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sábado, 29 de maio de 2010

As emoções são universais. Leitura importantíssima.

O antropólogo francês Lévi-Strauss afirma que a explicação científica busca substituir complexidades pouco compreensíveis por complexidades mais compreensíveis, e não reduzindo exclusivamente a complexidade como se imagina. Partindo deste princípio, Clifford Geertz ensina que as ciências sociais, muito mais complexas por sua essência, também devem buscar a ordenação de sua complexidade.

A idéia iluminista defendia que o homem, mesmo inserido em diversos contextos, costumes, crenças e lugares, poderia ser definido por suas características gerais, presentes em todos os indivíduos da sua espécie. Esta generalização, que buscava a simplicidade de análise e definição, falhou em vários aspectos que, por serem muito superficiais, perderam o sentido da própria definição ou tornaram por demais complexa a distinção entre características gerais e características localizadas.
Assim, diferente da idéia iluminista do homem – regulada, invariante e simples, o avanço da concepção científica da cultura propiciou uma nova idéia de homem, muito mais complexa do que se imaginava, e que até então os estudos não conseguiram organizar. É a partir do reconhecimento do homem com suas características gerais e do homem como fruto de lugares e épocas distintas é que a antropologia busca definí-lo.
De fato, apesar de a espécie humana possuir distintivas universais, é improvável que se possa definir um indivíduo como um ser desprovido das características impostas por sua cultura, necessárias até mesmo para situá-lo como membro de uma determinada sociedade. Todavia, também não se pode perder a essência do homem em suas características irrelevantes, o que fatalmente levaria sua definição a diversas caracterizações meramente pessoais e localizadas.
Conforme Clifford Geertz, todas ou virtualmente todas as correntes teóricas que tentaram localizar o homem no conjunto de seus costumes adotaram uma tática de relacionar os fatores biológicos, psicológicos, sociais e culturais entre si, denominada por ele como concepção estratigráfica. A estratigrafia compreenderia o homem como a sobreposição destes incontestáveis fatores em camadas completas e irredutíveis. Os fatores culturais, neste conceito de estratificação hierárquica, não se misturam com os demais fatores, pressupondo uma relação de independência, criando a imagem de um homem que, embora racional, estaria nu em relação aos seus costumes.
A análise concreta e a pesquisa da concepção estratigráfica buscaram definir universais na cultura através do consensus gentium, no meio da diversidade do mundo e do tempo, para que através destes fossem traçadas as características culturais essenciais ao homem, distinguindo-os dos demais traços localizados e periféricos. A idéia de consensus gentium ligado à cultura foi utilizada por diversos teóricos e com diversas denominações, tais como fez Clark Wisser com “o padrão cultural universal”, Bronislaw Malinowski com “tipos institucionais universais” e G. P. Murdock e seus “denominadores comuns da cultura”.
A busca destas universais da cultura, características comuns e generalistas aos povos, encontra diversos entraves em sua própria essência. Nesta afirmação, Clifford Geertz enumera 3 premissas que devem ser observadas:
  1. Os universais propostos devem possuir teor substancial e não apenas categorias vazias.
  2. Os universais propostos devem ser fundamentados em processos particulares biológicos, psicológicos ou sociológicos e não apenas associados a realidades adjacentes.
  3. Os universais propostos devem ser convincentemente defendidos como elementos essenciais em uma definição de humanidade perante outras particularidades culturais secundárias.
Sobre as reservas propostas e citando instituições como religião, família e casamento, Clifford Geertz afirma que ao abstrair as diferenças destes universais empíricos, como proposto pela abordagem consensus gentium, estes perdem a sua essência. Também, caso não sejam abstraídas as características, não seria possível afirmar que tais manifestações culturais possuam entre si o mesmo teor, dadas as suas distintas circunstâncias.
Assim prosseguindo, o autor demonstra que o fato de o conceito estratigráfico separar em camadas independentes os supostos constituintes do homem faz com que os mesmos não possam ser compreendidos como um conjunto interligado, anulando a possibilidade de um fenômeno não-cultural justificar um fenômeno natural.
Também, salienta que quando se intenta combinar suportes universais, baseados nos “pontos invariantes de referência”, às exigências humanas subjacentes, como a necessidade de reprodução e o casamento, se perde a relação dos níveis de relacionamento estratigráfico se deseja manter, pois tais afirmações são desprovidas de qualquer integração teórica.
