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quinta-feira, 20 de maio de 2010

Outras palavras , Revista Língua



Sucesso recente de canções como "Shimbalaiê", de Maria Gadú, mostra a vitalidade da MPB em criar palavras que não existem

Guilherme Bryan


"Shimbalaiê", tema da novela das 8 cantado por Maria Gadú: idioleto musical
Odara, drão, platinela, baticum, batumaré, ilariê, ho ba la la, periba, blésq, plunct, aserejé, avohai, mironga. Algumas das inúmeras palavras criadas na música popular brasileira não possuem qualquer significado aparente e são repetidas exaustivamente pelos ouvintes, repercutem na mídia e nas redes sociais da internet. Os casos mais recentes são "Tchubirundu", do cantor de reggae Armandinho, e "Shimbalaiê", título da canção de Maria Gadú, incluída na trilha musical da novela Viver a Vida, da rede Globo. Não se trata de onomatopeias (palavras que tentam imitar os sons) ou formas reduzidas de palavras e expressões já existentes. É antes uma espécie de idioleto musical, uma ocorrência individualizada de linguagem, um neologismo sem significado necessário. Algo próximo do que Moraes Moreira, Luiz Galvão e Pepeu Gomes definiram, numa canção dos Novos Baianos, como sendo a "linguagem do alunte", título também de disco de 1974:
"Palavra nova que dispensa explicação
Pra lá, muito pra lá de alucinação
Ter quer dizer nada".
- Quando componho, os fonemas, os sons e as sílabas vêm natural e intuitivamente. Assim, crio palavras novas. É claro que existe um trabalho mental e lógico para encaixar as palavras e os conteúdos que queremos expressar. Mas as novas expressões também podem traduzir melhor um sentimento - explica Mallu Magalhães. Criação particular
No primeiro e homônimo CD gravado por ela em 2008, há palavras como "tchubaruba", que ela garante ser uma expressão sonora que carrega sensação de alegria, tranquilidade e outros sentimentos bons.
A cantora e compositora cita como referência na criação de palavras o sambista Moreira da Silva, que, em meio à descrição de uma partida de baralho, em Jogando com o Capeta, parceria com Ribeiro Cunha, solta um "vargo" e uma "solinge".
Outras fontes de inspiração seriam as canções compostas e/ou interpretadas por Bezerra da Silva, como A Gíria É a Cultura do Povo, em que o intérprete e compositor apresenta, entre outras expressões saídas das ruas, "vagabau" e "gbo".
O pesquisador musical Rodrigo Faour acredita que articulações vocabulares como essas - de significantes não raro vazios de significados - sejam parte de uma tradição criativa comum ao ramo musical.
- Muitas combinações de notas musicais sugerem sons de palavras e isso acaba sendo um estímulo para alguns compositores, mesmo antes de criarem letras para suas canções. Aí certos improvisos podem virar partes da letra propriamente dita. Não há muito que teorizar em cima disso. É pura criatividade mesmo - aposta Faour.
Articulações da fala
Luiz Tatit, compositor do grupo Rumo e professor do Departamento de Linguística da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, acha que o fenômeno indica a força do papel da fala na composição musical brasileira.
- Qualquer canção, na medida em que tem letra e melodia, é muito vinculada à nossa fala cotidiana. Muitas vezes, na conversa, criamos expressões inexistentes, até para fazer uma graça ou brincar com alguém. Só que nós falamos e não repetimos mais, porque vira uma criação muito particular daquele momento ou circunstância - analisa Tatit.
Numa canção, no entanto, o processo é mais perene, diz Tatit.
- Na canção, uma mera criação de circunstância é gravada, repetida sempre do mesmo jeito e, então, eterniza-se como meio de expressão no seio da cultura. Muitas vezes, essa criação não tem nem uso, só faz sentido na canção e, por isso, não pode ser incorporada ao dicionário - afirma ele.
Tradição mundial
Para Tatit, os cantores e compositores Arnaldo Antunes e Lenine são "um prato cheio" de invenções de palavras e da mescla de uma palavra com outra, formando uma terceira. Lenine é autor de, entre outras, "platinela", em Jackson do Pandeiro; e da brincadeira "lô" de "Eu tô lá e lô", da canção Lá e Lô. Já Arnaldo Antunes demonstra a influência concretista em invenções que nada mais são do que junções de sílabas, caso de "guapu" e "ruvu", de Um Pé de Quê?, parceria com Kassin.
O crítico e pesquisador musical Tárik de Souza recorda outras expressões como "sacudin", de Jorge Benjor, e concorda com o fato de ser esse um fenômeno mundial, relembrando "uah-bap-lu-bap-hah-béin-bum", do norte-americano Little Richard, que deu título a um disco do brasileiro Raul Seixas; "sha-ba-da-ba-dás", espalhados no mundo todo pelo doo-wop e pelo rhythm & blues. Porém, para ele a explicação para a invenção de tantas palavras pode ser ainda mais trivial:
- Há a necessidade da invenção, que é inerente à arte. Vide Guimarães Rosa, que criou quase uma "novilíngua" - diz Tárik.
Um dos maiores mestres na arte de brincar com palavras é Tom Zé, que se autodenomina "carpintor", misto de carpinteiro e pintor. Ele trouxe para a música brasileira, entre outras, "desenrock-se" e "unimultiplicidade", que deram título às respectivas canções; "desinvernou" e "dia-diou", de A Moreninha; "quitiquirá" e "pande que chó", da música Yamanduzório, parceria com Gilberto Assis; "zabumbá", "corisca", "ciençá", todas de Xiquexique, composta com José Miguel Wisnik.

