Total de visualizações de página

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Arborização urbana: um encontro da natureza com o meio urbano

Pamela Moser*, Ana Carolina Silva*, Pedro Higuchi*

Resumo: A arborização urbana possui importante papel no equilíbrio ambiental das cidades. Tem a finalidade de preservar a diversidade da flora e da fauna, embelezar ruas e praças e criar locais que proporcionem a chance de recreação e lazer, fatores estes que aumentam a qualidade de vida da população. Entretanto, é fundamental a escolha correta das espécies a serem utilizadas. Em nosso país, há a tendência da utilização de espécies exóticas (que estão fora de sua área natural) na arborização urbana, sendo que muitas destas espécies são consideradas invasores biológicos, ou seja, podem dispersar propágulos para florestas naturais, ocupando o lugar de espécies nativas. Além disso, na maioria das vezes, são plantadas muitas árvores da mesma espécie, resultando em baixa riqueza de espécies. A utilização de espécies nativas na arborização urbana, por sua vez, evita a uniformização da paisagem, quando utilizada alta riqueza de espécies, possibilita maior adaptação das espécies, por pertencerem à mesma região fitoecológica, além de criar uma identidade arbórea para as cidades.
Palavras-chave: Arborização urbana; ecologia de florestas urbanas, espécies nativas
Abstract: The urban arborization plays an important role on the cities environmental balance. Its aims to improve some factors that increase human life quality, such as to preserve the flora and fauna diversity, to beautify streets and squares and to create spaces for recreation and leisure. However, the correct choice of species to be used is a crucial step in this activity. In our country, the use of exotic species (outside its natural occurrence area) in the urban arborization is a very common practice, most of them being biological invasive which may disperse propagules into natural areas, replacing native species. Furthermore, most of the time, many trees of the same species are planted, resulting in low species richness. On the contrary, the use of native species in urban arborization avoids the landscape homogeneity when high species richness is used, allows a better adaptation of species belonging to the same phytoecological region and creates tree identity for cities.
Keywords: Urban arborization, urban forest ecology, native species
No Brasil, a arborização urbana foi implantada sistematicamente nos municípios a partir da segunda metade do século XX, principalmente por ter sido a época de maior êxodo rural e crescimento das cidades, o que gerou a necessidade da criação de espaços urbanos arborizados que proporcionassem lazer e bem estar psicológico à população¹. Os espaços verdes, as áreas livres e a arborização viária são elementos que geram vários benefícios para a população das cidades, pois possibilitam a melhoria da qualidade de vida, são atrativos turísticos e, ao mesmo tempo, permitem a conservação da diversidade biológica de espécies.
As árvores utilizadas na arborização urbana possuem importância ecológica, econômica e social. Como benefício ecológico, pode-se citar que o plantio delas: melhora o microclima, por meio do sombreamento que diminui a temperatura do ambiente e aumenta a umidade relativa do ar, sendo que as cidades com pouca vegetação apresentam microclima próximo a de um deserto; protegem os solos, uma vez que as raízes melhoram a sua estrutura e aumentam a permeabilidade reduzindo, assim, a erosão e a possibilidade de enchentes; aumentam a diversidade da flora e, consequentemente, da fauna, já que seus frutos servem de alimento, principalmente para pássaros².
A importância social da arborização urbana diz respeito à melhoria da saúde humana nos aspectos físicos (e.g. melhoria da qualidade do ar, que tem como conseqüência positiva a redução de pessoas com doenças respiratórias, entre outros) e psicológicos. Quando bem planejada, quebra a monotonia da paisagem por meio das diferentes cores, formas e texturas. Este convívio com a natureza remete a ancestralidade, diminuindo índices de estresse e proporcionando bem estar. As áreas verdes, como praças e parques, por exemplo, permitem práticas de contemplação, circulação, recreação e esporte. Diminuem a poluição visual, melhorando a estética das cidades e retém parte do som por meio da vegetação que impede que este se propague, reduzindo assim a poluição sonora. Também reduzem a poluição do ar, por meio do seqüestro de CO2 no processo da fotossíntese, mas, principalmente, pela retenção de partículas suspensas no ar.
Os principais benefícios econômicos poderiam ser classificados como diretos, no caso da possibilidade de extrair madeira proveniente da poda, utilizar os frutos, ornamentar praças e distribuir o tráfego urbano, como no caso das rotatórias, e indiretos, considerando que os habitantes estariam mais saudáveis, sendo, assim, mais produtivos e eficientes em seus respectivos trabalhos.