Diante do impasse criado pela inadequação da teoria de conceito estratigráfico à sua prática, Clifford Geertz salienta que a tipificação adequada de homem não pode se basear na busca de constantes universais diante das particulares e acrescenta:
… pode ser que nas particularidades culturais dos povos – nas suas esquisitices – sejam encontradas algumas das revelações mais instrutivas sobre o que é genericamente humano. E a principal contribuição da ciência antropológica à construção – ou reconstrução – de um conceito do homem pode então repousar no fato de nos mostrar como encontrá-las.
Clifford Geertz defende que o fato de os antropólogos optarem pelas universais culturais, diante da diversidade do comportamento humano, é o receio que o relativismo cultural trazido pelo historicismo prive-os de um ponto fixo. Todavia, também não se pode afirmar que todos os atos feitos por um grupo devem ser dignos de respeito por qualquer outro.
De fato, se deve procurar relações sistemáticas entre fenômenos diversos, pois as diferentes características apresentadas por diversas culturas podem contribuir mais para o entendimento do homem que a relação de identidades substantivas em fenômenos similares. Ao passo da abordagem estratigráfica, deve-se ater a uma abordagem sintética, onde os fatores sociais, culturais, biológicos e psicológicos são compreendidos como variáveis de um sistema unitário de análise, integrando diferentes tipos de teoria e conceitos a fim de formular novas proposições.
Partindo deste princípio, Clifford Geertz propõe duas idéias: primeiramente, a cultura não deve ser vista como um padrão concreto de comportamento – costumes, usos e tradições, e sim como um conjunto de mecanismo de controle – planos, receitas, regras e instruções. A segunda proposição baseia-se no fato de o homem ser o animal mais dependente de controles extragenéticos que regulam o seu comportamento.
Seguindo-se o proposto, a definição de homem passa a enfatizar a cultura como mecanismo de controle, o que pode ser verificado no fato de o homem visto como um equipamento natural para viver milhares de espécies de vidas acaba por viver apenas uma.
Esta perspectiva de cultura como mecanismo de controle se fundamenta no pressuposto de que o pensamento humano é baseado em um tráfego público de símbolos significantes – palavras, gestos, relógios, jóias ou qualquer coisa afastada da realidade e que seja usada para exteriorizar uma experiência e auto-orientar-se no “curso corrente das coisas experimentadas”, como define John Dewey.
Não dirigido por padrões culturais – sistemas organizados de símbolos significantes – o comportamento do homem seria virtualmente ingovernável, um simples caos de atos sem sentido e de explosões emocionais. A cultura, a totalidade acumulada de tais padrões, não é apenas um ornamento da existência humana, mas uma condição essencial para ela – a principal base de sua especificidade.
Para que este conceito se tornasse possível, Clifford Geertz enfatiza os avanços recentes da nossa compreensão em relação à evolução do primata ao homo sapiens e especifica os 3 mais relevantes:
  1. Descartar a perspectiva seqüencial que definia a evolução física anterior à evolução intelectual, visto que os hominídeos moldaram seus descendentes através da cultura. Esta produção e transmissão de cultura foram essenciais para que o mesmo se evoluísse à definição de homem.
  2. A descoberta que as principais mudanças biológicas que originaram o homem moderno ocorreram no sistema nervoso central, e especialmente no cérebro que, com o acúmulo e desenvolvimento da cultura, representou, além de maiores proporções físicas, a maior evolução de fato.
  3. A compreensão de que o homem é um ser incompleto, dependente da cultura para se completar, distinguindo-se dos não-humanos mais do que sua capacidade de aprendizado, por sua necessidade de aprendizado para se comportar como ser humano.
Assim, a nova perspectiva da evolução do homem pressupõe o fato de que o processo de produção, acúmulo e transmissão de cultura foi o responsável pelo surgimento do homem como conhecemos, pois na ausência deste processo o homem poderia ser entendido como um monstro incontrolável, um caso psiquiátrico.
Entre o que o nosso instinto intenta e o que o homem deseja fazer há lacunas que devem ser preenchidas com as informações adquiridas pela cultura, dado que os valores, atos e até o sistema nervoso, como ironiza o autor, são produtos culturais.
BIBLIOGRAFIA
GEERTZ, Clifford: A interpretação das culturas, Rio de Janeiro: Ed. Guanabara, 1989
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daqui
http://www.jurisciencia.com/artigos/clifford-geertz-o-impacto-do-conceito-de-cultura-sobre-o-conceito-de-homem/73/ 


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