nação'”, explica.

O pesquisador completa ainda que a língua portuguesa falada no Brasil não pode ser considerada um dialeto da língua de Portugal, e sim uma variante do português, haja vista que ambas as línguas tiveram uma evolução separada a partir do século XVI, por uma série de razões que fazem com que elas apresentem diferenças estruturais, tornando possível inferir que ambos são idiomas distintos. Para ele, o fato da língua falada aqui não possuir um nome próprio – brasileiro, por exemplo –, que contemple as características que a diferem da língua falada em Portugal e suas antigas colônias, acaba tendo um impacto negativo na identidade brasileira. “Não se definirá a língua brasileira sem que se determine, simultaneamente, a identidade nacional: ambas são estreitamente ligadas e a questão da língua é tanto um problema de linguística quanto de cultura e de sociedade”.

Gaúchos, um exemplo de identidade regional

Engana-se quem pensa que a identidade e a cultura gaúcha se resumem a determinados elementos como o chimarrão, o churrasco e os trajes típicos, pois a população do Rio Grande do Sul apresenta traços identitários bastante expressivos. Como forma de compreender a questão da identidade desse povo é preciso ter em mente alguns fatores como a localização desse estado numa posição geográfica fronteiriça (fazendo divisa com o Uruguai ao sul e com a Argentina ao oeste), ocupando uma posição privilegiada, definida por guerras históricas.

Para afirmar o pertencimento dessa população como parte do povo brasileiro, foi preciso negar a influência castelhana na região, ocupada pelos espanhóis graças ao Tratado de Tordesilhas, que dividia as terras não europeias “descobertas e a descobrir” entre Espanha e Portugal. Em 1737, uma expedição lusitana foi enviada a região para garantir o domínio das terras para Portugal, expulsando os espanhóis. A partir de 1825, a região volta a ser alvo de disputas. Desta vez entre Argentina e o Império brasileiro, por causa do domínio do Rio da Prata.

Esses inúmeros conflitos dos quais o Rio Grande do Sul fez parte são fundamentais para o entendimento da cultura, identidade e história locais. Desses, sem dúvida um dos mais importantes foi a Revolução Farroupilha ou Guerra dos Farrapos (um grupo liderado por Bento Gonçalves, em 1836, vence as tropas imperiais, proclama uma república independente, que em 1945 são retomadas pelo império), que hoje se configura como um dos principais símbolos da identidade e do orgulho gaúchos. Além dessa guerra, o estado se envolveu em conflitos de abrangência nacional como a Revolução de 1930 e o Movimento pela Legalidade, em 1961.

A língua, os costumes, as manifestações religiosas e a identidade da população do Rio Grande do Sul são reflexos das diversas culturas que compõem a sua sociedade. Por sua vez, a cultura desses grupos étnicos é indissociável da identidade do povo do Rio Grande do Sul, mesmo que apresentem características peculiares. No artigo “A formação da identidade do gaúcho”, o mestre em história ibero-americana pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), e professor da Universidade Luterana do Brasil, Carlos Renato Hees, afirma que “a cultura imigrante de origem europeia, a cultura das nações indígenas e dos negros constituem-se neste todo como sub-culturas, que através da valorização das memórias étnicas coletivas têm procurado manter e/ou reconstruir suas próprias identidades. As manifestações e revivências culturais, especialmente, dos negros e dos indígenas, apontam para uma reconstrução de sua história e relevância na formação do Rio Grande do Sul, como de resto do país”. Agrupando-se todos os elementos acima, pode-se dizer que “o Rio Grande do Sul é um estado sui generis ”, nas palavras de Oliven, da UFRGS.

Com tantos contrastes, o Brasil poderá se desenvolver?

É possível a nação brasileira tirar proveito das diferenças culturais, econômicas, sociais de cada região, em prol do tão sonhado desenvolvimento econômico? Atualmente, o Brasil apresenta uma posição de destaque no cenário mundial, sendo considerado um país emergente ou em desenvolvimento. É conhecido por sua riqueza, mas apresenta problemas estruturais como a má distribuição de renda e a desigualdade social. Na opinião de Oliven, os contrastes servem como um estímulo ao desenvolvimento brasileiro. “A diversidade regional e cultural não são um obstáculo para o crescimento do Brasil. Ao contrário, trata-se de um diferencial positivo”, conclui.

http://www.comciencia.br/comciencia/?section=8&edicao=56&id=714

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