Porém, para a que a arborização cumpra os benefícios a ela intrínsecos é fundamental o seu planejamento adequado. É importante que a as árvores estejam distribuídas de forma que não entrem em conflito com os elementos da cidade. É relevante ressaltar o cuidado que se deve ter para que as plantas não interfiram nas calçadas e edificações, na fiação elétrica e que não atrapalhem a visibilidade do trânsito. O manejo adequado das árvores é essencial para que estas se desenvolvam, podendo expressar seu potencial e cumprir suas funções.
No manejo das árvores urbanas é necessário cuidado especial com as podas realizadas. Em geral, pode-se observar em diversas cidades a realização de podas mal conduzidas e mutiladoras que, além de ser uma porta de entrada para fitopatógenos, causa um aspecto visual desagradável. Essas podas são realizadas no caso de planejamento inadequado quanto à escolha da espécie a ser utilizada para cada espaço disponível. Por exemplo, abaixo de rede elétrica só é possível utilizar espécies de pequeno porte. Respeitando algumas ressalvas, existe uma infinidade de espécies nativas em cada bioma que pode ser utilizada na arborização urbana com o objetivo de explorar o grande potencial da biodiversidade existente, traduzida na variedade de formas e cores.
No Brasil, existe a tendência do uso de espécies exóticas na arborização. Estas espécies, além de não se comportarem do mesmo modo como nos seus ambientes de origem, podem causar diversos danos ao meio-ambiente, como a perda da biodiversidade local, por meio da “invasão” dos ambientes naturais, modificações dos ciclos e características naturais dos ecossistemas atingidos e a alteração fisionômica da paisagem natural3. Optar por espécies nativas possibilita a manutenção das características naturais do ecossistema, conservar e valorizar a diversidade vegetal regional e, conseqüentemente, a diversidade animal por meio da conservação dos polinizadores e dispersores naturais. Além disso, a utilização das espécies nativas também permite a realização da educação ambiental, visando a valorização destas espécies, e proporciona às cidades a criação de uma identidade arbórea.
A maior riqueza de espécies é outro ponto importante a ser considerado na arborização, pois garante a proteção contra o ataque de pragas e doenças. Árvores da mesma espécie plantadas próximas uma das outras, suscetível a determinada doença ou praga, se contaminada, pode propagar este fitopatógeno para outras árvores da mesma espécie também susceptível. Para que haja proteção contra pragas e doenças, recomenda-se que o número de árvores de uma mesma espécie não exceda mais que 10% do número total de árvores, que o número de árvores de um mesmo gênero não exceda 20% do total de árvores e que o número de árvores de uma mesma família botânica não exceda 30% do total de árvores4.
Um estudo de caso em praças da cidade de Lages, SC.
Lages está localizada no Planalto Catarinense, Região Sul do Brasil, possuindo população de 161.583 habitantes5. A vegetação está inserida no bioma Mata Atlântica, classificada como Floresta Ombrófila Mista, também conhecida como Floresta de Araucária. Para avaliar a arborização das praças na cidade de Lages, foi realizado um estudo de todas as árvores de cinco praças, as quais foram identificadas e quantificadas.
Nas praças avaliadas não foram encontrados problemas quanto à sanidade das árvores, pois estas se apresentavam sem a presença evidente de fitopatógenos. Foi observada depredação em diversos indivíduos o que indica a falta de cuidado e o desprezo da população com a arborização, sendo necessários trabalhos de educação ambiental. Foi detectada a interferência dos galhos das árvores na fiação elétrica, resultado do mau planejamento na implantação da arborização. Como conseqüência, algumas árvores são podadas, mutilando as árvores, o que causa um efeito estético desagradável.
Em todas as praças avaliadas, foram encontradas 217 árvores pertencentes a 36 espécies e a 20 famílias botânicas. Das 36 espécies, 16 são nativas e 20 são exóticas, correspondendo a 55,6% de espécies exóticas. Analisando-se o número de árvores, a utilização de espécies exóticas se torna ainda mais preocupante, pois 75,12% das árvores pertencem a espécies exóticas e somente 24,88% são de espécies nativas.
O maior número de árvores foi observado para a espécie exótica Ligustrum japonicum (ligustro), com 57 indivíduos, representando 26,27% do total das árvores. Esta espécie ultrapassa o recomendado pela literatura, que é de 10% de indivíduos da mesma espécie. Na Região Sul do Brasil, há grande tendência da utilização desta espécie na arborização urbana. Milano (6) realizou estudo em Curitiba, PR, inventariando 4.382 árvores e encontrou 14,7% destas pertenciam a Ligustrum japonicum. Silva (7), em Pato Branco, PR, realizou o inventário de 1.558 árvores, onde 39% destas eram pertencentes à mesma espécie. Ligustrum japonicum não é uma espécie adequada à arborização urbana, especialmente quando plantados muitos indivíduos, pois é considerada uma espécie invasora, ocupando o lugar de espécies nativas em florestas naturais. Seu plantio em larga escala nas cidades aumenta a chance da propagação de L. japonicum em florestas naturais adjacentes.
