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sexta-feira, 18 de junho de 2010

O povo e a construção de Brasília ( preparado para o pessoal da ESPM)

Elabore um texto argumentativo no qual você discuta a importância do povo da criação arquitetônica de Brasília.Procure refletir se a genial construção de Niemeyer e o projeto de Lucio Costa visavam ao bem-estar do povo, tanto dos que participaram na elaboração da obra, quando nos que escolheram Brasília como moradia. E mais: qual é o verdadeiro papel do criador de obra de arte destinada , inclusive, ao uso popular.

Texto 1
O último aspecto a ser estudado é o que vê Brasília como uma cidade utópica. Ela foi concebida para ser, na essência, uma obra de arte coletiva em
pleno planalto central. No Congresso Internacional de Críticos de Arte, Mário Pedrosa (apud MORAIS, 1994, p.41), organizador do encontro, afirma que,
diante da crise profunda da arte individual, a cidade nova surgia como o primeiro
esforço coletivo, no século passado, de profundas implicações psicossociais e, principalmente, de uma vontade de ordem, coroamento do projeto construtivo brasileiro em arte – que é  essencialmente utópico.
Apesar de Brasília ter sido concebida como uma cidade ideal, como uma “urbs” – um ambiente arquitetônico planejado –, percebe-se que ao longo
da História vem se transformando em um organismo vivo e contraditório, uma cidade que, como tantas outras, tem muitas comunidades e identidades. Brasília, símbolo do novo Brasil, insinuava a modernidade em ação, materializando um
momento de pré-maturidade em busca de um novo centro, de estabilidade e ordem social, no qual o complexo de inferioridade e a passividade pareciam estar superados.
Para Mário Pedrosa (1981, p. 319), “construir uma cidade é, hoje, portanto, uma utopia perfeitamente planejável, e um móvel ao alcance de homens capazes e movidos por uma ação finalista coletiva. Uma cidade, com seu programa, sua finalidade, sua planta, é algo como uma autêntica obra de arte a realizar”. Mas a cidade é feita de homens, não de
obras de arte. A cidade “ideal” ou utópica, surgida da suposta onipotência de seu criador, é uma ficção. Nenhuma cidade jamais nasceu da invenção de um
gênio; ela é o produto de toda uma história que se cristaliza e manifesta (ARGAN, 1998, p.244).
Se a cidade é feita de coisas e as coisas oferecem-se como imagens à nossa percepção, viver na dimensão livre e mutável das imagens é diferente de viver na dimensão imutável das coisas, da realidade que nos cerca. Assim, segundo Argan (1998, p.230), a experiência da cidade só poderá ser  consideradapartir da experiência individual e da atribuição pessoal de valor aos dados visuais.
“A cidade não se funda, se forma” (ARGAN, 1998, p. 234).
Mas a identidade de uma cidade é caracterizada também pela desordem, pela diversidade e diferença, ou, em outras palavras, pelas pessoas. Não os cidadãos ideais e imaginados pelos teóricos do planejamento urbano, e sim péssoas reais que nunca aparecem nos desenhos arquitetônicos. Na verdade, a auto-identidade de Brasília é tão problemática quanto a necessidade que foi criada para elegê-la como representante da nossa identidade nacional. Não podemos
cometer o erro de reduzir a cidade à arquitetura e ao urbanismo do poder,
à sua dimensão simbólica (utópica), ou a uma monumentalidade superficial e
distante, concentrada apenas no Plano Piloto. O que queremos dizer é que a
utopia da cidade de Brasília nos faz refletir sobre as diversas formas de cultura e
de arte de seus moradores, vindos de diversas partes do país e que se acumulam
em torno do Plano Piloto, nas dezenas de cidades satélites.
(...)
A transparência e a luminosidade destas paisagens urbanas, um tanto
“naif” e de registro documental, mostram os cantos e os recantos que atualmente
já não podemos mais contemplar. Em uma das imagens de Milton Ribeiro
onde vemos o Hotel Brasília, uma das primeiras construções do Núcleo
Bandeirante. Um lugar de encontros e desencontros, aqui ilustrado pelas pessoas
que chegam, por outras que estão sentadas e por aquelas que saem deste
local sem um destino certo. Comparadas à fotografia deste mesmo hotel da cidade
pioneira, notamos que a intenção de Milton Ribeiro era reconhecer as inúmeras
identidades que por ali circulavam; pintando um momento de recordação
e de registro histórico. Ambas são muito parecidas, diferindo apenas no ângulo
escolhido. A fotografia registra, na diagonal, a entrada do hotel, enquanto que a
aquarela nos mostra toda sua fachada, além de outros prédios comuns no Nucleo
ao fundo, dando uma informação mais detalhada ao espectador.
A visão binocular do artista ao registrar com emoção e simplicidade detalhes e lugares tão importantes na construção de Brasília transforma esta içonografia
em um legado histórico. A aquarela que retrata o comércio do Núcleo Bandeirante (fig. 1), aquarela expressionista intitulada “Comércio do Núcleo Bandeirante”
(Milton Ribeiro, 1986, arquivo pessoal do artista), por exemplo, e a fotografia
do mesmo local (fig. 2), “A Cidade Livre” (Arquivo público do GDF,
Brasília, 1962) reproduzem um cotidiano ativo, com grupos de pessoas diferentes
exercendo papéis diferentes. Cada um deles está concentrado nas suas atividades:
o comerciário que acaba de abrir a sua loja, o rapaz que fala ao telefone público, as crianças na rua: uma dela passeando de bicicleta e a outra trabalhando.
Mais uma vez, o artista procura captar a alma das pessoas que vivem numa cidade envolvida em seus traços retos e modernos.
http://www.unicamp.br/chaa/rhaa/atas/atas-IEHA-v2-123-132-lara%20moreira%20alves.pdf