Mallu Magalhães e o sucesso da canção "Tchubaruba": expressão carregada de "alegria e bons sentimentos"
Em 2006, Wisnik realizou o disco Danç-Êh-Sá, que tem o subtítulo "Pós-Canção/Dança dos Herdeiros do Sacrifício/7 Caymianas para o Fim da Canção". No encarte, o disco é definido como um CD cantado sem palavras. - Desde as primeiras canções, eu faço essas brincadeiras, que se devem à minha educação, antes da escola, no berçário, com os preceptores babás que viviam brincando com a língua, como se fossem provençais, com "É um dia, é um dado, é um dedo / Chapéu de dedo é didal". Então fui bilíngue na infância e aprendi com o povo do interior da Bahia a ter liberdade com a língua. Também sempre tive a prática de conjugar substantivos e substantivar verbos, que é possível traduzir sem precisar eu dar explicação. Estou aqui brincando de dar explicação por se tratar do próprio assunto - reflete Tom Zé.
Impublicável
Os motivos para a criação de novas palavras na música podem ser inúmeros, inclusive políticos. A censura, que vigorou no Brasil de 1964 a 1988, levou muitos compositores a encontrarem subterfúgios para tratar na canção de temas não permitidos. Foi o que aconteceu com "A Tonga da Mironga do Kabuletê", composta por Vinicius de Moraes e Toquinho em 1970, brincadeira que, por não ser compreensível, deixou muita gente apreensiva.
De acordo com o Aurélio, "tonga" pode ser uma palavra angolana para "terra a ser lavrada" ou "lavoura". No candomblé e na macumba, "mironga" é "feitiço, sortilégio" e bruxedo"; e cabuleté", "indivíduo reles, desprezível e vagabundo". Porém, o próprio Toquinho conta como nasceu a canção:

- A baiana Gesse, mulher de Vinicius na época, um dia chegou dizendo que ouvira no mercado uma expressão em Nagô: "Na songa da mironga do kabuletê". É um xingamento que, traduzido, fica impublicável. É uma expressão com uma sonoridade musical e a situação política do país ensejava que mandássemos muita gente para tonga da mironga do kabuletê. Trocamos "songa" por "tonga" por uma questão de ajuste sonoro em relação à melodia - explica o compositor.
Com relação à razão para tantas palavras surgirem na música brasileira, Toquinho explica:
- A língua portuguesa é vasta em sinônimos e neologismos. A poesia aceita as formas mais variadas de expressões populares. Afinal, a música é arte essencialmente popular e a poesia que a completa reflete essa condição - avalia.

Neologismos
Já quanto ao surgimento dessa prática na música brasileira, é difícil localizar, mas Tárik de Souza arrisca o início do século 20, quando, no selo Zon-O-Phone, da casa Edison, o cantor Bahiano, famoso por "Pelo Telefone", considerado por muitos o primeiro samba gravado no país, já registrara temas como "Bolimbolacho", utilizando corruptelas e expressões não dicionarizadas.
Como "proesia", muitas palavras e expressões que surgem nas canções podem ter o sentido facilmente compreendido pelo ouvinte. São genuínos neologismos. Esse é o caso de "parabolicamará", que deu título à canção e ao disco de Gilberto Gil, autor também de "incabível", o que não cabe, da canção Metáfora. É também o caso de "avohai", que Zé Ramalho escolheu para dar título a uma canção que homenageia o avô, que o criou e, portanto, foi seu avô-pai.
Outras Palavras, composta por Caetano Veloso em 1981, é provavelmente a canção brasileira com mais palavras inventadas. Ali estão "deslinda-se", "parafins", "gatins", "alphaluz", sexonhei", "ouraxê", "palávoras", "driz", "okê", "projeitinho", "imanso", "ciumortevida", "vivavid", "lambetelho", "frúturo", "orgasmaravilha-me", "homenina", "nel", "paraís" e "felicidadania". Já "odara", título de outra canção do compositor, vem da palavra Iorubá, "dara", que significa "belo".
Mais invenções
Arnaldo Antunes criou "swingnifica" "signifinca" e "signifixa" em O Que Swingnifica Isso?. Outras criações dele, no grupo Tribalistas, são "carnavália", "corasamborim" e "carnalismo". Integrante do mesmo grupo, junto com Marisa Monte, Carlinhos Brown também é um inventor de palavras. Do vocabulário que criou, fazem parte "periba", de
Meia-Lua Inteira"; "frases ventias", que dá título a uma canção; "auauê zu êzon", de Pegadas na Areia; "saloba", de Cavalo da Simpatia; e "proesia", junção de prosa e poesia, de "Garoa 8.0".
O pesquisador Rodrigo Faour acrescenta à lista de novas palavras da MPB certos neologismos como "patu", de Erasmo Carlos, "fullgás", de Marina Lima e Antonio Cícero, "requenguela", de Martinho da Vila; e "Bigorrilho", sucesso de Jorge Veiga.

Já outras palavras podem ser simplesmente apelidos ou modos carinhosos de se referir a uma pessoa, mas que, por não serem explicadas na canção, ganham novos significados por parte dos ouvintes.
Basta lembrar o sucesso de "Drão", forma reduzida de Sandrão, apelido da então esposa de Gilberto Gil, Sandra Gadelha; e de "Dindi", apelido da cantora Sílvia Teles, intérprete da canção de Tom Jobim e Aloísio de Oliveira, com quem

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