Dentre as espécies exóticas, além do L. japonicum, outras espécies apresentaram grande número de árvores: Nerium oleander, a espirradeira, representou 8,29% do total de árvores; Salix babylonica, o chorão, teve 8,29% das árvores; Grevillea robusta, a grevílea, obteve 5,53% do total das árvores; e Prunus campanulata, a cerejeira-do-japão, obteve 5,07% dos indivíduos arbóreos. As espécies nativas com maior número de árvores foram: Schinus molle, a aroeira-salsa, que obteve 4,15% do total de árvores; Eugenia uniflora, a pitangueira, que teve 2,76% do total de árvores; e Syagrus romanzoffianum, o jerivá, com 2,76% das árvores.
Devido ao grande número de árvores de espécies exóticas, o recomendado neste caso é a substituição gradual, a fim de se evitar um grande impacto visual e de regulação hídrica, por árvores de espécies nativas da região fitoecológica onde a cidade esta inserida.
No processo de substituição é fundamental que a seleção das espécies esteja embasada em levantamentos florísticos existentes na região ou na literatura especializada, considerando-se que, se a espécie ocorre naturalmente na região, maior é a probabilidade dela se adaptar ao ambiente na qual será feito seu plantio.
A floresta Ombrófila Mista abriga muitas espécies arbóreas de valor paisagístico. Algumas espécies que se destacam para arborizar cidades nesta região fitogeográfica são: Handroanthus albus, o ipê amarelo, e Jacaranda puberula, a carobinha, ambas de grande valor paisagístico devido à grande beleza de suas flores; Campomanesia xanthocarpa, a guaviroba, Acca sellowiana, a goiabeira serrana, Eugenia pluriflora, o guamirim, Eugenia pyriformis, a uvaia, que se destacam pela beleza das folhas, das flores e do tronco, além de serem atrativas para a avifauna; Roupala montana, o carvalho brasileiro, árvore de grande porte e de grande beleza; e Araucaria angustifolia, o pinheiro-brasileiro, considerado símbolo da região serrana e capaz de auxiliar na formação de uma identidade arbórea para as cidades da região, fator importante para potencializar o turismo.
Referências Bibliográficas
1BORTOLETO, S. Inventário Quali-Quantitativo da Arborização Viária da Estância de Águas de São Pedro-SP. Dissertação de mestrado. Piracicaba, SP, maio de 2004.
2MELLO FILHO, L. E. Arborização urbana. In: ENCONTRO NACIONAL SOBRE ARBORIZAÇÃO URBANA, 1, Porto Alegre, 1985. Anais. Porto Alegre. p.117-127. 1985.
3ZILLER, S. R. Os processos de degradação ambiental originados por plantas invasoras. Revista Ciência Hoje. n. 178, dez. 2001
4SANTAMOUR JUNIOR, F. S. 1990. Trees for urban planting: diversity, uniformity, and common sense. In: Metria Conference, 7., 1990, Lisle. Proceedings... p.57-66.
5IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo demográfico 2007. Rio de Janeiro: IBGE. www.ibge.gov.br/home. Acesso em: 03 fev 2009.
6MILANO, M. S. Arborização de ruas de Curitiba/PR: uma análise qualitativa. Encontro Nacional sobre Arborização Urbana, 1., 1985, Porto Alegre. Anais. Porto Alegre: Secretaria do Meio Ambiente, p. 83-86, 1985.
7SILVA, L. M. et al; Arborização dos bairros Pinheiros, Brasília e Bancários em Pato Branco/PR. Scientia Agraria, Curitiba, v.9, n.3, p.275-282, 2008.
8STAPE, J. L. 2005. Acesso em: 17 de agosto de 2009. Disponível em:
Figura 1. Praça Jonas Ramos no centro da cidade de Lages, SC, demonstrando a utilização de espécies exóticas na arborização, como o chorão. (Foto: Pamela Moser)
Figura 2. Arborização associada a monumentos históricos. (Foto: Pamela Moser)
Figura 3. Ligustrum japonicum, espécie exótica não recomendada para arborização urbana. (Foto: Pamela Moser)
Figura 4. Handroanthus albus, o ipê amarelo, espécie nativa recomendada na arborização urbana. (Foto: Stape8)



*Pamela Moser é estudante de Engenharia Florestal da UDESC, atuando nas áreas de Arborização Urbana e Ecologia Florestal. Departamento de Engenharia Florestal - Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Endereço: Av. Luiz de Camões, 2090 Bairro Conta Dinheiro - 88520-000 Lages, SC.

Ana Carolina da Silva e Pedro Higuchi são professores do Departamento de Engenharia Florestal da UDESC, atuando nas áreas: Ecologia Florestal, Dendrologia e Fitossociologia. Departamento de Engenharia Florestal - Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Endereço: Av. Luiz de Camões, 2090 Bairro Conta Dinheiro - 88520-000 Lages, SC.

http://www.eca.usp.br/nucleos/njr/espiral/placa42b.htm

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Pesquisar este blog

Arquivo do blog