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Texto 2
                    Cidade de utopias perdidas
Brasília é uma cidade de utopias. O que dizer do sonho de construir, no meio do nada, uma cidade “ideal”, com obras de urbanismo e de arquitetura de extrema relevância? Brasília saiu do papel e se tornou sonho concretizado. Mas como, na prática, é capaz de funcionar uma cidade idealizada a tal ponto?
Passeando pela cidade, fica uma persistente sensação de decadência, de algo datado, que pertence a um  passado (recente) que um dia teve seu auge, sua glória. Hoje a cidade ainda é um projeto em construção, ao mesmo tempo em que é um pretérito perfeito, passado-passado, mas já sem glórias, passado em declínio.
O hotel em que ficamos no primeiro dia era assim. Decoração estilo anos 70, mas em pleca decadência: toalhas de mesa desbotadas, saguão com luzes apagadas por economia, carpete descolado, desbotado e, especialmente, um clima de um passado de certo luxo mas já totalmente perdido.Essa impressão não se restringiu ao hotel. Andando pelas super-quadras, tal decadência persiste: grama por cortar, edifícios (todos quase iguais) com sinais desse passado perdido.
Há uma enorme diferença entre um passado que é valorizado e respeitado no presente para um passado já sem glória, sem luxo, e ainda totalmente desvalorizado, desrespeitado, decadente.
Impossível não lembrar do artista Robert Smithson, quando constata, ao visitar Passaic, em New Jersey, que as construções modernas já nascem ruínas antes mesmo de estarem concluídas.
Essa observação não é privilégio de Passaic nem de qualquer cidade em especial. Fala de uma modernidade, que é tão ansiosa para ter sempre o novo que termina por consumir-se a si própria: ao mesmo tempo em que almeja sempre o novo, produz um sem fim de velharias, “ruínas da modernidade”.
Brasília é um sonho concretizado do modernismo – e também por isso é tanto ruína quanto já foi novo um dia.
O que talvez seja ainda mais curioso seja o fato de o poder de o Brasil estar concentrado nessa mesma cidade, entre as “ruínas” do modernismo. Brasília parece ser uma cidade parada no tempo, voltada para um futuro que era imaginado no passado e que já não guarda esperança de voltar a tempos áureos.
O poder político em nosso país está geograficamente situado num lugar utópico que se tornou realidade, sendo hoje um território de passados que são sempre velhos (nunca antigos), um lugar de ruínas de futuros abandonados. Será possível acreditar na política do nosso país?
 
                     Brasil: Brasília
    A decadência de Brasília me faz pensar na falta de esperança com um futuro do Brasil. Brasília é uma cidade sonhada, planejada, um projeto arrojado de se construir no meio do “nada”, o centro político do país.
    Brasília mostra uma espécie de utopia voltada para o futuro, para um país do futuro, mas uma utopia já perdida, já gasta, passada, marcada pelo tempo. Brasília é uma cidade do passado – sem passado histórico mas com passado datado, marcado por uma época em que se acreditou que Brasília seria uma cidade cosmopolita. Como disse o próprio Lucio Costa:
 
“isso tudo é diferente do que eu tinha imaginado para esse centro urbano, como coisa requintada, meio cosmopolita. Mas não é. Quem tomou conta dele foram esses brasileiros verdadeiros que construíram a cidade e estão aí legitimamente. É o Brasil… eu fiquei orgulhoso disso, fiquei satisfeito. É isto. Eles estão com a razão, eu é que estava errado” (citado em Lucio Costa, por Guilherme Wisnik, p.12)
 
Há um descompasso difícil de entender em Brasília. Quando li essa declaração de Lucio Costa, compreendi: é uma cidade planejada que escapou  aos planos, que deveria ser “coisa requintada, meio cosmopolita”, mas não é, é Brasil. É um plano que saiu do controle, a cidade que se fez com o povo que vive nela, não com os sonhos de urbanismo. Brasília é um pouco Frankenstein, por isso, o projeto do criador que toma vida própria e então este perde o controle da criatura.
 
    Brasília é esse lugar estranho. É toda passado recente, tudo é novo já sendo velho. Essa cidade me faz pensar que o Brasil também é assim, um lugar potencialmente incrível (pela criatividade e pela capacidade de realização de sonhos e projetos) mas sem perspectiva de um futuro mais justo, mais igual, mais honesto.
 
    Brasília é uma cidade sem calçadas, sem lugar para pobre morar ou circular. É uma cidade absolutamente elitista (embora no projeto o sonho talvez fosse outro), onde só vive a cidade quem tem boas condições financeiras. Uma cidade pensada para não misturar classes sociais, para a classe média não encontrar os pobres – que, além de morarem fora do plano piloto, não têm transporte público adequado, nem como atravessar ruas em segurança, nem como andar em calçadas se não for dentro das super-quadras.  Um lugar de exclusão, de desigualdade. É ainda um lugar de poder, de circulação de muito dinheiro, de oportunidades de trabalho.  Ainda hoje, as cidades satélites recebem muitos retirantes nordestinos, que já não vão em grandes quantidades para São Paulo, mas continuam à procura de um futuro melhor.
 
TEXTO 3
“A arquitetura como construir portas,
de abrir, ou como construir o aberto;
construir; não como ilhar e prender;
nem construir como fechar secretos;
construir portas abertas, em portas;
casas exclusivamente portas e teto.
O arquiteto: o que se abre para o homem
(tudo se sanearia desde casas abertas)
portas por-onde, jamais portas-contra;
por onde, livres: ar luz razão certa”


Melo Neto, João Cabral de, Fábula de Um Arquiteto, A Educação pela Pedra, Rio de Janeiro, nova Fronteira, 1996, p. 36.
 
Texto 4
Não é o ângulo reto que me atrai, nem a linha reta, dura, inflexível criada pelo o homem. O que me atrai é a curva livre e sensual. A curva que encontro no curso sinuoso dos nossos rios, nas nuvens do céu, no corpo da mulher preferida. De curvas é feito todo o universo, o universo curvo de Einstein”.
Niemeyer 

Texto 5
"As escolas-classe eram essenciais para o funcionamento das superquadras. Niemeyer desenhou a unidade da SQS 308, modelo repetido com pequenas diferenças na SQS 108. São dois volumes interligados por marquise: um abriga instalações administrativas e outro é composto por cozinha, depósito, sanitários e oito salas de aulas. Mas a marquise é estreita e protege pouco nos dias chuvosos. A cobertura do pátio entre as salas tem caimento para o interior e quando chove o pátio fica molhado e as crianças são obrigadas a ficar na classe durante o recreio. Além disso, o pé-direito baixo e a incidência solar vespertina tornam o ambiente abafado e desconfortável, em especial nos meses de seca. Com cerca de 350 alunos em dois turnos, os banheiros não dão conta da demanda na hora do recreio. Como o projeto não previa biblioteca, as duas escolas abriram mão de uma das salas de aulas para dar lugar aos livros. Sem um local adequado para as refeições, as classes têm que fazer as vezes de refeitório. Os funcionários ainda apontam a pequena dimensão dos pátios, agravada pela ausência de quadras esportivas: não há lugar para o jogo de futebol e isso acaba criando brigas pelo espaço entre meninos e meninas... Por outro lado, o carro, que era a solução para a "cidade rodoviária", tornou-se um problema, já que faltam estacionamentos".
 
Texto 6

Perguntas de um Operário Letrado

Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilónia, tantas vezes destruida,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Sò tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.

O jovem Alexandre conquistou as Indias
Sózinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
Quem mais a ganhou?

Em cada página uma vitòria.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?

Tantas histórias
Quantas perguntas
Bertold Becht

  

 

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